Anísio Cruz – fev. 2018

Silêncio na grande cidade. Os tambores que antes rufavam, marcando o passo alegre da multidão, foram deixados de lado junto a outros apetrechos da folia. Para onde foram os clarins que soavam forte, enchendo o espaço com seus sons estridentes? E as guitarras elétricas, que puxavam músicas entoadas aos brados, através dos “cinco mil alto-falantes” instalados nos imensos trios? E porque pararam eles, os trios, nas ruas desertas da cidade? E os seus puxadores, músicos, cordeiros, por onde andarão nessa madrugada cinza, de uma quarta-feira triste? Para onde foi a grande multidão de alucinados coloridos, que dançava e pulava, aos beijos e afagos, como se não houvesse amanhã? Para onde foram todos?

Nas ruas antes iluminadas feericamente, os restos da folia amontoam-se, a cada canto, fedendo a mijo, e vômitos, à espera de que chegue um outro bloco, menos festivo, para executar o seu trabalho. Seus instrumentos não são sonoros, e ao contrário dos outros, varrem o lixo deixado durante a festa. São vassouras, e pás, manejados por outras mãos calejadas, que assumem as ruas no seu trabalho de limpeza. Os caminhões que os seguem, apenas engolem, e trituram o lixo, para conduzi-lo ao seu destino final. Aqui e ali, ágeis catadores de latinhas, buscam recolher o maior número possível, para vendê-las e garantir o alimento, ou as sandálias dos filhos. Esse é o panorama da cidade, que se fez silenciosa, após o reinado do Momo. Findou-se mais um carnaval.

É triste, eu sei. Mas a vida tem que continuar. Em pouco tempo as ruas estarão fervilhando de pés ainda cansados, cheios de calos, mas que precisam chegar. Uma velha e necessária rotina os espera. E um a um vão despertando da dolorida noite mal dormida, para reassumirem as suas personalidades, deixadas de lado na festa permissiva que se findou. Não são mais travestidos, pierrôs, e colombinas felizes e risonhas, que antes desfilavam nas avenidas. Já não vestem fantasias, mortalhas, abadás, ou poucas roupas a lhes cobrir os corpos. Já não são reis, rainhas, porta bandeiras, mestres salas, ou figurantes anônimos. A realidade da vida os faz voltar ao que eram antes da festa. São agora marias, e josés, dependurados nos estribos dos ônibus abarrotados, que os conduzem aos afazeres. Alguns conversam, contam seus casos, suas aventuras fugidias, os beijos roubados, a transa louca com desconhecidos. Nas faces ainda sonolentas, brilham as purpurinas que os maquiaram nas últimas noites. Sim, elas sairão com o tempo, como as lembranças que lhes impregnarão as mentes, até que novos sonhos venham ocupá-las.

Que bom seria se a “fantasia fosse eterna”, que a festa seguisse infinitamente, dia após dia, ano após ano, irresponsavelmente. Mas não. Tudo tem o seu “antes, o agora e o depois”, como disse o poeta. Com o carnaval não seria diferente. Então, mãos à obra, gente boa! Este é um ano complicado para a nossa nação. Temos que definir muita coisa antes de apertarmos as teclas daquelas maquininhas suspeitas, onde fotos de políticos manjados, se oferecem como as melhores opções, cheios de promessas. São candidatos a presidente, governadores, senadores e deputados, ávidos para chegarem ao poder, pelo nosso voto. Como sempre, esquecerão depois as promessas feitas, os programas publicados, os afagos e os abraços das campanhas. Queriam apenas os mandatos que, como sempre lhes confiaremos. Ah! Antes, tem a Copa do Mundo para nos anestesiar. Coloquemos cinzas nas testas, enquanto é tempo.