{"id":98029,"date":"2015-12-19T19:00:25","date_gmt":"2015-12-19T22:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=98029"},"modified":"2015-12-19T20:51:30","modified_gmt":"2015-12-19T23:51:30","slug":"sobre-a-atual-vergonha-de-ser-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2015\/12\/19\/sobre-a-atual-vergonha-de-ser-brasileiro\/","title":{"rendered":"Sobre a atual vergonha de ser brasileiro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Por Affonso Romano de Sant&#8217;Anna<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><em><strong>(Diante da pesquisa que aponta F.H. (presidente da Rep\u00fablica Fernando Henrique) como o brasileiro que mais envergonha o pa\u00eds, o cronista se v\u00ea for\u00e7ado a publicar um texto de 17 anos atr\u00e1s, atual\u00edssimo)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Que vergonha, meu Deus! ser brasileiro<br \/>\ne estar crucificado num cruzeiro<br \/>\nerguido num monte de corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAntes nos matavam de porrada e choque<br \/>\nnas celas da subvers\u00e3o. Agora<br \/>\nnos matam de vergonha e fome<br \/>\nexibindo estat\u00edsticas na m\u00e3o.<br \/>\nEst\u00e3o zombando de mim. N\u00e3o acredito.<br \/>\nDebocham a viva voz e por escrito<br \/>\n\u00c9 abrir jornal, l\u00e1 vem desgosto.<br \/>\nCada not\u00edcia \u00e9 um v\u00eddeo-tapa no rosto.<br \/>\nCada vez \u00e9 mais dif\u00edcil ser brasileiro.<br \/>\nCada vez \u00e9 mais dif\u00edcil ser cavalo<br \/>\ndesse Exu perverso<br \/>\nnesse desgoverno terreiro.<br \/>\nNunca vi tamanho abuso.<br \/>\nEstou confuso, obtuso,<br \/>\ncom a raz\u00e3o em parafuso:<br \/>\na honestidade saiu de moda<br \/>\na honra caiu de uso.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nDe hora em hora a coisa piora:<br \/>\narruinado o passado,<br \/>\ncomprometido o presente,<br \/>\nvai-se o futuro \u00e0 penhora.<br \/>\nValei-me Santo Cabral<br \/>\nnessa avessa calmaria<br \/>\nem forma de recess\u00e3o<br \/>\ne na tempestade da fome<br \/>\nensinai-me a navega\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEste \u00e9 o pa\u00eds do diz e do desdiz,<br \/>\nonde o dito \u00e9 desmentido<br \/>\nno mesmo instante em que \u00e9 dito.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 ling\u00fcista e erudito<br \/>\nque apure o sentido inscrito<br \/>\nnesse discurso invertido.<br \/>\nAqui o discurso se trunca:<br \/>\no sim \u00e9 n\u00e3o. O n\u00e3o, talvez.<br \/>\nO talvez, nunca.<br \/>\nEis o sinal dos tempos<br \/>\neste o pa\u00eds produtor<br \/>\nque tanto mais produz<br \/>\ntanto mais \u00e9 devedor.<br \/>\nUm pa\u00eds exportador<br \/>\nque quando mais exporta<br \/>\nmais importante se torna<br \/>\ncomo pa\u00eds mau pagador.<br \/>\nE, no entanto, h\u00e1 quem julgue<br \/>\nque somos um bloco alegre<br \/>\ndo \u2018\u2018Comigo Ningu\u00e9m Pode\u2019\u2019<br \/>\nquando somos um pa\u00eds de cornos mansos<br \/>\ncuja hist\u00f3ria vai dar bode.<br \/>\nDar bode, j\u00e1 que nunca deu bolo,<br \/>\nt\u00e3o prometido pros pobres<br \/>\nem meio a festas e alarde<br \/>\nonde quem partiu, repartiu<br \/>\nficou com a maior parte<br \/>\ndeixando pobre o Brasil.<br \/>\nEis uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ntotalmente pervertida<br \/>\n&#8212; uma na\u00e7\u00e3o que \u00e9 rica<br \/>\nconsegue ficar falida,<br \/>\no ouro brota em nosso peito,<br \/>\nmas mendigamos com a m\u00e3o,<br \/>\numa na\u00e7\u00e3o encarcerada<br \/>\nque doa a chave ao carcereiro<br \/>\npara ficar na pris\u00e3o.<br \/>\nCada povo tem o governo que merece?<br \/>\nOu cada povo<br \/>\ntem os ladr\u00f5es a que enriquece?<br \/>\nCada povo tem os ricos que o enobrecem?<br \/>\nOu cada povo tem os pulhas<br \/>\nque o empobrecem?<br \/>\nO fato \u00e9 que cada vez mais<br \/>\nmais se entristece esse povo num ros\u00e1rio<br \/>\nde contas e promessas num sobe e desce de prantos e preces.<br \/>\nC\u2019est n\u2019est pas um pays s\u00e9rieux!<br \/>\nj\u00e1 dizia o general.<br \/>\nO que somos afinal?<br \/>\nUm pa\u00eds-perer\u00ea? folcl\u00f3rico? tropical?<br \/>\nmisturando morte e carnaval?<br \/>\nUm povo de degradados?<br \/>\nFilhos de degredados<br \/>\nlargados no litoral?<br \/>\nUm povo-macuna\u00edma<br \/>\nsem car\u00e1ter-nacional?<br \/>\nPor que s\u00f3 nos contos de fada<br \/>\nos pobres fracos vencem os ricos nobres?<br \/>\nPor que os ricos dos pa\u00edses pobres<br \/>\ns\u00e3o pobres perto dos ricos<br \/>\ndos pa\u00edses ricos? Por que<br \/>\nos pobres ricos dos pa\u00edses pobres<br \/>\nn\u00e3o se aliam aos pobres dos pa\u00edses pobres<br \/>\npara enfrentar os ricos dos pa\u00edses ricos,<br \/>\ncada vez mais ricos, mesmo<br \/>\nquando investem nos pa\u00edses pobres?<br \/>\nEspelho, espelho meu!<br \/>\nh\u00e1 um pa\u00eds mais perdido que o meu?<br \/>\nEspelho, espelho meu!<br \/>\nh\u00e1 um governo mais omisso que o meu?<br \/>\nEspelho, espelho meu!<br \/>\nh\u00e1 um povo mais passivo que o meu?<br \/>\nE o espelho respondeu<br \/>\nalgo que se perdeu<br \/>\nentre o inferno que pade\u00e7o<br \/>\ne o desencanto do c\u00e9u.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Texto extra\u00eddo do jornal &#8220;O Globo&#8221; &#8211; Rio de Janeiro.<\/strong><\/span><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Affonso Romano de Sant&#8217;Anna (Diante da pesquisa que aponta F.H. 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