Artigo do reitor Julio Cezar Durigan é publicado no Estadão Noite

A produção científica brasileira aumentou cerca de 60% nos últimos anos, situando-se na 13ª posição no ranking mundial de artigos publicados em revistas especializadas.

Há um aspecto que é crucial para entender a mecânica dessa transformação de nosso país na última década. Trata-se do fortalecimento de sistemas de avaliação centrados na perspectiva do mérito científico e acadêmico, traduzido no neologismo, já consagrado nas universidades, como o regime da meritocracia.

A universidade pública é uma decisiva referência enquanto comunidade política e vincula-se ao Estado de São Paulo estado como aparato administrativo e de governo. No primeiro caso, recebe uma atribuição ética, educacional e política; no segundo, muitas incumbências e algumas restrições. Precisa ser livre, laica e autônoma para respirar e cumprir seu papel. Ao mesmo tempo, necessita se viabilizar como organização, ou seja, cuidar de si própria, administrando corretamente os recursos de que dispõe ou que recebe do poder público e responder à “delegação” da sociedade que lhe transfere determinadas responsabilidades e incumbências.

É inevitável, portanto, que a universidade espalhe em si todas as características, vantagens e adversidades da época histórica e das sociedades concretas em que está inserida. Se o ambiente geral trepida ou é turbulento, a universidade o acompanha. Se o risco e a incerteza prevalecem, a universidade tende a se sentir igualmente insegura. Tudo isto enseja, naturalmente, processos de retro alimentação e de avaliação dinâmicos, pois, ao refletir sobre o mundo, acaba por refleti-lo.

Para o desenvolvimento acadêmico-científico de todos, pessoas e instituição, deve-se buscar conhecer o cume do potencial em cada uma das grandes áreas do conhecimento. A avaliação, nesse contexto, deve ser entendida como um processo em que a construção ideal se dê com o desprendimento e cooperação de todos. Cada uma das áreas deve buscar a melhor forma de captação de suas potencialidades, sem se esquecer da grande responsabilidade social a que está submetido.

A avaliação, enquanto reflexão crítica sobre a práxis, busca captar os avanços, os recuos, as resistências e as dificuldades da realidade para, num balanço de acertos e erros, definir as possibilidades de tomar novas decisões sobre o que fazer para corrigir, melhorar ou superar as dificuldades.

No sentido amplo, o conceito de avaliação está ligado ao conceito de mudança. Também é um processo de captação das necessidades a partir do confronto entre a situação atual e a situação desejada, visando intervir na realidade para construir a aproximação entre ambas.

A finalidade maior no horizonte da concepção progressista de educação é ajudar a organização a cumprir sua função transformadora de equalização do binômio: quantidade x qualidade. Quando a quantidade não assegura a qualidade, a tendência é a banalização do desempenho das pessoas e resultados pouco satisfatórios nas ações. Quando a qualidade não assegura a quantidade, o que ocorre é a elitização do processo, a exclusão da maioria e pouca ou quase nada da democratização dos resultados.

Os processos de avaliação na universidade (de alunos, professores e funcionários) e de uma  universidade (institucional) em relação a outras são igualmente essenciais e complementares para o desenvolvimento da instituição, cuja função social é de alta relevância para a sociedade brasileira, ainda mais na esfera pública e em um Estado com a importância de São Paulo.

Julio Cezar Durigan é reitor da Unesp.

Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 4 de maio de 2015.