(  fábula infantil  )

Por Guilherme Albagli

 

Era uma vez uma terra distante onde os índios buscavam viver em paz.   Mas, de repente, ali chegaram os Karaíba, chefiados por Luís de Almeida, pondo os índios a correr sertão acima. Mais tarde, precisaram destes para cortar cana e os trouxeram de volta – três mil -; os escravizaram e os confinaram na aldeia do Bukim, na beirada do Itanhy.

Foi no Bukim, em 1770, que nasceu Kunhãporanga, a mais linda menina já vista naquela aldeia Tupinambá. Em 1785 ela encantou a João Brake, peão de uma estância de gado ali perto, que a caçou no mato e a batizou Feliciana da Vera Cruz. Ela nunca aprendeu a falar o português, mas João falava bem a sua língua e dizia à mulher:

“Piriça, ixé wirain, endé kunhã porangaeté…”

Ela sorria e desaparecia na cozinha do alpendre dos fundos da casa, voltando com café e “possoka” de banana da terra cozida com côco ralado.   Às vezes, João Brake ficava na rede, olhando o canavial, quando ela aparecia com uma cuia de coco com “yakuba”- “água esquentada”-, na sua língua natal. Derramava água quente na farinha de tapioca, esperava inchar e a temperava com açúcar e limão ou mel e pó de amendoim torrado.

Ixé kunhãin, endé katueté…”

Ela sorria e desaparecia na cozinha.

Nasceu-lhes, em 1790, Antonia – mulher decidida que montava cavalo em pelo, correndo canaviais -. Enviuvou cedo, ficando com dois filhos, dois engenhos e, na vila, um casarão antigo onde hospedou, por uma noite, o Casal Imperial.

Depois de longa seca seguida por uma epidemia com muitas mortes, o filho caçula de Antônia vendeu seu engenho e migrou à Bahia com mulher e três filhas, comprando um laranjal no Cabula. Mas rolou uma proposta indesejada de casamento para uma das moçoilas recém-chegadas. Isso foi em 1875. Vendeu logo o sítio e se mudou para uma terra mais ao sul, onde começava a se plantar uma novidade chamada cacau. Ali, as suas filhas mais velhas desposaram dois irmãos, caboclos nativos, e tiveram muitos filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranetos…

A caçula das três irmãs, professora emérita, não casou. Foi ela quem primeiro ensinou às meninas do lugar a assinar o nome. Foi ela quem transmitiu às sobrinhas parte da sua memória familiar e muito se orgulhava da sua origem ameríndia. Conheceu a bisavó Feliciana e entendia o que esta falava. Morreu em 1947, aos 90 anos, numa semana de raios, relâmpagos, tempestades e trovões ininterruptos. Parecia um dilúvio. Parecia Tupã chamando a sua filha de volta e a avisando, na sua língua, que a sua missão na Terra fora bem cumprida.

A Metaficção Histórica, irmã do Realismo Fantástico e do Romance Histórico, é um gênero literário fruto do entrelaçamento da História com a Ficção. Foram explorados por grandes autores contemporâneos consagrados: Garcia-Márquez, Amado, Saramago, Dias Gomes, Yourcenar, A. Hayley.

Embora estes gêneros acima tenham denominações recentes, sempre foram conhecidos textos para o público infantil entremeando fantasia e história. “Nau Catarineta” conta e canta a história semi-real de um barco perdido no oceano por “sete anos e um dia”.    “Sargento Dedéo” é um exemplo da literatura infantil paulista, dos anos de 1950, mesclando doce fantasia e História do Brasil. Monteiro Lobato socializa personagens históricos e realistas com personagens fictícios (Pedrinho, Narizinho) e fantásticos ( Emília,  Visconde,  Saci, Caipora, Cuca ).