A MAÇARANDUBEIRA DO BAHAMA
por Luiz Ferreira da Silva*
Há um ano, praticamente resido no Arquipélago do Sol/Bahama (Quadra A-06; Lote 04), possibilitando-me conhecer o seu ecossistema (complexo flúvio-marinho/restinga), notadamente as árvores, originais e plantadas.
Pela sua pujança, chamou-me a atenção um exemplar magnífico – um pé de maçaranduba (Manikara uberi). Situada a uns 15 metros da margem direita do rio niquim, expande a sua sombra por mais de 100 m de circunferência, cobrindo uma área de aproximadamente 800 m2. Outorguei-lhe com a minha autoridade de Engenheiro Agrônomo, o título de patronesse do pedaço.
Todos os dias, a reverencio, energizo-me ante a sua fábrica de oxigênio e até lhe peço ajuda nas horas necessitadas, por ela representar dignamente a Natureza criada por Deus, diferentemente do ser humano, cuja maioria não merece crédito algum.
Por tudo que ela representa, veio-me a inspiração de implantar um mini-bosque com árvores do seu habitat, tirando-a do isolamento e lhe possibilitando reminiscências de tempos idos, quando convivia harmonicamente com suas amigas e parentes da Mata Atlântica.
Já estão vicejando 27 árvores e mais 13 serão plantadas posteriormente, espaçadas em 4 em 4 metros. Tenho certeza que ela ficará feliz e agradecida.
Por falar nisso, este sentimento – ser grato – anda meio negligenciado pela nossa espécie, vale a pena lembrar a revolta do grande Ruy Barbosa, que dizia : “a gratidão é tão importante que deveria constar no código civil”.
Por outro lado, fiquei triste ao constatar que muitos condôminos nem sabem que ela existe. Uns andam de óculos escuros, ouvindo MP3, sem perceber o verde de sua copa frondosa e, tampouco, ouvir o ruído do balançar de sua folhagem, impulsionada pelo vento marinho que se canaliza pelo talvegue do rio niquim, sem se contar do tilintar das aves e o barulho das brincadeiras dos saguins comendo os seus frutos e de outras espécies, como a ingazeira.
Outros permanecem em suas belas casas, aboletam-se nos confortáveis sofás vendo TV e/ou degustando finas iguarias regadas a bebidas várias, retornando no final da tarde de domingo, sem receber o fluxo energético que as centenas de árvores facultam, sem cobrar nada em troca.
Provavelmente, a maçarandubeira veio de fora. Uma alienígena, vizinha não muito longe: dos tabuleiros dominados pela cana-de-açúcar, cuja ação antrópica destruiu ás árvores, sem dó e nem piedade. Sementes de seus pais devem ter chegado ao atual local pela via fluvial, com a participação de animais que as preparou inicialmente para o plantio, ao degustar os seus gostosos frutos, expelindo as sementes alhures, já adubadas.
No meu livro, “Sob a sombra do oitizeiro da Pajuçara”, que publiquei em 2009 (Scortecci Editora/SP), desenvolvi uma maneira de me comunicar, também, com esta majestosa árvore, que denominei de telepatia delirante e/ou esquizofrênica, na crença de estar recebendo emanações codificadas em palavras. Lógico, pura invencionice do modesto escritor: ficção, que vou usar na presente crônica daqui prá frente.
Numa certa manhã, percebi certa melancolia na minha amiga, cujas folhas caídas precocemente eram como lágrimas, ao constatar o estado das águas do rio niquim, na curva que ela divisava muito bem, lamentando o excesso de matéria orgânica, que reduzia o oxigênio para a fauna ictiológica, e a morte das aningas em suas margens, bem como o desaparecimento dos doces guajirus e das saborosas mangabas. Então, transmiti-lhe sobre a insanidade humana e a inoperância dos Órgãos ambientais, oportunidade em que detalhei sobre o mini-bosque, o que a alegrou, demonstrado no balançar da sua copa.
Ela só tinha uma mangueira, também secular, que crescera juntas que apesar de outro gênero botânico , convivia com harmonia e solidariedade, um exemplo para os homens que não sabem lidar com as diferenças.
De outra feita, decodifiquei a sua preocupação com o avanço do mar, que ela, do alto da sua copa, com certa dificuldade apreciava a linha de arrecifes, usufruindo do ar úmido salitrado e de um pouco do cheiro dos sargaços. Tentei lhe explicar esta sua clarividência, que também era minha, e lhe expus telepaticamente, como sempre fazia em mão dupla, assim:
“O homem, dentre tantas aberrações de agressão à Natureza no mau uso da faixa costeira, talvez se superou no ranking da sua insensatez na paradisíaca Barra de São Miguel. Implantou suas mansões no território praiano, desafiando o mar, a pouco metros da linha d`água, impedindo a hidrogênese marinha (formar a sua planície de diques naturais, terraços e dunas), o que vem provocando a acumulação de areias, inclusive mar a dentro, além da declividade do terreno, tornando desconfortável o caminhar pela restrita praia fofa, por ambos motivos. E mais: inviabilizou a implantação de uma bela avenida beira mar que, em outras plagas, constitui-se no principal cartão de visita e deleite para todos os que a frequentam”.
E, assim, com o passar do tempo, já mais de um ano de “entendimento”, pude captar e ler a decodificação com menos dificuldades, sentindo os sintomas que a maçarandubeira expressava querendo dizer das suas inquietações.
Estava de certa feita, preocupada com a garotada que, em uma ensolarada tarde, rodopiara os seus quadriciclos na praça contígua ou em um terreno baldio bem próximo, temendo pela segurança dos pré-adolescentes, 4 a 6 empinhados no minúsculo veículo. Falei-lhe do absurdo, focalizando o problema como estritamente de seus pais, que tem conhecimento das normativas vigentes que proíbem menores de pilotarem tais autos.
Recentemente (final de setembro), deu-me a impressão de seu temor com o muro que está sendo construído, passando bem perto de seu frondoso tronco, afetando as suas raízes. Tranquilizei-a, pois só seriam atingidas as raízes suberosas, pouco producentes e de sustentação, mas que seriam recuperadas com a adição de matéria orgânica e NPK, facilitando a emergência das raízes finas absorventes de água e de alimentos. Senti que ela se convenceu, haja vista os benefícios advindos dessa prática feita meses atrás, que lhe proporcionara uma nova área foliar e bela florada.
Também sentia que a patronesse, termo que ela adorou quando lhe contei do título, ficava nervosa com o barulho dos altos falantes que vinham da outra margem do rio, cujas músicas da atual juventude não lhe faziam bem. No seu tempo, adorava ouvir a orquestra do Severino Araújo, as melodias de Cartola e o cantar gutural de Dorival Caymmi, sobretudo as cantigas do mar. Com meu ipod, tecnologia moderna, numa tardinha, fiz-lhe ouvir Richard Clayderman, encantando-a. Ela que era fã de Waldir Calmon, década de 50.
Outra sensação gostosa que captei, foi quando lhe contei sobre o Dia da Árvore, que havia coordenado no dia 22 de setembro deste. E mais ainda: quando lhe falei- telepaticamente é claro e o leitor já sabe dessa nossa “esquizofrenia” salutar – da participação de crianças pobre de um Grupo Escolar do Município, que deram um exemplo de civismo, disciplina e participação, cantando o Hino Nacional e recitando um poema do autor. Após o lanche, não se viu nenhum copo no chão, limpeza total, diferentemente da rapaziada que, pelas noites alcoólicas, emporcalham o salão. Não tenho dúvidas que, se naqueles o Governo investisse, o Brasil certamente teria sua recompensa futura.
Presentemente, setembro de 2012, a “Maçarandubeira do Bahama” está um encanto: toda florida, feliz e pujante, emanando energias aos quatro cantos. E eu, cada vez mais, aproveitando, que não sou besta, como dizia minha mãe, na sua aprendizagem nordestina interiorana! (Maceió, 01 de outubro de 2012).
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Luiz Ferreira da Silva
Eng. Agrônomo e Escritor
Celular: (82) 9313-1030.




















































