Diante dos apagões no sistema elétrico brasileiro, como aquele da noite de 03 para 04 do mês corrente no Nordeste, a grande mídia nacional tem aberto generosos espaços para supostos especialistas, cujos pronunciamentos, infelizmente, nem sempre correspondem à realidade técnica que envolve tais ocorrências.
Em muitos casos, a desinformação é tamanha que faz lembrar o saudoso Chacrinha quando declarava não pretender explicar, mas sim confundir, como já foi amplamente demonstrado por este Instituto em documento sob o título O APAGÃO, A IMPRENSA E OS ESPECIALISTAS, divulgado no dia 10 de fevereiro corrente.
Mas, às vezes há depoimentos tão desfocados que vão mais além e até poderiam enquadrar-se como autênticas peças do FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País, conjunto de “bobagens” magistralmente coletado e publicado pelo grande Jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, na segunda metade dos anos 60 do século passado.

Um desses casos seria, por exemplo, a declaração de um desses especialistas feita na manhã do dia 10 deste mês, ao vivo e em rede nacional, em um programa de grande audiência da televisão, quando recomendou com ênfase a instalação de mais usinas térmicas no sistema elétrico brasileiro, como forma eficaz de se prevenir os tais apagões.
Santa ingenuidade. Decididamente esses especialistas não conhecem suficientemente sobre o funcionamento de um grande sistema de energia elétrica como é o nosso. Se conhecessem não recomendariam tal coisa.
No Sistema Interligado Nacional (SIN), salvo o caso particular de algumas poucas usinas que por motivos específicos operam permanentemente, a grande maioria das térmicas existentes ficam sempre paralisadas, desligadas do sistema e, assim, não poderiam contribuir para evitar apagões, que são causados por perturbações instantâneas imprevistas.
Isto quer dizer que essas usinas térmicas não operam como “reserva girante” (este seria o termo técnico correto) do sistema, que são aqueles geradores que estão funcionado ligados ao sistema, mas inicialmente sem gerar energia e, a partir daí, aos poucos vão tomando carga à medida que a demanda vai crescendo ao longo do dia, ou bruscamente na hipótese do desligamento intempestivo de algum outro gerador por qualquer motivo. No nosso sistema, essa função é assumida pelas próprias hidrelétricas.
Dessa forma, as nossas usinas térmicas constituem apenas a chamada “reserva fria” do sistema, que fica parada, embora devendo estar pronta para operar quando da existência de risco de déficit energético na base hidrelétrica, conforme já ocorreu no final de 2007 e começo de 2008, ou da sua real efetivação, como foi o caso do racionamento de 2001/2002. É preciso ainda notar que as usinas térmicas da “reserva fria” em geral não podem ser acionadas com rapidez, pois precisam “aquecer” antes de serem sincronizadas ao sistema e isto em certos casos pode levar muito tempo. As térmicas a gás são rápidas, mas aquelas que operam com caldeiras e turbinas a vapor exigem muitas horas para pré-aquecimento e, assim, este tipo de usina não se presta para acionamentos emergenciais mas somente para aqueles programados com antecedência.
Para se ter uma idéia mais precisa de números no sistema brasileiro, segundo dados da ANEEL, atualizados até o dia 11/02/2011, existem no nosso sistema elétrico 1.408 usinas térmicas convencionais (não nucleares), somando a potência instalada total de 30.125 MW, equivalentes a 26,5% da potência total do sistema (113.740 MW). Entretanto, como se pode observar pelos dados do ONS, a operação do Sistema Interligado Nacional em um dia típico utiliza muito menos térmicas. Por exemplo, na última quinta-feira 10/02 o sistema utilizou apenas 2.644 MW médios de térmicas convencionais, equivalentes a 8,78% da sua capacidade instalada e a 4,25% da carga total do sistema naquele dia, que foi de 62.262 MW médios, com o pico de 70.268 MW alcançado às 15h34m. Note-se ainda que naquele dia 10/02 a geração de origem hidráulica contribuiu com 57.570 MW médios, correspondentes a 92,47% da carga total, ficando o restante a cargo das nucleares (1.959 MW médios – 3,15%) e eólicas (80 MW médios – 0,13%).
Como se vê, as térmicas desempenham um papel de coadjuvantes no sistema elétrico brasileiro e não teriam a mínima possibilidade de contribuírem eficazmente para a prevenção dos indesejáveis apagões, como declaram certos especialistas. Aliás, não seria de todo inapropriado supor que uma tal declaração poderia estar representando nada mais nada menos do que uma forte ação de lobby em favor das termelétricas. No entanto, deve ficar bem claro que quanto mais térmicas se instalar, mais térmicas ficarão paralisadas e mais onerarão as tarifas, pois elas recebem mesmo sem gerar energia.

Rio de Janeiro,14 de fevereiro de 2011
ILUMINA