{"id":91492,"date":"2015-02-20T18:44:51","date_gmt":"2015-02-20T21:44:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=91492"},"modified":"2015-02-20T18:44:51","modified_gmt":"2015-02-20T21:44:51","slug":"na-raiz-do-evangelho-um-papa-radical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2015\/02\/20\/na-raiz-do-evangelho-um-papa-radical\/","title":{"rendered":"Na raiz do Evangelho. Um papa radical."},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Cardeal \u00a0Walter Kasper<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0vai ao fundamento das coisas. Ele parte radicalmente, isto \u00e9, come\u00e7a pela raiz (<em>radix<\/em>), pelo Evangelho. A leitura espiritual e o estudo da<strong>Sagrada Escritura<\/strong>\u00a0(<strong><em>Dei Verbum<\/em><\/strong>, 21-26), recomendados pelo\u00a0<strong>Conc\u00edlio Vaticano II<\/strong>, s\u00e3o, para ele, de fundamental import\u00e2ncia, como mostram as suas homilias e os seus discursos (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>,174s). Por evangelho, por\u00e9m,\u00a0<strong>Francisco<\/strong>n\u00e3o entende um livro ou os quatro livros que n\u00f3s indicamos como os quatro Evangelhos.<\/p>\n<p>Por &#8220;evangelho&#8221;, de fato, n\u00e3o se entende originalmente um escrito ou um livro, mas uma mensagem, mais precisamente a entrega de uma mensagem boa e libertadora, que muda a situa\u00e7\u00e3o radicalmente, coloca o ouvinte em confronto com uma situa\u00e7\u00e3o nova e o chama \u00e0 decis\u00e3o.<\/p>\n<p>No\u00a0<strong>Antigo Testamento<\/strong>, evangelho \u00e9 a mensagem da iminente liberta\u00e7\u00e3o do povo de\u00a0<strong>Israel<\/strong>\u00a0do cativeiro babil\u00f4nico; no<strong>Novo Testamento<\/strong>, \u00e9 a mensagem, espec\u00edfica de\u00a0<strong>Jesus<\/strong>, do advento do reino de Deus, a mensagem de que Jesus \u00e9 o Cristo, a mensagem da Sua morte e da Sua ressurrei\u00e7\u00e3o e do Senhor elevado, eficazmente presente na Igreja e no mundo com o Seu Esp\u00edrito, a mensagem da esperan\u00e7a na sua vinda definitiva, do in\u00edcio e do dom da nova vida.<\/p>\n<p>Pois bem, para\u00a0<strong>Francisco<\/strong>, trata-se do evangelho de Deus, na Igreja vitalmente pregado, acreditado, celebrado e vivido. Para ele, \u00e9 um evangelho da alegria, no sentido de uma plenitude superabundante de vida, que s\u00f3 Deus, que \u00e9 tudo em todos, pode dar (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 4s.; 265).<\/p>\n<p>Os primeiros par\u00e1grafos da\u00a0<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>j\u00e1 mostram que a alegria do evangelho n\u00e3o consiste, em primeiro lugar, na supera\u00e7\u00e3o de uma injusti\u00e7a social, por mais que isso, como mostram os par\u00e1grafos seguintes, esteja no cora\u00e7\u00e3o do<strong>Papa Francisco<\/strong>.<\/p>\n<p>A abordagem \u00e9 mais profunda. Trata-se da falta de alegria e de impulso, do vazio interior e da solid\u00e3o da pessoa fechada em si mesma e do seu cora\u00e7\u00e3o c\u00f4modo e avaro (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 1s.). O cora\u00e7\u00e3o fechado sobre si mesmo (<em>cor incurvatum<\/em>), tanto em\u00a0<strong>Agostinho<\/strong>\u00a0quanto em\u00a0<strong>Martinho Lutero<\/strong>, \u00e9 um conhecido motivo para descrever a situa\u00e7\u00e3o do homem ainda n\u00e3o liberto.<\/p>\n<p><strong>Francisco<\/strong>\u00a0se une a isso com o seu discurso sobre a autorreferencialidade. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a sua abordagem \u00e0 falta de alegria e de entusiasmo remonta ao que, desde os primeiros Padres do deserto e at\u00e9\u00a0<strong>Tom\u00e1s de Aquino<\/strong>, \u00e9 considerado o pecado radical e a tenta\u00e7\u00e3o original do ser humano: a ac\u00eddia, a in\u00e9rcia do cora\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a de gravidade que atrai para baixo, o peso, a n\u00e1usea das coisas espirituais, que leva \u00e0 tristeza deste mundo (<strong>2Cor\u00edntios<\/strong><strong>\u00a0<\/strong>7, 10; cfr.<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 1s.; 81).<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise do tempo presente, na realidade, n\u00e3o \u00e9 um conjunto de pensamentos bem-intencionados e piedosos, mas pouco convincentes. O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0n\u00e3o est\u00e1 sozinho nesse esfor\u00e7o de an\u00e1lise. An\u00e1lises semelhantes se encontram em muitos pensadores importantes e influentes do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>S\u00f8ren Kierkegaard<\/strong>\u00a0e, depois, de modo diferente,\u00a0<strong>Romano Guardini<\/strong>\u00a0j\u00e1 falaram da melancolia;\u00a0<strong>Martin Heidegger<\/strong>, da ang\u00fastia como estado de \u00e2nimo de fundo;\u00a0<strong>Jean-Paul Sartre<\/strong>, da n\u00e1usea do homem de hoje.<\/p>\n<p><strong>Friedrich Nietzsche<\/strong>\u00a0descreveu ironicamente o &#8220;\u00faltimo homem&#8221;, que se contenta com a pequena felicidade banal, para o qual, no entanto, n\u00e3o brilha mais nenhuma estrela: &#8220;O que \u00e9 o amor? E a cria\u00e7\u00e3o? E o desejo? O que \u00e9 uma estrela? \u2013 assim se pergunta o \u00faltimo homem e pisca o olho&#8221;.<\/p>\n<p>Lucidamente, com base em muitas cita\u00e7\u00f5es e observa\u00e7\u00f5es, quem evidenciou a falta de alegria do homem moderno foi um antecessor meu na c\u00e1tedra episcopal de\u00a0<strong>Rottenburg<\/strong>, o bispo\u00a0<strong>Paul Wilhelm Keppler<\/strong>\u00a0(1852-1926), no livro\u00a0<strong><em>Mehr Freude<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>(Mais alegria), divulgado em muitas edi\u00e7\u00f5es e tradu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>aborda o problema da Igreja e do mundo atual na raiz. \u00c0 urg\u00eancia do momento e \u00e0 crise na Igreja, ela responde com o evangelho. O evangelho \u00e9 a origem, dada de uma vez por todas, a base permanente e a fonte que jorra continuamente toda doutrina crist\u00e3 e disciplina moral (<strong><em>Dignitatis humanae<\/em><\/strong>, 1501).<\/p>\n<p>Somente a partir do evangelho, a f\u00e9 e a vida crist\u00e3 podem reconquistar o seu frescor (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 11). A alegria do evangelho pode suscitar de novo a alegria de viver, a alegria pela cria\u00e7\u00e3o, pela f\u00e9 e pela Igreja. S\u00f3 a alegria como dom do Esp\u00edrito Santo (<strong>Romanos<\/strong>\u00a014, 17; 15, 13 e seguintes), a alegria de uma &#8220;evangeliza\u00e7\u00e3o com Esp\u00edrito&#8221; (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 259-261) pode levar a um novo in\u00edcio.<\/p>\n<p>Uma vez que Deus \u00e9 o bem supremo, \u00e9 tudo em todos e tudo d\u00e1, segundo\u00a0<strong>Tom\u00e1s<\/strong>, a alegria nascer\u00e1 como plenitude global do homem do amor de Deus. Com essa abordagem, o\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0se move dentro de uma grande tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria da Igreja, o evangelho esteve no pano de fundo de muitos movimentos de renova\u00e7\u00e3o, a partir do monaquismo antigo at\u00e9 os movimentos de reforma da\u00a0<strong>Idade M\u00e9dia<\/strong>. O mais conhecido \u00e9 o movimento evang\u00e9lico de <strong>S\u00e3o Francisco de Assis<\/strong>\u00a0e de\u00a0<strong>S\u00e3o Domingos<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Francisco<\/strong>, junto com os seus irm\u00e3os, quis simplesmente viver o evangelho\u00a0<em>sine glossa<\/em>, sem tirar e sem acrescentar nada a ele (cfr.\u00a0<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 271). A partir desse movimento evang\u00e9lico da \u00e9poca, prov\u00eam os dois mais importantes te\u00f3logos da\u00a0<strong>Idade M\u00e9dia<\/strong>,\u00a0<strong>Tom\u00e1s de Aquino<\/strong>\u00a0(1225-1274) e\u00a0<strong>Boaventura<\/strong>\u00a0(1221-1274).<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong><em>Summa<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>da teologia de\u00a0<strong>Tom\u00e1s de Aquino<\/strong>, encontra-se um artigo de surpreendente originalidade sobre a nova lei do evangelho, ao qual o\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0faz refer\u00eancia expl\u00edcita na\u00a0<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>(n. 37, 43). Nele,\u00a0<strong>Tom\u00e1s <\/strong>defende que o evangelho n\u00e3o \u00e9 uma lei escrita, n\u00e3o \u00e9 um c\u00f3digo de doutrinas e preceitos, mas sim o dom interior do Esp\u00edrito Santo, que nos \u00e9 dado com a f\u00e9 e que opera no amor.<\/p>\n<p>Apenas secundariamente, documentos e prescri\u00e7\u00f5es fazem parte dele; eles devem nos dirigir ao dom da gra\u00e7a ou lev\u00e1-la a efeito; por\u00e9m, eles n\u00e3o t\u00eam nenhum significado aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a, isto \u00e9, nenhum papel justificante.<\/p>\n<p>Com essa teologia do evangelho,\u00a0<strong>Tom\u00e1s de Aquino<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Martinho Lutero<\/strong>\u00a0est\u00e3o, entre si, muito mais pr\u00f3ximos do que parece \u00e0 primeira vista. Tamb\u00e9m para\u00a0<strong>Martinho Lutero<\/strong>, o cristianismo n\u00e3o \u00e9 uma religi\u00e3o do livro, como muitas vezes se entendeu na hist\u00f3ria subsequente do protestantismo, apelando \u00e0\u00a0<em>&#8220;sola Scriptura&#8221;<\/em>. O evangelho \u00e9 palavra viva da prega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A esse respeito, por erros de todas as partes e por causa de enredamentos hist\u00f3ricos, infelizmente, chegou-se, no s\u00e9culo XVI, \u00e0 divis\u00e3o da cristandade. O\u00a0<strong>Conc\u00edlio de Trento<\/strong>\u00a0(1545-1563), que se confrontou com a doutrina da\u00a0<strong>Reforma Protestante<\/strong>, n\u00e3o foi cego a respeito da exig\u00eancia evang\u00e9lica (entendida no sentido original). J\u00e1 no primeiro decreto dogm\u00e1tico, ele proclamou que queria conservar e restaurar a pureza do evangelho, entendendo com isso o evangelho pregado, acreditado e vivido na Igreja como fonte viva de toda a verdade salv\u00edfica e de toda a moral.<\/p>\n<p>Sobre essa base,\u00a0<strong>Trento<\/strong>\u00a0introduziu uma renova\u00e7\u00e3o da Igreja e, em um de seus primeiros decretos de reforma, indicou a prega\u00e7\u00e3o como tarefa principal do bispo.\u00a0<strong>S\u00e3o Carlos Borromeu<\/strong>, considerado o modelo do bispo reformador p\u00f3s-tridentino, tornou-se nisso, para\u00a0<strong>Angelo Roncalli<\/strong>, o futuro\u00a0<strong>Papa Jo\u00e3o XXIII<\/strong>, o modelo certamente tamb\u00e9m da sua ideia de conc\u00edlio.<\/p>\n<p>Durante o\u00a0<strong>Conc\u00edlio Vaticano<\/strong>\u00a0<strong>II<\/strong>, em cada sess\u00e3o, o livro dos evangelhos era entronizado solenemente diante dos padres conciliares reunidos; o evangelho devia ter o primeiro lugar. O Conc\u00edlio, depois, colocou novamente a palavra de Deus pregada e vivida no centro da vida da Igreja (<strong><em>Dei Verbum<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>7; 21-26;\u00a0<strong><em>Lumen gentium<\/em><\/strong>, 23-25).<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong><em>Evangelii nuntiandi<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>(1975),\u00a0<strong>Paulo VI<\/strong>\u00a0indicou a evangeliza\u00e7\u00e3o como a miss\u00e3o essencial da Igreja ou, melhor, como a sua mais profunda identidade (<strong><em>Evangelii nuntiandi<\/em><\/strong>, 14) e falou da necessidade da autoevangeliza\u00e7\u00e3o da Igreja (<strong><em>Evangelii nuntiandi<\/em><\/strong>, 15).<\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Paulo II<\/strong>, em in\u00fameros discursos e, de modo sint\u00e9tico, na enc\u00edclica mission\u00e1ria\u00a0<strong><em>Redemptoris missio<\/em><\/strong>\u00a0(1990), desenvolveu o programa de uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Bento XVI<\/strong>\u00a0reprop\u00f4s tal exig\u00eancia na carta apost\u00f3lica\u00a0<strong><em>Porta fidei<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>(2011) e com a carta para o\u00a0<strong>S\u00ednodo dos Bispos<\/strong>\u00a0de 2012. O fruto desse s\u00ednodo foi recebido em muitas passagens da exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica\u00a0<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>(1; 14s; 262-283). Assim, a evangeliza\u00e7\u00e3o tornou-se o programa pastoral da Igreja, tamb\u00e9m e precisamente com o\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0se coloca em uma tradi\u00e7\u00e3o que remonta \u00e0s origens, especialmente na tradi\u00e7\u00e3o dos seus imediatos antecessores. Ao mesmo tempo, ele imergiu no presente do nosso tempo. Nas aporias do presente, de fato, a modernidade corre o risco, no\u00a0<strong>Ocidente<\/strong>, de acabar p\u00f3s-modernamente no nada, enquanto, no Sul do mundo, as consequ\u00eancias econ\u00f4micas t\u00eam efeitos mortais para milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o, muitos buscam uma alternativa e a encontram cada vez mais nos movimentos evang\u00e9licos. Alguns observadores identificaram essa tend\u00eancia evang\u00e9lica tamb\u00e9m na Igreja Cat\u00f3lica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0compreendeu esse batimento do cora\u00e7\u00e3o da Igreja atual. Ele n\u00e3o defende uma posi\u00e7\u00e3o liberal, mas uma posi\u00e7\u00e3o radical, no sentido original da palavra, ou seja, que retorne \u00e0s ra\u00edzes (<em>radix<\/em>). O retorno \u00e0 origem, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 um encurvamento sobre o ontem e sobre anteontem, mas uma for\u00e7a para um in\u00edcio corajoso voltado ao amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Com o seu programa evang\u00e9lico, ele se refere \u00e0 mensagem original da Igreja justamente como a necessidade fundamental do presente, dando in\u00edcio a uma renova\u00e7\u00e3o radical. Portanto, ele n\u00e3o se ad\u00e9qua nem a um esquema tradicionalista nem a um progressivo. Lan\u00e7ando pontes rumo \u00e0s origens, ele \u00e9 um construtor de pontes (pont\u00edfice) rumo ao futuro.<\/p>\n<p>O evangelho \u00e9 uma mensagem boa, mas tamb\u00e9m uma mensagem de desafio. \u00c9 um apelo \u00e0 convers\u00e3o e a uma nova orienta\u00e7\u00e3o. Desse modo, ele suscita necessariamente resist\u00eancias. Assim, o discurso do papa sobre o evangelho tamb\u00e9m tem inquietado muitos.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0fala muito do evangelho, mas surpreendentemente pouco da doutrina da Igreja. Por isso, muitos se perguntam: o que ele pensa da doutrina da Igreja? Ele quer at\u00e9 contrapor evangelho e doutrina, como fez a teologia liberal?<\/p>\n<p>Naturalmente o\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0n\u00e3o quer assumir essa concep\u00e7\u00e3o liberal. Ao contr\u00e1rio, o evangelho, como j\u00e1 havia dito o\u00a0<strong>Conc\u00edlio de Trento<\/strong>, \u00e9 a fonte da qual brotam as doutrinas. Para Francisco, essa n\u00e3o \u00e9 apenas uma constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Da constata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ao contr\u00e1rio, segue-se que se deve interpretar a doutrina \u00e0 luz do evangelho.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0tira essa consequ\u00eancia. Ele chama de novo \u00e0 consci\u00eancia o princ\u00edpio, reafirmado pelo\u00a0<strong>Conc\u00edlio Vaticano II<\/strong>, da hierarquia das verdades. Desse modo, ele pede que as muitas e multiformes verdades sejam interpretadas a partir do seu fundamento e do seu centro cristol\u00f3gico (<strong><em>Unitatis redintegratio<\/em><\/strong>, 11;\u00a0<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 36).<\/p>\n<p>Essa doutrina n\u00e3o \u00e9 nova.\u00a0<strong>Tom\u00e1s de Aquino<\/strong>\u00a0j\u00e1 havia evidenciado que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 uma suma exterior de uma s\u00e9rie de verdades, mas que cada afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 parte de um todo articulado (<em>articulus fidei<\/em>). Ele sabia que os artigos fundamentais da f\u00e9 envolvem a totalidade do evangelho.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o\u00a0<strong>Conc\u00edlio Vaticano I<\/strong>\u00a0tinha pedido que se compreendesse a f\u00e9 com base no nexo interior dos mist\u00e9rios e tendo em mente o fim \u00faltimo do homem (<strong><em>Dignitatis humanae<\/em><\/strong>, 3016).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma hierarquia apenas entre as verdades, mas tamb\u00e9m entre as virtudes. A moral cat\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 um cat\u00e1logo de pecados e de erros. Todas as virtudes est\u00e3o a servi\u00e7o da resposta de amor (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 39).\u00a0<strong>Jesus<\/strong>\u00a0mesmo resume lei e profetas no mandamento principal do amor a Deus e ao pr\u00f3ximo (<strong>Mateus<\/strong>\u00a022, 34-40; cfr. 5, 43;\u00a0<strong>Romanos<\/strong>13, 8-10;\u00a0<strong>G\u00e1latas<\/strong>\u00a05, 14).<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0indica isso como o cora\u00e7\u00e3o do evangelho: &#8220;Neste n\u00facleo fundamental, o que sobressai \u00e9 a beleza do amor salv\u00edfico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado&#8221; (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 36).<\/p>\n<p>A partir desse modo de ver, ele tira consequ\u00eancias pr\u00e1ticas para a prega\u00e7\u00e3o. Ele diz que, na prega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se deveria reduzir a doutrina a aspectos secund\u00e1rios. Ao contr\u00e1rio, ela deve ser compreendida a partir do nexo com a mensagem de\u00a0<strong>Jesus Cristo<\/strong>\u00a0ou, melhor, a partir do cora\u00e7\u00e3o da sua mensagem (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 34-39; 246).<\/p>\n<p>Apenas se se virem as verdades da f\u00e9 na sua \u00edntima conex\u00e3o se poder\u00e1 resplandec\u00ea-las na sua beleza original e em toda a sua for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o. S\u00f3 assim se pode novamente espalhar o perfume do Evangelho (<strong><em>Dignitatis humanae<\/em><\/strong>, 34; 39).<\/p>\n<p>Esse programa querigm\u00e1tico recorda o princ\u00edpio do\u00a0<strong>Lutero<\/strong>, &#8220;aquilo que\u00a0<strong>Cristo<\/strong>\u00a0p\u00f5e no centro (<em>was Christum treibet<\/em>)&#8221; e, no entanto, tamb\u00e9m \u00e9 muito diferente dele. De fato, para o Conc\u00edlio e para o\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>, n\u00e3o se trata de um princ\u00edpio exclusivo, com base no qual se podem eliminar as chamadas verdades secund\u00e1rias ou inc\u00f4modas, ou se pode liquid\u00e1-las como menos vinculantes.<\/p>\n<p>Para o\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>, trata-se de um princ\u00edpio hermen\u00eautico inclusivo e, de fato, sobretudo, de uma exig\u00eancia pastoral da prega\u00e7\u00e3o; com a ajuda de tal princ\u00edpio, ele quer compreender de novo o evangelho inteiro, na sua beleza interior, e fazer com que ele volte a resplandecer (<em><strong>Evangelii gaudium<\/strong><\/em>, 237).<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Papa Francisco<\/strong>\u00a0n\u00e3o quer revolucionar a f\u00e9 e a moral; ele quer interpretar f\u00e9 e moral a partir do evangelho. De acordo com o car\u00e1ter querigm\u00e1tico do evangelho, ele faz isso n\u00e3o em uma linguagem doutrinal abstrata, mas em uma linguagem simples, mas comunicativa e dial\u00f3gica n\u00e3o simplificante, que interpela as pessoas e as envolve.<\/p>\n<p>Assim, ele n\u00e3o renuncia a nada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrina; desse modo, ao contr\u00e1rio, ele pode dizer que a f\u00e9 \u00e9 sempre uma fonte fresca e refrescante (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 11) e uma verdade que nunca sai de moda (<strong><em>Evangelii gaudium<\/em><\/strong>, 265). Ele pode convencer os fi\u00e9is da beleza da f\u00e9 e encoraj\u00e1-los a uma vida alegre em virtude da f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O texto foi publicado no jornal\u00a0<strong>L&#8217;Osservatore Romano<\/strong>, 18-02-2015. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de\u00a0<strong>Mois\u00e9s Sbardelotto<\/strong>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\">Not\u00edcias<\/a> Sexta, 20 de fevereiro de 2015<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/540028<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal \u00a0Walter Kasper O\u00a0Papa Francisco\u00a0vai ao fundamento das coisas. Ele parte radicalmente, isto \u00e9, come\u00e7a pela raiz (radix), pelo Evangelho. A leitura espiritual e o estudo daSagrada Escritura\u00a0(Dei Verbum, 21-26), recomendados pelo\u00a0Conc\u00edlio Vaticano II, s\u00e3o, para ele, de fundamental import\u00e2ncia, como mostram as suas homilias e os seus discursos (Evangelii gaudium,174s). 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