(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
Muito antes do assoreamento dominar o Jequitinhonha –em especial nas
águas portuárias de Bebel–, o rio, além de ancoradouro, serviu de amerissagem aos
Junkers W-34 e JU-52, hidroaviões de 5 e 19 passageiros da empresa Syndicato
Condor Ltda., ao intercalar, em escala regular, a linha Salvador/Rio e vice-versa,
como exposto no Umas e Outras XXXI.
Essa interação água e ar pareceu pressupor o outro pendor de Bebel: o pela
aviação. Quando de 1956 a 1961 o presidente Juscelino Kubitschek construiu
estradas e incentivou a vinda de empresas como Ford, Volkswagen, alicerçando a
indústria automobilística do país, em Bebel a construção entre 1951 e 1955 de pista
pavimentada –com aeroporto– fomentava a vocação da cidade pelo transporte
aéreo. Com infraestrutura disponibilizada, não tardou companhias aéreas como
Cruzeiro do Sul, Varig, Vasp, Sadia –com seus aviões “Douglas” DC-3–
agenciarem em sequência viagens interestaduais na cidade. As de curtas distâncias
eram dominadas pelo famosos ‘teco-tecos’, ‘cessnas’, ‘piper’, ‘bonanzas’,
monomotores sempre prontos a decolarem com destino onde existisse uma pista
em condição de aterrisagem. Com isso nasce em Bebel, ao lado dos barcos a vapor
(mencionados igualmente na parte XXXI) um modelo dual de transporte.
Nesse clima aeronáutico pilotos como Benedito Ambrósio, Juarez Cardoso,
Amando Peixoto, Alberto Costa Lima, Nena Lapa, Fafá, Wanderley, Demóstenes
Xaxa, Gilberto Pedreira, Diogo, Márcio, Agnelo, Lito, Fernando, Meira dentre
outros nomes, eram familiares da cidade. Sim, como as proezas realizadas por bom
número deles, como a de Rafael Tosto (ou Fafá, como era conhecido) ao cismar de
passar por baixo da ponte do Jequitinhonha com seu monomotor. Mas, a façanha,
como o ressalta, não foi na ‘tora’ não, pois houve um tempo dedicado a minuciosos
cálculos e só depois disso é que o projeto se concretizou. E fora tão bem-sucedido
que o condutor não hesitou em atravessa-la mais uma vez. E que dizer dos rasantes
a derrubar antenas de televisão da casa em Itapebi de Nelson Moura, conhecido
cacauicultor e comerciante desta cidade e, seu sogro?! Claro que os voos baixos
eram impulsionados pelos arroubos da juventude, mas tinham um objetivo:
demonstrar as qualidades de aviador à futura cônjuge e ao pai dela, apesar dos
prejuízos televisivos lhe causados.
Voltaremos a falar dos aviadores na próxima Umas e Outras. Mas
antecedendo a batida do martelo achamos por bem registrar que este escrevinhado
está inserido numa época em que as nações, tanto as desenvolvidas como as
subdesenvolvidas, naquela de progredir e progredir, procuravam, com a vênia para
a expressão, “comer” Petróleo. O Brasil, ávido por progresso não vacila. No
quesito transporte tratou logo de desembarcar das ferrovias e, embarcar –com as
rotas aéreas correndo por fora– nas rodovias. O uso sem controle ou moderação (a
partir da queima do ‘carvão mineral’ se diga) do dito óleo e de seus derivados só
podia dar no pior: o aumento da poluição do ar, intensidade do ‘efeito estufa’ e
consequente elevação do aquecimento do Planeta, com efeito danoso em todo o
mundo. Hoje, na tentativa de diminuir a desgraceira, as nações adotam a
‘garimpagem’ à cata em seus territórios de fontes energéticas renováveis,
entretanto sem a formulação de um “contrato” com a forte –e capitalista, claro–
cadeia produtiva –e seguimentos– do mineral. Isso sem contabilizar a significativa
ajuda do contínuo ‘desmatamento’, sobretudo na Amazônia.
Para os incrédulos das alterações climáticas, aqui – ‘in loco’– na região do
Sul da Bahia está fazendo um calor do ‘cacete’, além da conta, ou seja, crescente
como vem ocorrendo nos anos anteriores.
Heckel Januário
Em tempo: as lembranças trocadas pelo WhatsApp com o belmontense Rogério
Gomos de Oliveira sobre os pilotos foram valiosas na elaboração deste
escrevinhado.
Em tempo2: a mencionada ‘ponte’ fica na BR-101 nas proximidades de Itapebi. O
fato da ‘ponte’ e da ‘antena’ foram confirmados de viva voz e com detalhes pelo
aludido piloto em conversa com o Rogério (citado acima), quando mês passado
(XI/2019) passara alguns dias em Bebel em companhia do amigo dele, o
cacauicultor Mario Roberto. Aliás o piloto –atualmente residindo em Feira de
Santana– é de uma família ligada a aviação: o irmão Milton Tosto é dono da Bahia
Taxi Aéreo e um outro chamado Betuca, morreu –faz muito tempo– de acidente
aéreo. O avião que pilotava caiu no manguezal da região de Valença-Ba.
Em tempo3: Tem-se em Bebel que umas das causas –possivelmente a mais
intensa– do assoreamento do Jequitinhonha, foi o desmatamento de suas margens e
adjacências. A pista e o aeroporto foram construídos na gestão do prefeito João
Santos de Oliveira (1951/1955)