Isabel Vasconcellos em: “Os Avós das Câmeras “

Há momentos em que olho para as muitas máquinas de fotografia e cinema que tenho aqui expostas na casa, como relíquias, e meus olhos se enchem de lágrimas. Só quem, como eu, conviveu com as antigas tecnologias da imagem pode compreender de imediato o absoluto encanto da história da fotografia e do cinema.
Cresci num lar dedicado à imagem. Meu pai, Alfredo Fomm de Vasconcellos (1908-1987) foi pioneiro na cinematografia de 16mm na América Latina e as máquinas de seu laboratório foram, em grande parte, construídas por ele próprio.
Meu irmão, Ronaldo Alvan (1936-2004) foi pioneiro da TV e dirigiu importantes emissoras, desde a Excelsior até algumas afiliadas da Rede Globo e, ainda, a TV Gazeta de S.Paulo.
Na minha estante, muitas máquinas antigas: desde câmeras fotográficas até a minha velha paillard bolex, que era o máximo do charme nos anos 1960, passando por um velho projetor 16mm Bell Howell. O mais eu doei pra cinemateca.
Mas da coleção que conservei, emociona-me particularmente uma enorme máquina fotográfica 6×6, encorpada e nobre, que se chama Kodak Medalist II;
e me enche de ternura uma outra – ambas são dos anos 1930 – que faz fotos em três dimensões. Ou seja: ela tem três objetivas que projetam pra dentro dela duas imagens, que, se vc colocar uns óculos na distância focal certa, se transformarão em uma única, em 3ª. dimensão.
James Cameron tinha, sem dúvida, onde se inspirar.
Tanto meu pai trabalhou para produzir imagens cada vez de maior qualidade. E, naquele tempo, produzir imagem era uma coisa complicadíssima, um processo louco, de várias e delicadas etapas.
O som, por exemplo, era à parte. Era colocado, depois, na película.
Tudo era muito trabalhoso e sutil, mas, ainda assim, Hollywood produziu efeitos especiais, nas terceira e quarta década dos anos 1900, que nada ficariam devendo ao que se consegue hoje com os recursos eletrônicos.
Meu pai morreu em 1987, já encantado com os videotapes e repetindo sempre, como me dissera em 1969 quando fiz vestibular para a Escola de Cinema, que o futuro da imagem repousava na eletrônica e que, portanto, em vez de escola de cinema, eu deveria cursar engenharia eletrônica…
Meu primeiro filme aconteceu com uma pequena câmera amadora que eu levei para a escola primária e filmei (tudo balançado, como acontece com todos os principiantes mesmo das câmeras modernas que tem mecanismos para compensar balançadas) meus coleguinhas. Tenho o filme até hoje. Foi revelado na única máquina capaz de revelar filmes coloridos da América Latina: a que meu pai construíra. Nunca foi sonorizado, som mesmo só quando foi transformado em vídeo (VHS) e eu coloquei nele uma trilha musical.
Fui apresentada, por meu pai, ao fascínio da câmara escura dos laboratórios fotográficos quando eu tinha apenas 8 anos de idade.
Aprendi a magia de revelar fotos, um processo nada fácil, mas absolutamente encantador.
Sob uma tímida luz ambiente vermelha (que não sensibiliza os papéis fotográficos para fotos em preto e branco), colocava-se a tira de filme negativo num aparelho (ampliador) que projetava a imagem negativa numa mesa onde se colocava o papel fotográfico para ser sensibilizado pela luz (o papel continha – assim como os filmes virgens – uma emulsão sensível à luz e capaz de registrar as imagens. A base da emulsão era a prata, que escurece na luz) e, depois de expor o papel pelo tempo necessário (a arte de saber o tempo necessário… ah…), jogava-se a folhinha na primeira banheira (uma vasilha) que continha o líquido revelador.
Ali – no escuro e sob apenas a luz vermelha – tinha-se que saber o momento exato de retirar a foto, passá-la pela banheira de água e ácido acético – vinagre– e, em seguida, jogá-la no fixador (que como o nome está dizendo era a droga capaz de fixar a imagem e impedir que ela amarelasse ou mesmo sumisse com o tempo). Depois, caso se desejasse uma foto com brilho, ela ia pra esmaltadeira (uma espécie de grelha elétrica). Ou para o varal mesmo, para secar.
Com os filmes (de cinema) o processo era basicamente o mesmo. Mas como se tratava de metros e metros de película (cada 24 quadrinhos – fotogramas – de uma imagem filmada fazem um segundo de imagem projetada) era preciso uma máquina aonde o filme ia sendo transportado de tanque em tanque de revelação, lavagem, fixação e secagem.
Se o filme fosse colorido, um tanque de revelação pra cada cor básica. Bela complicação, né? E tudo isso pra se conseguir um filme mudo. O som vinha depois numa trilha ótica ou magnética que corria ao lado da película. Mais complicação.
Por todas essas complicações, também, é que o advento do vídeo tape foi uma glória. A televisão, antes do vídeo, tinha que fazer reportagens em filmes, revelar os filmes, editá-los (a gente usava o verbo “montar”) … Imagine a trabalheira.
Mas a minha primeira trombada com a realidade do vídeo aconteceu em 1969, na TV Aratu, então a afiliada da Rede Globo em Salvador, na Bahia. O meu irmão Alvan tinha sido transferido, pelo Boni, do Rio para Salvador e eu estava lá em férias.
Alvan me levou à TV para me mostrar a maravilhosa mesa de efeitos eletrônicos que acabara de chegar dos EUA. Então eu descobri que a eletrônica fazia em segundos o que se levava horas e horas para realizar em película, fosse de cinema ou de fotografia…
Já a minha mãe, que viveu o bastante para ver as câmeras digitais, lamentava que meu pai também não tivesse vivido o suficiente para ver os seus sonhos realizados – todos eles, da captação da imagem à edição final – num aparelhozinho do tamanho de um maço de cigarros.
As minhas muitas heranças da imagem, agora que todos os meus gurus familiares já morreram, estão espalhadas pela casa, pelo cotidiano, e eu fico imaginando que eles mereceriam ver os progressos magníficos do registro da imagem e desfrutar de todas as maravilhas proporcionadas pelo computador e pela grande revolução da internet e suas redes sociais.
Então acontece de eu estar caminhando, como de hábito,em alguma manhã, pela Avenida Paulista e cruzar de repente com alguma criança que me chama a atenção, por alguma razão inimaginável, e perceber, no olhar e no sorriso que ela me dá, aquela chama de reconhecimento.
São eles – eu sonho – que voltaram para viver de novo e, desta vez, na imagem completamente eletrônica.
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Escritora, produtora e apresentadora
Band TV, Rádio Tupi AM
Av.Paulista 960 apto 1206, 01310-100
(11) 83573611



























































