De: Mehmed
Assunto: OS NOVOS RICOS

Corpo da mensagem:
Os novos Ricos.

Ainda ontem à noite, enquanto no intercurso duma saudável cagada; notebook sobre os joelhos, quando acabara de ler atenciosamente o maiúsculo editorial em que o brimo Rabat comunicava em negritos garrafais, “a sua saída do sério”, espero, permanente, definitiva e irreversível. Foi ali, naquele lugar solitário que me veio à mente, não sei se em razão do “material” produzido ou da transcendentalidade do momento íntimo (os romanos gostavam de defecar coletivamente, ocasião em que aproveitavam para discutir em salutares papos com os cagantes à sua volta, assuntos como política, literatura, ciências sociais, coisas de sociedade, etc.). Eu hem!
Pois é! Foi ali no “quartinho” que me vieram não sei de onde, os lúgubres pensamentos. Imaginem vocês cagar e pensar, filosofar, perfilar, analisar e admirar à luz da literatura contemporânea os nossos “novos ricos” de Ilhéus? Momentos mágicos de rara inspiração kafkiana! Ou seria Julio Verdiana?

Primeiro vieram à mente algumas inquietantes indagações, perquirições de natureza filosófica e sócio comportamentais sobre os nossos “novos ricos”. Lembro que pulei os aspectos de fundo moral e ético.
Porque eles são assim tão estereotipados? Porque tanta baixa auto-estima? Porque necessitam exibirem-se, pavoneando-se nessa medíocre dança do acasalamento? E tudo isso para poderem ter acesso ao aquário dos peixinhos dourados chamados de “riquinhos” e, lá de dentro, mostrarem-se maiores, poderosos e arrogantes (a refração da luz sobre o vidro e a água produz o ilusório aumento de tamanho corporal) a ponto de exibicionistas, perdulárem levianamente contra suas novas riquezas? Isso me lembra o ciclo de vida das borboletas: Cópula do acasalamento; ovo; lagarta; pupa e finalmente borboleta da família das efeméridas! Tão efêmera quanto o próprio nome a classifica!
Há um paradoxo nisso tudo: Quando alguém acerta um grande prêmio da loteria, geralmente, ate por medida de segurança pessoal; procura manter-se discreto, simplório no consumo e comedido no gastar. A confidencialidade sobre a “neo riqueza” preserva-o de assédio de oportunistas, ladrões e necessitados. Eles preservam como disfarce, quase a mesma imagem proletária de antes do prêmio milionário ou da herança recebida. Outros, expondo-se irresponsavelmente e, de forma temerária; pavoneiam-se arrogantes, supra poderosos; arrotam dinheiro, defecam moedas de um real; não dão esmolas, mas assinam Livros de Ouro e gastam fortunas com publicação de fotografias nas revistas Vips e colunas sociais chiques magnânimos. Não é interessante? Ou é bizarro?
Agora repensemos sobre esse ultimo modelo de “Novo Rico”; nossos velhos conhecidos de Ilhéus; os mesmos cujas excepcionalidades financeiras e patrimoniais saltam do zero – barnabé para o infinito Midas, tornando-os repentinamente parceiros do Eike Batista, dos Hermilo de Morais; Chiquinho Scarpa; dos herdeiros de Olavo Setúbal. Que passam de repente a Cliente VIP da Daslu; das Companhias aéreas e hotéis cinco estrelas! Esses também andam empertigados e arrogantes; não pedem licença nem fecham as portas que lhes deram acesso. Embora numa estética de estilo confuso e inclassificável; são lindos! Às vezes eles aplicam botox e submetem-se a pequenas lipo-esculruras; o que lhes confere certa aparência de beleza andróide, sobre o indisfarçável manequim desengonçado e amarfanhado de “ex-pobre”, feio e do pé grande.
Esses “novos ricos” são os mais freqüentes entre nós. Pessoalmente jamais conheci alguém que tendo acertado um grande prêmio da loteria; recebido uma imensa herança financeira ou patrimonial, ou ate mesmo uma polpuda indenização, tenha se transformado num “novo rico” estandardizado a público!
Por mais que mergulhemos fundo no trabalho, que façamos investimentos volumosos em nossos negócios sejam eles comerciais, de serviços ou prospecção de jazidas; são raríssimos aqueles que logram o êxito de, repentinamente ou em quatro ou seis anos, triplicarem ou quadruplicarem seus investimentos financeiros ou patrimoniais e tornarem-se meritosos “novos ricos”. Isso é utópico nos nossos dias.
De tudo que vi e, que me contrariam todas as assertivas, são aqueles casos comuns que ocorrem nos excelentes mercados dos Serviços Públicos, sejam municipais, os mais rentáveis, ou ate os estaduais! Dai sim, com toda razão, saem hordas de “novos ricos”; pavões, aves-do-paraíso; Cisnes, Galos e ate galinhas de linda plumagem. Eta segmento bom minha gente! (Mas quero não!)
Num semestre o “investidor” nomeado e empossado bem como, aqueles outros eleitos pelo povo, que circulavam de à pé, como se diz lá em Carangola; de buzu; numa velha bicicleta, capitaliza-se e patrimonializa-se num passe de mágica, para logo em seguida aparecer pilotando uma Hilux 4×4 e adquirir imediatamente o BMW, porque a Hilux 4×4 é pra ir à fazenda e à casa no sítio da praia. Aquelas roupas desbotadas; ternos puídos; sapatos do baratão e as compras de mercado na Feira do Povo, agora fazem parte do passado. Não volta pra aquele bairro muxibento nunca mais. Agora é Pierre Cardin, Yves Saint L, sapatos italianos, gravatas inglesas, as compras de mercado chegam de avião, direto de São Paulo, pois foram efetuadas via Internet.
Investimentos em agricultura, pecuária e laranjais. Aquisições de fazendas, apartamentos de luxo, aplicações em ações laranja, ao portador e nominativas. Reformas imobiliárias e mudança para endereço condizente ao novo status. Motorista particular. Restaurantes de luxo. Festas para chiques. Há um indisfarçável ar de esnobismo, sofisticação e riqueza desajeitados, tomando assento sobre os manequins desengonçados e amarfanhados de ex-pobres. Há, entretanto algo que eles não podem esconder das suas origens de anoréticos de grana em desalinho ao trato com o neo endinheiramento: Os pés de pavão horríveis e o canto rouco daqueles que falam com a boca cheia, abarrotada de comida, espargindo sobre nós aquela saudosa farofa de ovo com a qual ainda não conseguiram se desacostumar e abolir dos seus cardápios chiques nos Domingos na casa de praia. A farofa de ovo posa humilhada em pratos de porcelana inglesa cercada de camarões-pistola, bacalhau norueguês, trufas negras e caviar. É impossível apagar totalmente um passado sem aplomb e fair-play.
Eu adoro os nossos novos ricos. São lindos enquanto murídeos.
Agora, com licença. Vou dar descarga
Por. Mehmed.


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