{"id":92668,"date":"2015-04-02T09:30:03","date_gmt":"2015-04-02T12:30:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=92668"},"modified":"2015-04-02T09:30:03","modified_gmt":"2015-04-02T12:30:03","slug":"a-violencia-na-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2015\/04\/02\/a-violencia-na-universidade\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia na Universidade"},"content":{"rendered":"<p><div id=\"attachment_92669\" style=\"width: 343px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Jos\u00e9-Manoel-Bertolote.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-92669\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Jos\u00e9-Manoel-Bertolote.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Manoel Bertolote\" width=\"333\" height=\"268\" class=\"size-full wp-image-92669\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Jos\u00e9-Manoel-Bertolote.jpg 333w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Jos\u00e9-Manoel-Bertolote-300x241.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-92669\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Manoel Bertolote<\/p><\/div>A sociedade brasileira de hoje \u00e9 uma das mais violentas do mundo ocidental, a ponto de a maior parte de pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica indicarem a falta de seguran\u00e7a como uma das tr\u00eas maiores preocupa\u00e7\u00f5es da sociedade. No Brasil, indicadores de homic\u00eddio, de viol\u00eancia contra a mulher, de agress\u00f5es f\u00edsicas diversas, de assaltos e outras agress\u00f5es contra a propriedade, de auto-agress\u00e3o, de acidentes atingiram n\u00edveis intoler\u00e1veis.<\/p>\n<p>Infelizmente, essa viol\u00eancia que assola a sociedade brasileira cruzou os muros da academia e hoje, na Unesp, e em muitas outras Universidades brasileiras, convivemos com diversas formas de viol\u00eancia expl\u00edcita ou mais sutil. Praticamente todos os dias lemos em jornais e revistas, ouvimos no r\u00e1dio e vemos na TV not\u00edcias sobre trotes violentos, abuso sexuais e estupros cometidos sobre e por estudantes universit\u00e1rios, alguns deles dentro do pr\u00f3prio c\u00e2mpus.<\/p>\n<p>Sabemos ainda que por tr\u00e1s da maioria do ato de agress\u00e3o existe com frequ\u00eancia a participa\u00e7\u00e3o de bebidas alco\u00f3licas e de outras drogas, com um claro predom\u00ednio do \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Na Unesp, a situa\u00e7\u00e3o ultrapassou todos os limites do que pode ser tolerado, com a expuls\u00e3o de aluno por trote violento (algumas vezes empregado como eufemismo de estupro) e mortes, em um ano, de tr\u00eas alunos em situa\u00e7\u00f5es de uso excessivo de bebidas alco\u00f3licas e de outras drogas. A morte de um jovem ser\u00e1 sempre uma trag\u00e9dia pessoal e familiar. Tr\u00eas mortes de estudantes universit\u00e1rios nessas condi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de algumas mortes de estudantes que estavam dirigindo embriagados, al\u00e9m da trag\u00e9dia mencionada, indicam um estado de calamidade p\u00fablica que dever ser urgentemente interrompida e prevenida doravante.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Sabemos, a partir de diversas experi\u00eancias nacionais e intencionais, bastante s\u00f3lidas do ponto de vista cient\u00edfico, que as iniciativas e os programas de controle da viol\u00eancia mais bem sucedidos partiram de uma pol\u00edtica de toler\u00e2ncia zero em rela\u00e7\u00e3o a, por exemplo, porte de armas, uso de \u00e1lcool e outras drogas e de comportamentos violentos de qualquer natureza. <\/p>\n<p>Essa \u00e9 a pol\u00edtica que queremos implantar e implementar no \u00e2mbito de toda a Unesp, ouvidos os \u00f3rg\u00e3os competentes. A toler\u00e2ncia zero se refere tamb\u00e9m ao uso indevido de bebidas alco\u00f3licas no c\u00e2mpus e em qualquer evento, de qualquer natureza, que esteja vinculado de alguma forma, ao nome da Universidade.<\/p>\n<p>Grande parte do sucesso das campanhas de redu\u00e7\u00e3o do uso do fumo se deveu ao conceito de &#8220;dano aos outros&#8221;. Os fumantes passivos constitu\u00edram a base da popula\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fumantes, majorit\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o aos fumantes, que exigiu que fossem criados, entre outras coisas : (a) os ambientes livres de fumo, (b) a cria\u00e7\u00e3o dos &#8220;fum\u00f3dromos&#8221; para os portadores da depend\u00eancia do tabaco (um transtorno mental codificado pela Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as da OMS), (c) o controle da publicidade dos produtos fum\u00edgenos e (d) os programas de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade desses dependentes.<\/p>\n<p>H\u00e1 hoje toda uma literatura emergente indicando que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito parecida em rela\u00e7\u00e3o ao \u00e1lcool: apesar dos inumer\u00e1veis danos que o bebedor causa a si mesmo, mais danos ainda s\u00e3o causados aos outros (&#8220;bebedores passivos&#8221;): agress\u00f5es (f\u00edsicas e sexuais), ferimentos e morte de passageiros de carros dirigidos por motoristas embriagados, atropelamentos por motoristas idem, danos e perdas materiais causados por pessoas sob a influ\u00eancia do \u00e1lcool etc etc.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista prev\u00ea a demiss\u00e3o por justa causa do trabalhador que se apresentar embriagado ao servi\u00e7o ou embriagar-se em hor\u00e1rio de trabalho. Por\u00e9m, a legisla\u00e7\u00e3o impede a demiss\u00e3o de trabalhadores portadores de transtornos por uso de \u00e1lcool (ou outras subst\u00e2ncias psicoativas) ou por uso abusivo dessas mesmas subst\u00e2ncias; nestes casos, o trabalhador \u00e9 encaminhado para tratamento especializado. Por que n\u00e3o aplicar os mesmos princ\u00edpios para nossos estudantes?<\/p>\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel, deplor\u00e1vel e inaceit\u00e1vel que um aluno compare\u00e7a embriagado ou &#8220;chapado&#8221; a uma sala de aula, laborat\u00f3rio ou outro espa\u00e7o educacional, algumas vezes carregado ou apoiado em colegas bem intencionados, que ignoram que isso apenas &#8220;empurra com a barriga&#8221; o problema. O professor, em casos como esse, tem a obriga\u00e7\u00e3o de encaminhar incontinente qualquer estudante sob a influ\u00eancia de qualquer subst\u00e2ncia psicoativa a um servi\u00e7o de sa\u00fade. As Se\u00e7\u00f5es T\u00e9cnicas de Sa\u00fade (STS) da Unesp est\u00e3o equipadas para lidar com tais casos. Deixar de faz\u00ea-lo pode caracterizar crime de omiss\u00e3o de socorro \u00e0 pessoa em perigo ou necessidade.<\/p>\n<p>Toler\u00e2ncia zero em rela\u00e7\u00e3o a todas as formas de viol\u00eancia. Redu\u00e7\u00e3o dos danos a outros devidos ao uso de \u00e1lcool e outras drogas, em todo o \u00e2mbito da Unesp e em qualquer atividade associada ao seu nome. Os direitos humanos agradecem. A \u00e9tica agradece. A sa\u00fade agradece. E a Unesp cumpre seu papel maior de institui\u00e7\u00e3o de ensino.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manoel Bertolote \u00e9 professor titular (Visitante) do Australian Institute for Suicide Research and Prevention (AISRAP), Griffith University, Brisbane, Austr\u00e1lia, e Professor Volunt\u00e1rio do Depto de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria, da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sociedade brasileira de hoje \u00e9 uma das mais violentas do mundo ocidental, a ponto de a maior parte de pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica indicarem a falta de seguran\u00e7a como uma das tr\u00eas maiores preocupa\u00e7\u00f5es da sociedade. 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