Autor: Gustavo Kruschewsky

Naquele tempo, continuava se insurgindo em Ilhéus a briga na disputa do “poder” de políticas públicas. Existiam “ilustres” candidatos a cargos públicos, que jogavam limpo na disputa eleitoral, mas também surgiram muitos churdos que se envolveram na “política” utilizando-se do exercício da “arte” de captação de sufrágio, e com suas equipes formavam verdadeiros currais eleitorais. A coisa era feita com a colaboração das figuras de alguns “coronéis” – com decorrer do tempo de muitos empresários – que tinham poderio no meio rural e em vários bairros e distritos de Ilhéus. Era uma corrente que funcionava. Hoje – com o advento da tecnologia – dá-se o nome de REDE. Confiavam na expressiva votação, graças às providências do “voto de cabresto”, o famoso voto comprado, que subsiste historicamente até os nossos dias em época de “democracia” no Brasil.

Vale lembrar que a disputa pelo poder público naquela época em Ilhéus era tipo o conservadorismo e o liberalismo. Faz lembrar o que opera nos dias de hoje nos Estados Unidos da América do Norte – Democratas versus Republicanos! Conta a história que alguns clãs de posses em Ilhéus travavam essa luta “ideológica”. Algumas famílias construíram seu patrimônio através do labor próprio e outras tantas cumularam riquezas através de ter muito prestígio com instituições importantes do município. Alguns desses “líderes” ocuparam a cadeira de alcaide do município de Ilhéus.

A verdade é que os eleitores daquela época, que pertenciam mormente à massa – considerada excluída – nunca souberam o que significa CONSERVADORISMO ou LIBERALISMO. É, até hoje, uma linguagem para encher linguiça, que a massa e muita gente do povo não entendem, ainda usada pela elite “política” dos tempos atuais. Sendo assim, esses “eleitores”, a maioria de cabrestos, não conheciam nem de longe o subterrâneo do processo político da cidade de Ilhéus. Eles eram abertamente comprados em troca do voto – era

a cultura da época – que até hoje existe – utilizada em pleitos municipais, que finalmente decidiam as eleições. Naquele tempo não era crime a captação de sufrágio. Só com o advento da Lei 9.504, de 1997 – prevista no artigo 41-A – tornou-se ilicitude a captação de sufrágio, a famosa compra de votos. Antes, porém, prevalecia a máxima jurídica que ainda está a viger no país, que: “não existe crime sem lei anterior que a defina nem pena sem prévia cominação legal”, considerando que não existia legislação à época que normatizasse essa prática.

A vida em Ilhéus ainda era bastante provinciana, apesar do seu tempo de existência. A população citadina já se aproximava dos quarenta mil habitantes. As ruas de poucos bairros existentes não eram todas calçadas, como se amarga ainda nos dias atuais. Os distritos, pior ainda! Se não fosse o transporte através de trem se teria dificuldades ainda maiores de se chegar até a alguns deles. Hoje, nem os ônibus conseguem transitar pela precariedade das estradas e dos “transportes” públicos.

Existia somente um estabelecimento bancário na cidade. Escolas, apenas a municipal – que depois tornou-se referência na cidade – e em fase embrionária o conhecido Instituto Nossa senhora da Piedade, que existe até hoje já bem estruturado e modernizado. Devido ao aumento populacional havia necessidade urgente de criação de mais escolas públicas e de outras particulares. Com o tempo surgiu a Escola Eduardo Siqueira, no bairro nobre denominado Cidade Nova (que hoje já não é tão nobre); Escola Afonso de Carvalho, bem no centro da cidade, e outras talvez de melhores portes em termos estruturais. Assim foi se desenvolvendo a educação sistemática na velha cidade do São Jorge dos Ilhéus que diga – se de passagem tem boa nota de aprovação.

A estruturação urbana e de localização de construções “imobiliárias” em Ilhéus – desde priscas eras – não foram bem trabalhadas e por isso foi se contabilizando um verdadeiro furdunço na cidade, o qual se ressente até os nossos dias. Muitos governos iniciais, e quase todos os seguintes, nunca se preocuparam com uma estrutura sólida, com normas estabelecidas a fim de organizar a cidade urbanisticamente com vistas também a se garantir uma verdadeira sustentabilidade na mobilidade urbana.

Existia abertamente naquela época – se existir nos dias de hoje é velada – uma rivalidade própria de pessoas fanáticas entre as cidades de Ilhéus e Itabuna. Por isso mesmo as duas cidades politicamente perderam a oportunidade de criar pelo menos um consórcio público que abarcasse notadamente o serviço de transporte urbano, o serviço de telefonia e de estabelecer de forma sustentável, nessas duas cidades, uma bela e eficiente estrutura de saneamento básico urbano preocupada com “o abastecimento de água potável, o manejo de água pluvial, a coleta e tratamento de esgoto, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos e o controle de pragas e qualquer tipo de agente patogênico, visando à saúde das comunidades”. Destes itens enumerados não se vê, nem precariamente nos dias de hoje, o tratamento de esgoto! Uma vergonha! Infelizmente é duro se dizer que o passado e o presente em Ilhéus têm muito mais semelhanças do que diferenças do ponto de vista de ações políticas. A história deixa a perceber que a grande maioria dos alcaides vivia ao sabor dos farranchos…