Heckel Januário em: “CABEÇA DE FLANDE”
O espírito extrovertido e o de falador contumaz deram-lhe fazer desde chegada inúmeras amizades, e de fomentar irreverentes tiradas.
Com cabelo “black power” dos mais invocados, no inicio dos anos 70 pintava na Capitania dos Ilhéus, Everaldo Cabeça de Flande (Cabeça de Flande é o sobrenome de batismo dado pelo radialista Bira Madureira. O ceplaqueano Dudu Pita o trata por Iviraldo –isso mesmo, com dois iss–, e Paulô da BitWay por “Preto Rico”), cidadão que se gabava ser “bom de bola” e de ter jogado como “beque de espera” no selecionado de Camamu. Mais tarde, já mecânico profissional e enturmado na cidade, ele troca a posição de “espera” pela “lateral direita”, e se proclama o melhor da Região Cacaueira, para desespero e inconformismo de Jorge Lepê, atleta da época que –muito se comentava–, se achava o bambambã desta lateral.
De língua afiada e algumas vezes ferina, por um doutor se mostrar brincalhão no ambiente do futebol e fora dele mudar radicalmente o comportamento, a ponto de não lhe responder um “bom dia” no elevador do Banco do Brasil, fora implacável: “Aquele doutor… parece até uma metamorfose: de dia é borboleta, à noite vira lagarta”. Certa feita, ao participar de uma reunião de uma associação de futebol, inesperadamente, como efervescia uma campanha eleitoral, adentra uma comissão em prol da candidatura de um prefeito. Em meio ao discurso do candidato não deu outra: “Atenção pessoal: Esse cidadão nunca veio aqui. Promete incentivar o esporte para tentar ganhar voto. Aposto se for eleito ele vai dar é uma banana de mão fechada!”.
Na Avep, a entidade mais antiga de baba de praia da Capitania, a qual se associou desde quando chegou, é uma de suas fontes de inspiração. Há pouco tempo pelo fato do craque Carqueja por algum motivo haver deixado por uns dias de frequentá-la, não hesitou em “Carqueja, mal, mal se elegeu vereador, abandonou o baba; pelo menos desse, estamos livres dos gols de banheira!”. Numa das festas de fim de ano patrocinada por esta agremiação, com muita cerveja, frios e a descontração imperando, eis que toma corpo numa patota a brincadeira de jogar miolo de pão em Veinho da Prefeitura, motivo desse partícipe, a toda hora, irritadíssimo, com um sonoro “Quem foi o engraçadinho?”, erguer-se da cadeira. Sorrateiramente os incautos apontavam para Everaldo que, justiça seja feita, embora tivesse a fama de ser useiro e vezeiro de semelhantes sacanagens, não estava participando. Dado um momento, a paciência indo pro beleléu, Veinho partiu vociferando pra cima do delatado inocente: “Olhe seu Cabeça de Flande, comigo o negócio é mais embaixo. Se você topar, nós vamos pro asfalto trocar porrada”. O entrevero poderia ter um desfecho pior se a turma do “deixa disso” não interviesse, mas foi parar na delegacia. “Seu delegado, o senhor sabe né, eu não sou santo, mas confesso estar fora dessa. Pode escrever: foi coisa de Dr. Slaib, Rogério Midlej, Torisco do HSBC e de outros que costumam ficar na moita, tirando uma de bonzinhos. Pão, seu delegado, eu como, não jogo nos outros não!”, foi o seu depoimento.
Em uma pescaria –outro esporte de sua predileção– na Ponta da Tulha a um duzentos metros da praia, ao aguardar tranquilo a beliscada de um peixe, de súbito se vê dentro d’água. Ao –refeito do susto e novamente a bordo de sua pequena embarcação– relançar a linha avista nas proximidades uma baleia jubarte e, “Foi ela, foi ela!”. Pois é, historinhas de pescadores também são com ele, e esta, com a cara de pau do tipo do mamífero.
Em cima dos políticos suas astúcias se completam. Para ele todos são iguais. Partido Político esse, pra quê?! Do Executivo, da gestão passada, só salvava o presidente Lula. O resto era “farinha do mesmo saco”. O desvio de conduta deles se tornou um prato cheio para seus arroubos. “Viu você Cabeça Branca, que o Brasil não tem jeito! Sentiu o peso da irresponsabilidade dos caras lá no Congresso?”. Foi o mais recente com a iguaria do escandaloso aumento salarial de deputados e senadores instituído por eles próprios. Uma observação: “Cabeça Branca” é como carinhosamente é tratado Mario Amorim, presidente do PT ilheense. Bom, essas são umas poucas do camamuense-ilheense Everaldo Aragão, possivelmente hilariantes, às vezes pesadas, e às vezes recheadas de razões.
Heckel Januário
























































