MALDITOS ELEITORES
Por Juventino Ribeiro.
Juventino Ribeiro
“O voto nos liga inseparavelmente, como marca ou nódoa, àqueles que elegemos. Se elegemos o ruim nos tornamos responsáveis pelo ruim, se elegemos o corrupto, o malvado, o venal, o dissimulado, o sórdido, por eles nos tornamos igualmente responsáveis, na proporção exata de nossa escolha” (Padre Antonio Vieira – Sermão na Capela Real, em Lisboa, 1650 – conforme Jorge de Souza Araújo, em CADERNO DE EXERCÍCIOS).
Numa visita ao amigo Leandro Evangelista, ele me apresentou uma coleção de livros em capa dura, um inestimável legado de seu falecido pai. Tratam-se dos famosos sermões do Padre Antonio Vieira. Saí de alma lavada, pois há muito tempo queria conhecer tais livros.
Padre Vieira, nasceu em 1608, Lisboa (Portugal) e morreu em 1697, Salvador (Brasil). Além de sacerdote missionário jesuita, foi professor de retórica, orador e escritor. Foi um expoente da literatura barroca brasileira. Devido à excelência em oratória, sua obra é composta de mais de 200 sermões e 700 cartas.
O trecho acima é do sermão que pregou na Capela Real, em Lisboa, na Primeira Dominga do Advento de 1650. Advento, na liturgia católica são os quatro domingos que antecedem ao Natal. Seguem-se alguns fragmentos que escolhi, muito propicios para meditação sobre os desmandos dos políticos aflorados recentemente, cuja culpa atribuo ao eleitor, pois “o voto é algo que pertence ao extrato mais sagrado de nossas responsabilidades de cidadãos” (Jorge Araújo).
… Maldito seja o dia em que nos elegeram e maldito quem nos elegeu! Maldito seja o dia em que nos confirmaram, e maldito quem nos confirmou! Miserável é a república onde há tais votos, miseráveis são os povos onde há mandatários feitos por tais eleições; mas os eleitores que neles votaram são os mais miseráveis de todos: os outros levam o proveito, eles ficam com o prejuizo.
… Se o que elegestes furta (não o ponhamos em condicional, porque claro está que há de furtar) furta o que elegestes, e furta por si e por todos os seus, como costumam os semelhantes; e Deus há-vos de pedir a conta a vós, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles roubos.
… E vós haveis de dar a conta a Deus porque o vosso voto foi causa de todas aquelas injustiças. Oprime o que elegestes os pobres, choram as viúvas, padecem os órfãos, clamam os inocentes; e Deus vos há de condenar a vós, porque o vosso voto foi causa de todas aquelas opressões, de todas aquelas tiranias.
…“Discedite a me, maledicti, in ignem æternum, qui paratus est diabolo, et angelis ejus”: Ide, malditos, ao fogo eterno, que estava aparelhado, não para vós, senão para o demônio e seus anjos; mas já que assim o quisestes, ide. Abriu-se a terra, caíram todos, tornou-se a cerrar para toda a eternidade. Eternidade! Eternidade! Eternidade!
Assim conclui o longo e incisivo sermão, proferido no púlpito da Capela Real, diante de toda a Corte Portuguesa, quando não poupou críticas nem mesmo ao episcopado de Portugal. Pelo local da pregação, pela plateia, e por ter sido na época da inquisição, leva-me a imaginar que o destemido Padre Antonio Vieira tinha três culhões.



























































