por Tomé Pacheco

NO PRESÍDIO CARANDIRU IV

Tomé Pacheco

Tomé Pacheco

Houve várias rebeliões dentro do Carandiru. Contarei algumas que presencie.

Iniciarei pelas das “113 Mortes”. Os detentos realizavam campeonatos de futebol. Jogavam internamente entre os do mesmo pavilhão e daí saia um campeão para representar o pavilhão no campeonato entre os outros pavilhões. O bicho pegava quase sempre. Certa feita houve uma final entre os times da Zona Leste X Zona Norte num campo tipo soçaite no Pavilhão 9, e para assistir compareceram mais de 1200 detentos. Ao ser marcado um gol para a Zona Norte, houve protesto dos jogadores da Zona Leste, reclamando que houvera falta sobre o goleiro. Não deu outra. Como sempre, o tempo fechou em cima do juiz (este árbitro era um malandro bem quisto e bem considerado dentro do Presídio. O árbitro não morava no Pavilhão 9 e sim no 8. Para se ter uma ideia, praticamente quase todos os que estavam no campo se envolveram. Como estavam cheios de “Maria Louca” e outras drogas, aconteceu um “barabada” danado. Então, um dos diretores do Pavilhão 9 que assistia o tumulto, pensou que fosse uma tentativa de fuga e, soou o alarme.

Não passaram 10 minutos, o complexo do Carandiru estava todo cercado da elite policial: Policia de Choque, a Rota, a Deic. Ficaram aguardando a ordem para invadirem. Quando a maldita ordem partiu do maldito Governador do Estado, a invasão se deu. Os policiais super aparelhados, e com cachorros treinados, caíram dentro dispostos a tudo. Como era de conhecimento no presídio que policial não gosta de bandido e vice-versa, seria então a oportunidade dos policias tirarem a “bronca”. Então, invadiram o Pavilhão 8 fazendo o chamado “pente fino”. Quem encontrou pela frente virou vítima. A grande parte dos detentos que consegui subir para suas celas, não adiantou muito coisa, porque os policiais foram ao seu encalço. Muitos escaparam fingindo de mortos, deitando ao lado dos que já estavam sem vida, estirados no chão, dentro das celas ou na galeria. Como cada pavilhão tinha 5 andares e o último era destinado a castigos de detentos que cometiam alguma infração, os detentos que estavam aí trancado, isolados, por sorte escaparam do massacre.

Na Rebelião do Dia dos Pais, o diretor era o Luisão. Nessa houve tentativa de fuga. Só que quando havia qualquer rebelião interna, era hora do acerto de contas. Foi o que houve com três colegas: Chapeuzinho, Saltador, que era um boxeador dos bons, e Vanildo –todos  foram mortos nessa rebelião. Chapeuzinho era diretor do Pavilhão 2. Era uma figurinha carimbada, e que se envolvia muito com detentos. Saltador fazia parte do Pelotão de Choque interno, era “caceteiro” dos bons. Foi quando ele foi pego por alguns detentos que sofreram castigos aplicados por ele, e aproveitaram a oportunidade para o acerto de contas. Deram varias “estiletadas”, só que ele não morreu, ficando caído no chão todo ensanguentado. Então decidimos ir socorrê-lo. Mas os detentos ordenaram que deixássemos o cara morrer aos pouco e se algum agente pusesse a mão, morreria também. Quando a rebelião teve fim, ele já estava morto.

Com o Vanildo surgiu à conversa que ele estava envolvido com as armas colocadas dentro do Presídio, daí dizerem as línguas grandes que ele foi abatido por policial de elite, que eram atiradores colocados em pontos estratégicos –como  por exemplo em cima dos prédios, em volta do presídio–, para qualquer eventualidade, a mando de um diretor com a alcunha de Faz Tudo, que dizem também que estava envolvido com armas. O diretor Luisão na questão das armas estava conluiado com o Vanildo mas como os dois estavam mortos, e defunto não fala…

Houve varias outras rebeliões, mas essas duas foram as piores.