O PORTO SUL E A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO POPULAR – PARTE III
Nas inúmeras audiências, debates, apresentações, etc, essenciais ao conhecimento do Projeto do Complexo Intermodal Porto Sul, percebia-se que, apesar do apoio da grande maioria da sociedade civil regional e de suas entidades representativas, um pequeno, mas ativo, setor se colocou em um posição de resistência. Autodenominados ambientalistas, locais, de outros estados e até de outros países, procuravam estabelecer inúmeras críticas ao Projeto, algumas corretas, fundamentais ao aprimoramento do mesmo, outras insustentáveis. Das corretas já tratamos anteriormente, por isso abordaremos apenas as outras.
Um exemplo é de que o Porto serviria apenas à exportação de minério-de-ferro. Não explicam a razão da FIOL se extender até Figueirópolis, sendo que o dito minério viria de Caetité, na metade do caminho. Outra crítica é de que afetaria o turismo, suprimindo o fato de que várias regiões turísticas no país e no mundo convivem tranquilamente com a atividade portuária, a exemplo do litoral de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Inúmeros são os discursos recorrentes desmentidos pelos estudos e a apresentação do Projeto, como o transporte de urânio, não previsto no mesmo. O incrível é que, mesmo após de tantas audiências com esses argumentos frequentemente refutados, a resistência do pequeno setor permanece.
Fica claro dessa forma o aspecto ideológico da resistência ao Projeto. Por um lado, setores com grandes interesses econômicos no litoral norte de Ilhéus, somados a um ambientalismo santuarista sincero, digno de respeito, e um ceticismo político justificável diante de nossa experiência histórica. Quanto aos interesses econômicos nada a acrescentar, já que em qualquer análise pragmática sobre a questão o econômico prepondera, seja no viés da especulação imobiliária, do turismo, da industrialização ou da agricultura, pequena ou grande, mesmo quando se coloca o viés positivo da sustentabilidade. Quanto aos outros valem algumas palavras.
A visão santuarista ou preservacionista proclama a defesa do meio ambiente como um fim em si mesmo, algumas vezes ressaltando a saturação da natureza em relação à exploração humana, outras realçando os benefícios do convívio humano com a natureza preservada, em todos os aspectos, de biológicos a estéticos. Os humanos fazem parte da natureza e destruí-la é destruir a si mesmo. Porém, como todos os animais, os homens vivem da natureza, retirando dela seu sustento. O impacto dos humanos é maior por todos os motivos que nos fizeram espécie dominante no planeta Terra, construir sociedades eivadas de complexidades e contradições, com uma elite que atinge atualmente um nível de bem-estar e/ou conforto impossível de ser imaginado pelos nossos ancestrais nas savanas africanas, enquanto uma parcela gigantesca não tem acesso aos direitos e bens mais básicos à sua sobrevivência.
Essa questão das desigualdades na utilização dos bens da natureza é pouco abordada por esse setor. Por isso é normal não questionarem o fato de que quem mais usufrui dessa exploração são as elites dos países capitalistas centrais e seus sócios da periferia do Sistema. Também não questionam o fato de que, para se desenvolver, os países mais pobres precisam explorar seus recursos naturais. Nos negar esse direito é colocar apenas nas nossas costas a busca por uma sustentabilidade planetária. Portanto, seria necessário, para os santuaristas serem mais completos em suas análises e práticas, questionar os padrões de consumo tanto dos humanos dos países centrais, como daqueles que nos periféricos conseguem acessar os bens à disposição no mercado, pois só existe exploração da natureza, supressão de florestas, exploração de minérios, produção agrícola, industrial, etc, e seu essencial escoamento através de estradas, ferrovias e portos, por que há quem consuma alimentos, roupas, celulares, computadores, carros, aviões, etc. Claro que para isso deveria ser questionado todo o Sistema de Produção e distribuição de bens…
Porém, os nossos ambientalistas, santuaristas ou preservacionistas, preferem divergir apenas do Porto no litoral norte de Ilhéus. – Por que não escoar o minério-de-ferro e essa produção toda pelo Malhado?, perguntam. Seria melhor uma ferrovia passando por dentro da cidade do que por um local pouco habitado, afinal é melhor destruir casas e prédios do que árvores. – E por que não Aratu? Não há problema algum em concentrar um pouco mais o desenvolvimento da Bahia na Região Metropolitana de Salvador.
Percebe-se claramente, por parte desses setores, ressalte-se mais uma vez, minoritários da sociedade civil regional a rejeição a um maior crescimento econômico da região. Não consideram ser possível desenvolver nossa região sustentavelmente através do setor de serviços portuários, do crescimento da industrialização, do incremento no comércio e serviços diversos, inclusive o turismo, além, obviamente, da agricultura. Dizem que tal crescimento não ocorrerá, e, se ocorrer, será predatório e em benefício de poucos, demonstrando, então, um ceticismo político plenamente justificável por nossa história, mas que precisa ser superado, o que abordaremos na IV e última parte.
Rodrigo Cardoso
Presidente do Sindicato dos Bancários de Ilhéus – CTB
























































