SABORES DA BAHIA NA FEIRINHA DO GUANABARA

Mais de quarenta anos, menos de sessenta. É essa a estimativa que fazem os ilheenses moradores das cercanias, acerca da existência da Feirinha.
Alguns supõem que ela se firmou e cresceu naquela localidade com a saída do Mercado Municipal da Av. 2 de julho, antigo Unhão. Os moradores do centro não aceitaram plenamente a mudança da “feira” para a Central de Abastecimento e alguns feirantes se dispuseram a montar todos os dias suas barracas ainda de madrugada, e desmontá-las por volta do meio-dia.
Suposições à parte, o fato é que na Feirinha do Guanabara se encontra “de um tudo”, frutas, verduras, farinha, além de todos os ingredientes necessários para fazer a comida típica baiana. E eu descobri isso depois de ver as fotos, feitas em duas oportunidades, nos meses de março e julho de 2009.
Antes de tudo, me encantaram as cores, a beleza e a variedade de produtos que se podia encontrar ali, e que não puderam ser plenamente expostas nesta oportunidade. (Foram mais de 300 fotografias, para delas extrair 30 para a mostra que aconteceu no foyer do Auditório Paulo Souto, na UESC.) As imagens expostas podem ser vistas na minha galeria do Flickr, no álbum “Sabores da Bahia na Feirinha do Guanabara”
Na escolha das imagens, veio a percepção: A feira é “especializada” em comida baiana! Vejam só:
Peixes os mais variados, camarão fresco e seco, mariscos diversos, dendê, côco seco (ralado na hora), todos os temperos, andu, feijão verde, de corda e fradinho, pimenta, e até a palha de bananeira, limpinha e já cortada, para enrolar o abará.
Como em toda feira, a negociação é permitida, descontos são dados, e se não tiver cuidado, o freguês leva pra casa até o que não foi procurar. Os feirantes são simpáticos e solícitos no atendimento e da mesma forma que se encontra o caranguejo, siri e aratu catados, os peixes também são “tratados”, as escamas são limpas ou o couro tirado, e podem ser inteiros ou cortados em postas, ao gosto do freguês, e com isso agregam valor ao seu produto.
É fato corrente que a gente começa a comer com os olhos, isto é, se a comida for “bonita”, o prazer de comer já começa no olhar. E a cor da comida tradicional baiana é a cor do azeite de dendê, aliviada pelo branco do leite de côco e incrementada com as pimentas dos mais variados tipos: “doces” ou ardentes, de cheiro, malagueta…
Depois de olhar, o cheiro completa a preparação para o sabor. Não sem motivo os temperos são chamados de “cheiro verde”. O coentrão é indispensável no peixe, e não se faz nada sem coentro, cebolinha, hortelã… junto com a cebola e o alho, os moídos que acentuam o sabor… Tudo isso é encontrado na Feirinha.
Ao fotografar os feirantes e seus produtos, ouvi de alguns deles: “Vai sair em algum jornal?” E respondi: “Provavelmente, não. Eu quero fazer uma exposição, pra que todo mundo possa ver quanta coisa bonita tem aqui, todos os dias, e as pessoas não prestam atenção.” Quando, mais de um ano depois, a exposição finalmente aconteceu, eu retornei à feirinha levando um convite para que eles fossem ver as fotos expostas na UESC. Vi olhos brilharem, vi a autoestima dar pulos, ouvi promessas de que iriam, sim, ver as fotos. Infelizmente nos cinco dias de exposição na UESC não vi nenhum deles por lá. Certamente a distância, ou o dia de trabalho duro impediram de fazer essa “viagem” até o Salobrinho para se verem retratados, e isso é injusto.
Eles precisam ver essas fotos. Quero dar esse presente a quem me proporcionou uma experiência tão rica, expondo mais uma vez, num local mais próximo da vida real daquelas pessoas, que foi congelada em fotografias, fragmentos de seu mundo. Espero que a galeria do Teatro Municipal ou o foyer do Escritório da Ceplac possam ser canais para essa realização.
Para finalizar, agradecendo a Maria Luiza Heine o espaço que é dela e que me foi cedido hoje neste jornal, gostaria que os leitores pensassem em um outro aspecto. A feirinha é bonita, tem utilidade, facilita a vida de quem vende e de quem compra, mas é, inegavelmente, um assunto a ser observado pelos responsáveis pela saúde pública e pelo planejamento urbano. Até quando a feirinha vai resistir naquele local, com todas as suas vantagens mas também com os seus inconvenientes? Será que não já estaria na hora do poder público municipal pensar em instalar a tradicional feirinha numa área planejada e com todas as condições de higiene?
Para o bem dos compradores, vendedores e da organização espacial da nossa cidade, é hora de se discutir, com responsabilidade, o futuro da Feirinha do Guanabara.
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Anabel Mascarenhas
Novembro, 2010.




























































Excelente matéria…Parabéns Anabel…
Anabel,
A feirinha do Guanabara, realmente é bonitinha, completinha de tudo, mas a imundicie deixa muito a desejar. O Ministerio Público precisa é tomar providências para acabar com aquilo como fez na Central de Abastecimento organizando os açougues que eram uma imundície só.
Ilhéus não pode conviver mais com uma feira a ceu aberto em pleno coração da cidade. Alí merece até um calçadão.