Por Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Quando cheguei a São Paulo, como relatei no capítulo 2, fui morar em Guarulhos, aí o Arnaldo, um amigo meu, conseguiu me encaixar na fábrica SKF de rolamentos que ficava na Via Dutra perto da fábrica Toddy do Brasil. Trabalhei dois anos nesta fábrica, e me lembro que retornei à Bahia umas seis vezes nesse período. Era só bater a saudade que eu pegava a São Geraldo e me mandava. Gosto de recordar que certa vez eu estava em Ilhéus nos “Os Velhos Marinheiros” sentado em uma mesa na calçada a bebericar um guaraná e a comer um caranguejo (nunca fui de bebida alcoólica e nunca fumei), quando comecei a olhar para o infinito do mar. Nesse dia a lua estava linda, e eu comecei a me questionar, a falar comigo mesmo: “Cara, quando é que você vai sair desse chove e não molha? Resolva logo sua vida!”. Em seguida baixei a cabeça na mesa e passei uma meia hora chorando. Ao levantá-la falei pra mim mesmo: “Vá e fique. Vá resolver sua vida”

Foi o que fiz. Fiquei 20 anos sem voltar a Ilhéus. Chegando a Guarulhos fiz inscrição no Colégio Progresso para fazer o supletivo (O 1º grau em um ano e meio e com 2 anos terminei o 2º, completado em 1980). Em 1981 prestei vestibular para Educação Física nas Faculdades Integradas de Guarulhos, e me formei 1983. Nessa altura eu já trabalhava no Carandiru, em que fui promovido para ser diretor de “Esporte e Recreação”. Abro um parêntesis para dizer que estou contanto minhas histórias aos poucos, até chegar às do Carandiru. Retrocedo também um pouco para dizer que saindo da SKF, fui trabalhar na Ford do Taboão em São Bernardo do Campo aí mesmo no Estado de São Paulo onde fique de 1974 a 1978, quando prestei concurso para Agente Penitenciário e fui aprovado.

A essa altura havia saído da casa do Arnaldo e ido morar na república de Dona Albertina na Ponte Grande, bairro de Guarulhos, perto das antigas fábricas da Olivetti e Philips, na via Dutra, arranjado por ele mesmo. A república tinha 20 quartos que pareciam figurar o Brasil e seus estados, pois morava paulista, mineiro, baiano, pernambucano, carioca, maranhense etc. Era uma turma difícil de ser encontrada em São Paulo. Na república cada um fazia sua comida, lavava sua roupa etc. O chuveiro só caia água fria, e naquela época São Paulo fazia um frio de rebentar. Por isso eu passava de 3 a 4 dias sem tomar banho. Só lavava o essencial. O primeiro macarrão que cozinhei foi um desastre. Joguei dentro da água e deixei por um certo tempo, quando ferveu tive que jogar a panela fora, pois ficou pior que uma cola. Então decidi pedir ajuda a Dona Albertina, a proprietária. Graças a ela, e ao que eu aprendi depois em Ilhéus, hoje em dia sou “fera” dentro de uma cozinha, Feijoada essa, modéstia à parte, faço como ninguém. Na república eu era tão folgado que muitas vezes cheguei a cozinhar no quarto do conterrâneo Durval, gente muito boa.

Nos dias de domingo eu jogava bola na Portuguesinha. Saia cedo e quando voltava para casa, ao apontar no corredor, só ouvia porta batendo e os gritos “lá vem Tomé”. Os companheiros de república fechavam as portas para eu não pedir comida. Mas não adiantava; eu pegava meu prato e começava pelo vitral: “Durval, pelo amor de Deus, estou com fome. Me arruma um pouco de comida!”. E ele gritava: “Vai comer bola, seu merda!”. Eu retrucava: “Já comi, mas a fome não passou. Fiz dois gols, inclusive um de bicicleta dedicado a você”. Nessa altura, devido à canseira que eu dava porque nunca foi de desistir, o prato já estava no vitral. O arroz garantido do Durval, eu ia ao Ceará:“Ceará, o Durval já me deu arroz, vê o que você pode fazer por mim”. Os palavrões comiam soltos, alguns eu não entendia bem porque eram da gíria cearenses. Lembro de uma boa do Ceará que ele dizia que gostava da Globo, porque ela vazia “plim, plim”. No final das contas eu conseguia o feijão do Ceará. Daí eu ia a um carioca chamado Wilson. Era um cara maneiro, de fala mansa e sempre me dizia: “Tomé, só Jesus pode com você”, e liberava o macarrão. Com feijão, arroz e macarrão a mistura estava completa e então traçava o prato que achava maravilhoso. Da turma de quartos, só não conseguia muito coisa era dos paulistas e mineiros. Eram desconfiados e mãos de vacas. Os mineiros, esses, então…! Mas com o jeitinho de baiano, vez por outra conseguia alguma comidinha, só que se conseguisse num domingo, no outro podia tirar meu cavalinho da chuva que não ia arranjar nada.

Em 1973 eu resolvi passar o carnaval em Salvador. Essa história eu pretendo contar no 5º capítulo. As da Federação Paulistas e as do Carandiru virão em seqüência.