De: Wagner Gentil
Assunto: O BODE EXPIATÓRIO

Corpo da mensagem:
O BODE EXPIATÓRIO.

Diferentemente do que pensamos nós, moradores de Ilhéus, aqui é um lugar maravilhoso e próspero, nosso presente anda conturbado, mas, há sempre uma esperança de futuro melhor; como diz um grande amigo meu: “DEUS” refaz de noite tudo o que devastamos de dia.

De dia somos maus meninos; a noite “DEUS” nos dá bons sonhos.
De dia destruímos tudo a nossa volta; a noite “DEUS” recompõe.

Acredito em Ilhéus! – mesmo que seus habitantes continuem se comportando como verdadeiros malucos; aqui, os malucos que moram do lado direito da rua tem inveja dos que moram do lado esquerdo.

Dizem, eles, os malucos:
Há! …… se eu morasse no n° 31 seria eu mais feliz!
Há! ….. se eu morasse no n° 32 minha esposa seria mais compreensiva!

Como se fosse possível termos o n°’s impares e o n°’s pares todos de um mesmo lado da rua; achamos, sempre que a felicidade mora ao lado e que nunca está dentro de nós mesmos.

Afora essas peculiaridades estranhas de nossos conterrâneos eu me delicio com as peças que me são cotidianamente pregadas pelos meus clientes; ontem, minha noite foi um terror e não me importa de que forma “Deus” se manifeste eu vou sempre acreditar nele sobre todas as coisas.

Vou contar-lhes!

Um cliente, por volta das 22 horas, me ligou querendo que eu o levasse, junto com uns outros amigos (dois), a uma mata lá pelas bandas do distrito industrial de Ilhéus para que ele pudesse pagar uma promessa.

Botei a pulga atrás da orelha, apesar do cliente ser assíduo e nunca ter me aprontado nada, fiquei temeroso com o tipo de trabalho, espetaculoso, e aquela hora da noite, eu teria que me sujeitar para ganhar a vida. Coloquei o preço lá em cima pra ver se o cliente desistia de mim e solicitasse outro taxista; pedi R$ 200,00.

Tudo bem! – Eu pago! – Venha me buscar! (categórico o cliente)

Peguei o endereço que era na rodovia Ilhéus / Olivença e meio que desconfiado fui busca-lo; ele, já estava me esperando na beira da pista num lugar logo depois da curva do Cururupe.

Parei o carro e meu cliente já estava acompanhado de duas outras pessoas no acostamento da pista me aguardando, aos pés das pessoas haviam três sacolas, daquelas grandalhonas, cheias, pesadas, e que foram colocadas no porta malas com muita dificuldade; uma das pessoas era uma mãe de santo (Conhecida como “ANA – MÃE D’ÁGUA”), toda paramentada, vestida de baiana, e a outra pessoa acompanhante era um sujeito magrinho, alto, GAY, e que ao falar se desmilinguia toda, super afetada, falava pelos cotovelos.

O destino me foi dado como sendo próximo a uma das ruas da Viação São Miguel, no Distrito Industrial, e eu meio que impressionado com os tipos que transportava segui para o local meio que ressabiado e temeroso.

Quando chegamos ao destino, rua horrorosa, cheia de buracos, uma escuridão de fazer medo a fantasmas, descem do carro todos os passageiros e me mandam esperar; eu, naquela escuridão toda, medroso que sou, assalto seria o menor dos perigos, me encolhi todo no banco e comecei a pedir a Deus” que ele me protegesse.

Quase trinta minutos se passaram e nada de ninguém e nem de luz, nem vagalumes, nem muriçocas, nem sons, nada! – resolvi ligar os faroletes pra ver se enxergava alguma coisa e pisando no freio percebi que o pessoal tinha deixado uma das sacolas no chão ao lado do carro; com os faroletes acessos continuei trancado dentro do carro morrendo de medo.

Nisso surge na pista um vulto pega o saco esquecido e sai correndo com ele jogado nas costas; eu pensei… vieram buscar… e, continuei trancado…

Mais hora mais se passou e derrepente começo a ouvir uma gritaria desesperada, era a bichinha que toda atacada procurava pela sacola perdida onde se encontrava um bode que seria usado lá no trabalho (passa corisco e não deixe risco!). Eu já quase em estado de ter um AVC menti dizendo que não tinha visto nada e que eles é que eram os responsáveis pelo sumiço da tal sacola; que eu era só o motorista. Ora bolas!

Tomara vocês, leitores, consigam perceber a loucura que foi toda aquela situação; a bicha louca! – eu apavorado! – depois dizem que briga não tem começo; claro que tem!

A bicha berrava: o bode sumiu! – o bode sumiu! – o bode sumiu!

A Mãe de Santo de dentro do mato gritou de volta; traga o motorista! – traga o motorista! – traga o motorista!

Vocês é que ficariam lá pra saber o resto da história; não eu! – levar o motorista pra que? – oferenda talvez? – no lugar do bode? – uma ZORRA!

Virei a chave na ignição e arrastei na primeira, na segunda e na terceira quase capotando na curva do anel rodoviário; só parei em frente a paróquia de N.S. Aparecida, na rua dos cometas, no Malhado; lá, na frente da paróquia, rezei três PAI NOSSO, um CREDO, um SALVE A RAINHA e cinco AVE MARIA; fui pra casa e me escondi debaixo da coberta, bem encostadinho na minha nega; o coração na boca, pés e mãos gelados.

Até agora o cliente não tentou me contatar e se o fizer eu não atendo.

Vá de retro filhote de urubu com cruz credo!

Wagner Gentil


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