Transcrito do jornal “Correio de Ilhéus”
Edição de 31 de dezembro de 1929

EIS-ME

(FILOSOFIA REVOLUCIONÁRIA)

ESCRITO POR MIM E PARA MIM MESMO, PORQUE NINGUEM ME COMPREENDE.

NELSON SCHAUN

(ANTEFÁCIL DE UM LIVRO EM FORMAÇÃO)

Desde Talles de Mileto, 640 anos antes de Cristo, vivem os homens preocupados com o mais grave e, também, o mais obscuro problema da vida: – O porquê das coisas.

Achar, pois, a explicação do conjunto das coisas, tal é a filosofia em si, a ciência das ciências, que busca descobrir os princípios, para conhecer os meios e predizer os fins.

O certo, porém, é que toda essa beleza e toda essa monstruosidade, toda essa magnificência, e toda essa miséria, toda essa verdade e toda essa mentira, todo esse maravilhoso contraste que faz toda essa terrível harmonia das coisas, é e continuará a ser, pelos tempos em fora, o eterno X, a impenetrável incógnita somente ainda perquirida de quantos, insensatos, não se convencem da niilidade da humana sabedoria, e dos que persistem no insano propósito de plantar os pés no último degrau do insondável abismo das profundezas e alçar as mãos até o ponto culminante do inviolável mistério das alturas.

No constante palpitar da existência, na vibração contínua das coisas organizadas, apenas um problema, um só, absolutamente, nos é dado resolver: sabermos que vivemos.

Como? Por quê? Impossível.

Donde viemos? Para onde vamos? Segredo.

E hão de ser, por todos os dias, até a certeza ou incerteza do século final, dois problemas, duas questões abertas, e sempre abertas, irresolvíveis e sempre irresolvíveis, a principalidade e a finalidade.

Ora, se não nos é dado penetrar os âmbitos secretos da principalidade, e se nos não é dado levantar uma dobra se quer do extraordinário véu que esconde o mistério da finalidade, impossível nos há de ser, portanto, a explicação das coisas.

Mentira, pura mentira, mentira integral é, conseqüentemente, a filosofia.