{"id":94947,"date":"2015-08-05T19:23:06","date_gmt":"2015-08-05T22:23:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=94947"},"modified":"2015-08-05T19:23:06","modified_gmt":"2015-08-05T22:23:06","slug":"saudades-de-uma-imortal-minha-poeta-mae-janete-mendonca-badaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2015\/08\/05\/saudades-de-uma-imortal-minha-poeta-mae-janete-mendonca-badaro\/","title":{"rendered":"SAUDADES DE UMA IMORTAL: MINHA POETA M\u00c3E, JANETE MENDON\u00c7A BADAR\u00d3"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>*Jane Hilda, julho 2015<\/strong><\/h1>\n<div id=\"attachment_94948\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/CAPA1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-94948\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-94948\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/CAPA1.jpg\" alt=\"J.H.\" width=\"600\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/CAPA1.jpg 600w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/CAPA1-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/CAPA1-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-94948\" class=\"wp-caption-text\">J.H.<\/p><\/div>\n<p><strong>Um espectro de cord\u00e3o umbilical me liga \u00e0 minha m\u00e3e. \u00c9! Isso mesmo! \u00a0Uma esp\u00e9cie de lembran\u00e7a insistente, um feixe de luz, ou uma conex\u00e3o de pura energia a ligar uma a outra. Trata-se destes mist\u00e9rios que n\u00e3o consigo explicar. \u00a0N\u00e3o estou falando de ci\u00eancia, pois que o cord\u00e3o, aquele cord\u00e3o pelo qual ela me alimentou durante todo o per\u00edodo da gesta\u00e7\u00e3o, aquele foi rompido no instante do meu nascimento. Pode ser algo espiritual: alguns esp\u00edritos se encontram e ficam pr\u00f3ximos em v\u00e1rias encarna\u00e7\u00f5es (espero continuar pr\u00f3xima dela por muitas vidas). Mas, enfim. Mist\u00e9rios s\u00e3o mist\u00e9rios. Nesta vida, n\u00e3o importa quantas vezes tenhamos ficado longe uma da outra porque a nossa hist\u00f3ria quis assim, n\u00e3o importa quantas vezes tenhamos discordado uma da outra, quantas vezes tenhamos discutido (ela achava que n\u00e3o adiantava contra-argumentar frente \u00e0 minha teimosia&#8230;o que ela n\u00e3o sabia \u00e9 que tudo que me dizia ecoava muito fortemente em mim). N\u00e3o importa quantas vezes eu n\u00e3o tenha sido a melhor das filhas. Nada disso importa. N\u00e3o importa porque m\u00e3e ama incondicionalmente seus filhos! E ent\u00e3o, ela me amava! N\u00e3o importa porque hoje sei que ela tinha raz\u00e3o nas vezes que me disse n\u00e3o! N\u00e3o importa porque sei o quanto tenho uma admira\u00e7\u00e3o profunda por ela, porque a amo e amarei durante toda minha exist\u00eancia. <\/strong><\/p>\n<p>Saudade n\u00e3o \u00e9 um sentimento f\u00e1cil de sentir. Por um lado machuca muito a dor causada pelo seu desencarnamento, em 25 de julho p.p., pelo distanciamento de sua mat\u00e9ria, do seu corpo agora inexistente, que ficou sepultado no mausol\u00e9u da fam\u00edlia &#8211; local onde em vida, por muitas vezes, ela esteve a cultuar os nossos antepassados &#8211; no cemit\u00e9rio da Vit\u00f3ria ( sete palmos do ch\u00e3o &#8211; destino inexor\u00e1vel de todos n\u00f3s! ) ; por outro lado, este mesmo sentimento de saudade acaricia o meu cora\u00e7\u00e3o pelas doces lembran\u00e7as daquele Esp\u00edrito em forma de Ser Humano ( \u201cgente fina, elegante, sincera\u201d). E ser\u00e1 esta mesma saudade que a eternizar\u00e1 em meu cora\u00e7\u00e3o. Mas que saudade, se ela est\u00e1 bem viva em mim? Basta ligar o pensamento para vir \u00e0 minha frente aquele sorriso lindo, aquele ar inteligente de pessoa culta, intelectual, bem informada e preocupad\u00edssima com todos os problemas do mundo. Mulher de postura mansa, por\u00e9m, absolutamente questionadora, bem t\u00edpica dos livres pensadores. E com grande sensibilidade art\u00edstica! Uma mente privilegiada.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Assim era Janete Mendon\u00e7a Badar\u00f3. Inesquec\u00edvel pr\u00e1 mim! Trago na mem\u00f3ria alguns momentos especiais que jamais se apagar\u00e3o. Gostava de v\u00ea-la discursar na Academia de Letras de Ilh\u00e9us. Nas hist\u00f3ricas salas do Centro Comercial de Ilh\u00e9us e da Casa Jorge Amado, ela falava com a propriedade daqueles que estudam com afinco os temas que se prop\u00f5e abordar. E eram invariavelmente discursos po\u00e9ticos, claro! Do mesmo jeito discursava nas sess\u00f5es festivas da OAB\/Ba Subse\u00e7\u00e3o Ilh\u00e9us no Forum Epaminondas Berbert de Castro. Por v\u00e1rias vezes integrou as diretorias daquelas duas entidades, especialmente \u00e0 \u00e9poca em que as presidiaram os saudosos e ilustres advogados e acad\u00eamicos Francolino Neto e Ariston Cardoso. Ali\u00e1s, ela n\u00e3o precisava me chamar duas vezes para acompanh\u00e1-la nestas programa\u00e7\u00f5es. Ao primeiro chamado eu j\u00e1 estava pronta. Ela quem me proporcionou aproxima\u00e7\u00e3o com grandes mundos: o Direito, as Letras, a imprensa, a arte! Valendo ressaltar que, enquanto eu passeio pela superf\u00edcie das coisas, ela mergulhava em grandes profundidades, e de l\u00e1 pegava impulso para fazer \u00a0grandes voos por entre as gal\u00e1xias&#8230;sim, seus escritos mostram que por vezes revolvia os por\u00f5es dos sentimentos humanos, ao tempo que, outras vezes circulava no infinito universo em busca de decifrar os mist\u00e9rios da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Lembro ainda das belas cantorias nos tempos do karaok\u00ea do bar cultural &#8220;Caderno 2&#8221;, pelos idos de 80, \u00a0\u2013 que ela fazia quest\u00e3o de organizar e \u201ccomandar\u201d- ali se revelaram alguns talentos que hoje integram o time dos melhores da m\u00fasica regional. Ela mesma gostava de abrir a noite, com \u201cEu seu que vou te amar\u201d, de Vinicius de Morais, e outras p\u00e9rolas da M\u00fasica Popular Brasileira. Como cantava lindo! Mulher de muitos talentos: advogada, escritora, poeta, jornalista, artista pl\u00e1stica \u2013 pintava e desenhava muito bem. Quantas noites, passou debru\u00e7ada em revis\u00e3o de textos para o Ilh\u00e9us Jornal, Ilh\u00e9us Revista, Revista IR &#8211; \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o que fundou junto ao seu saudoso esposo, meu pai, Carlos Alberto Ramagem Badar\u00f3 &#8211; e que ela dirigiu por mais de 20 anos, tendo feito hist\u00f3ria na imprensa regional: arte, cultura, turismo, pol\u00edtica, literatura, economia, esporte, meio ambiente&#8230; Ah, um mundo encantador! Na reda\u00e7\u00e3o, cheia de pap\u00e9is, livros, revistas, recortes, fotos, fotolitos, textos originais, circulavam os intelectuais da cidade. Verdadeira oficina de inicia\u00e7\u00e3o para diversos profissionais de imprensa que atuam hoje na regi\u00e3o. Foi a primeira militante dos direitos da mulher que eu conheci. Por tudo isso, n\u00e3o \u00e9 somente pela condi\u00e7\u00e3o de filha, meu desejo de reverenci\u00e1-la!<\/p>\n<p>Nascida em 16 de julho de 1935- dia em que, nas tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, se homenageia Nossa Senhora do Carmo-, filha de Ariston Bastos de Mendon\u00e7a e Beatriz Neves de Mendon\u00e7a. Ilheense, aposentada pela Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado da Bahia, foi a primeira mulher a ingressar na Academia de Letras de Ilh\u00e9us, academia que fizeram parte tamb\u00e9m os escritores Jorge Amado e Adonias Filho. Bacharel em Direito e Letras. Dois livros lan\u00e7ados: &#8220;Momentos\u201d e &#8220;M\u00e1scaras em Prociss\u00e3o&#8221; (este \u00faltimo, prefaciado por Adonias Filho, foi lindamente ilustrado por ela mesma!), al\u00e9m de participa\u00e7\u00e3o em diversas colet\u00e2neas. Publicou cr\u00f4nicas e contos em jornais e revistas regionais. Seu nome \u00e9 verbete em duas enciclop\u00e9dias indicativas dos escritores baianos.. Por v\u00e1rias vezes recebeu em sua casa poetas, m\u00fasicos, pessoas de teatro, professores, enfim, a fina intelectualidade, veteranos e emergentes, para saraus, encontros memor\u00e1veis onde se respirava arte e cultura de primeir\u00edssima qualidade. Chegou tamb\u00e9m a ocupar o cargo de Chefe de Gabinete da Prefeitura Municipal de Ilh\u00e9us, pelos idos de 70. E com seu trabalho na imprensa divulgou bons feitos das gest\u00f5es pol\u00edtico-administrativas da cidade que tanto amava, assim como tamb\u00e9m criticou construtivamente todas as vezes que precisou.<\/p>\n<p>Enfim, Janete Badar\u00f3 escreveu uma bela hist\u00f3ria em seus 80 anos de vida! \u00a0Acima de tudo, urdiu a teia da uni\u00e3o familiar, entrela\u00e7ando fios de ternura e amor no seu lar. M\u00e3e de 5 filhos: Arilton Carlos, Jane k\u00e1tia, Jane Suely, Carlos Alberto (Beto) e eu (Jane Hilda), av\u00f3 e bisav\u00f3 de muitos netos e bisnetos, genros e noras. De tudo que a encantava, sua fam\u00edlia era o tesouro que mais prezava! Tenho alegria de t\u00ea-la como m\u00e3e! Minha musa! Uma refer\u00eancia na minha vida. Aos meus olhos foi uma mulher de vanguarda. Assim era a menininha de cachos dourados, da linha familiar do intendente Eust\u00e1quio Bastos, crescida numa das primeiras casas constru\u00eddas em Ponta d\u2019Areia (hoje av. Soares Lopes), criada t\u00e3o carinhosamente pelo tio Milton Bastos de Mendon\u00e7a (propriet\u00e1rio por muitas d\u00e9cadas da Lojas Portela, no Cal\u00e7ad\u00e3o de Paranagu\u00e1) e as tias Elpha, Toinha, Nenem e Zulnara! \u00a0Nos \u00faltimos anos de vida, j\u00e1 com a sa\u00fade necessitando de cuidados, recolheu-se de toda vida social e dedicou-se \u00e0 leituras, e ao conv\u00edvio familiar. Gostava muito de ler os grandes cl\u00e1ssicos, filosofia, hist\u00f3ria das religi\u00f5es, neuroci\u00eancias, hist\u00f3ria, textos sociol\u00f3gicos, ci\u00eancias, etc. Sobre sua cren\u00e7a, bem, num dos seus textos, afirma: \u201c&#8230; A natureza\/ Deus \u00e9 permanente&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 *Jane Hilda \u00e9 advogada, professora do DCIJUR\/UESC, jornalista e artista pl\u00e1stica<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Jane Hilda, julho 2015 Um espectro de cord\u00e3o umbilical me liga \u00e0 minha m\u00e3e. \u00c9! Isso mesmo! \u00a0Uma esp\u00e9cie de lembran\u00e7a insistente, um feixe de luz, ou uma conex\u00e3o de pura energia a ligar uma a outra. 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