Anotações sobre a “Evolução Histórica do Jornalismo no Ocidente”, em Jorge Pedro Sousa.

Por Dirceu Góes – Jor. 967-DRT-Ba

Ao consultar o Dicionário Básico de Filosofia, organizado pelos pesquisadores Hilton Japiassu e Danilo Marcondes, obtêm-se a seguinte definição para o verbete “Dialética”: “Marx faz da dialética um método… a partir dele, mas graças, sobretudo, à contribuição de Engels, a dialética se converte no método do materialismo e no processo do movimento histórico considerando a Natureza: a) como um todo coerente em que os fenômenos se condicionam reciprocamente; b) como um estado de mudança e movimento; c) como lugar onde o processo de crescimento das mudanças quantitativas gera, por acumulação e por saltos, mutações de ordem qualitativa; d) como a sede das contradições internas, seus fenômenos tendo um lado positivo e outro negativo, um passado e um futuro, donde a luta das tendências contrárias gera o progresso (Marx-Engels)”.

Tal definição nos ajuda a aquilatar a importância da praxis renovadora dos pioneiros envolvidos com o fazer jornalístico em todas as épocas, das oportunidades sócio/econômicas e da introdução de inovações tecnológicas que possibilitaram a evolução histórica do Jornalismo, constituindo-se como terreno propício para o surgimento de teorias regimentais próprias à Disciplina. Além disso, auxilia-nos na análise do texto “Uma História Breve do Jornalismo no Ocidente”, de Jorge Pedro Souza, In: Jornalismo: História, Teoria e Metodologia – Porto: UFP, 2008. Nesta obra, na qual relata o transcorrer evolutivo do jornalismo em parte da Europa e dos Estados Unidos, o autor lusitano define o seu propósito: “A única tese que quisemos provar…é a de que o jornalismo surgiu noticioso e sempre houve jornalismo noticioso, com dimensão e impacto, até porque o jornalismo não teria sobrevivido sem aquilo que é próprio dele – as notícias. A distinção de épocas na história do jornalismo…pretende ser puramente historiográfica, sendo apenas baseada nos modos e meios jornalísticos dominantes em cada período”.


Assim é que Sousa inicia a sua “proposta de periodização do jornalismo ocidental” pela época “dos fenômenos pré-jornalísticos (até o século XVII) sendo de destacar, em particular, as Actas Diurnas romanas, as folhas noticiosas volantes, as cartas e crônicas medievais, embora estas últimas sejam mais historiográficas do que jornalísticas”. Sobre as Actas Diurnas há de se realçar o seu caráter institucional de comunicação oficial do poder romano, cujo corpo de redatores (em sua maioria escravos alfabetizados) estava voltado para a coleta de informações no palácio do imperador e junto aos senadores, muito embora houvesse quem nestas casas ditasse o que deveria ou não ser publicado e com quais conotações. Uma atribuição, guardadas as devidas proporções, em parte similar a dos “assessores de comunicação” e “relações públicas” em atuação nas prefeituras e câmara de vereadores das cidades mais populosas do Brasil.

As Actas Diurnas, de acordo com o texto desenvolvido por Jorge Pedro Sousa, eram impressas em tábuas de madeiras ou argamassa de cera. Elas também traziam como conteúdo fait divers, tais como “fofocas” sobre figuras socialmente emergentes, condenações e execuções, disputas esportivas e outros feitos populares, da mesma forma como se redigem e apresentam algumas publicações analógicas e virtuais contemporâneas. Para se tornarem de conhecimento público, elas eram afixadas em murais estrategicamente localizados em prédios públicos, entregues “em primeira mão” aos mais abastados e distribuídas aos comerciantes e generais mais influentes ao longo das estradas do império em expansão na Europa e em direção ao Oriente. A publicação das Actas Diurnas foi encerrada por volta de 330 d.C., quando a sede do império romano foi transferida de Roma para Constantinopla, pelo imperador Constantino.

Avançando através do tempo na proposta de periodização histórica do jornalismo de Jorge Pedro Sousa, outro acontecimento que merece destaque diz respeito ao aparecimento das “gazetas”, entre os séculos XVI e XVII, “que apresentavam, sobretudo, um noticiário internacional, traduzindo notícias uma das outras”. Entretanto, antes das considerações sobre este tópico, exaltamos a invenção da prensa de Gutenberg, por volta de 1454, como a revolução tecnológica que rompe e deixa para trás os relatos noticiosos orais e os manuscritos teológicos restritos aos monastérios, próprios ao período mais obscuro da Idade Média. As publicações pós-Gutenberg se associam às iniciativas comerciais de uma burguesia nascente fixada, principalmente, em cidades portuárias, nas quais se priorizou a alfabetização e educação dos seus pares, assim como incentivou o ofício de profissões variadas. O aprimoramento da prensa “gutenberguiana” posteriormente viabilizou a essa mesma burguesia a participação nos assuntos de Estado, a difusão das suas idéias e a defesa dos seus interesses através de folhas volantes que “abordavam temas variados como política, comércio, fenômenos insólitos e curiosos, calamidades, crimes e criminosos, batalhas, lugares descobertos, etc”.

A evolução das folhas volantes noticiosas para as gazetas, difundidas em toda a Europa ao longo dos anos de 1600, foi uma questão de amadurecimento dos editores em se certificar que as publicações permitiam um bom negócio com possibilidades de lucro e influência político-social. Sousa frisa que, no decorrer daquele século, as gazetas geralmente apresentavam, dentre outras características, “primeira página titulada e, por vezes, ilustrada, mencionando data, local de impressão e nome do editor; textos simples e escorreitos; periodicidade semanal, e depois bi e tri-semanal até chegar à diária; notícias sobre diferentes assuntos; além de existência de profissionais dedicados em exclusivo à redação, paginação e impressão, além de anúncios pagos”. Jorge Pedro Sousa defende que “O aparecimento das gazetas permite afirmar que o jornalismo noticioso é uma invenção européia dos séculos XVI e XVII, com raízes remotas na antiguidade clássica e antecedentes imediatos na idade Media e no Renascimento”.
Ao adentrar-se pelo século XVIII, o autor nos alerta para a “coexistência da imprensa opinativa “de partido” de elites, da imprensa noticiosa “de elites” da imprensa de difusão de conhecimento (literária, científica e médica, filosófica…) e mesmo da imprensa direcionada para homens e mulheres”. Essas são nuances que frutificaram graças ao Iluminismo, quando, efetivamente, propiciou-se o surgimento e a noção do conceito intelectual que se passou a chamar “opinião pública”, gerido em meio aos debates políticos/científicos/econômicos e discussões literárias entre membros da burguesia instruída nos cafés londrinos, nos salões parisienses e núcleos de sociedades alemãs.

Alguns fatores contribuíram para esta evolução histórica do jornalismo: “desenvolvimento acentuado e riqueza, devido a fatores como o aumento da produção e o colonialismo; consolidação dos Estados; respeito ao individualismo; descobertas científicas e avanços espetaculares nas ciências; a reforma Protestante; o processo pronunciado de urbanização e alfabetização; a independência dos Estados Unidos da América e a Revolução Francesa; assim como o domínio da doutrina liberal por sobre os escombros do Ancien Regime e da aristocracia”. Apesar de tantos fatores contributivos para o esplendor da “Idade das Luzes”, a censura penalizou determinados segmentos da imprensa através de atos totalitários no continente europeu por vezes através da força e, por outras, impondo taxas abusivas incidentes sobre as publicações. É de se acrescentar que os burgueses recém-instalados no comando da vida pública e cultural pouco caso faziam das necessidades e anseios da população economicamente limitada, assim como dificultavam a existência dos editores de jornais e periódicos que não faziam parte do restrito circuito elitista por onde circulavam.

Entre os leitores diretos das gazetas identificadas com as aspirações da burguesia ascendente, pontua Sousa, “contar-se-iam, assim, os burgueses endinheirados, a aristocracia rica e o clero instruído embora, como se saiba, as gazetas tivessem muito “leitores indiretos”, pois eram lidas publicamente em feiras e noutros ajuntamentos, por vezes a troco de um pequeno pagamento por parte de quem escutava”. Ao final do século XVIII, os artigos dos jornais deixaram de ser totalmente opinativos, uma vez que já não mais necessitavam combater o regime aristocrático, por ter se estabelecido, incisivamente, nos países europeus e nos Estados Unidos da América. O jornalismo conquistou diversos avanços tecnológicos resultantes da revolução industrial, que se deu notadamente na Inglaterra no último quarto daquele século, lançando-se para os anos de 1800 com periodicidade diária, conteúdos multifacetados capazes de agradar a “largas franjas de audiência”, preço reduzido dos exemplares vendidos ao público, culto aos fatos e linguagem clara, além de caráter publicitário e comercial.

Este formato de jornalismo fez eclodir nos Estado Unidos, por volta de 1830, a primeira geração de jornais populares, denominada de penny press. “As mudanças na imprensa norte-americana influenciaram a transformação do jornalismo praticado na Europa e, de uma forma geral, no resto do mundo”, afirma Jorge Pedro Sousa. Ele elenca uma série de assuntos abordados pelo jornalismo “em nome da promoção do interesse humano” a partir de então: educação para todos; combate ao desemprego; generalização dos empregos às mulheres e a todas as camadas sociais; abolição da escravatura; fim do trabalho infantil; fim das prisões por dívidas, sufrágio universal; etc”. Temas que, convenhamos, ainda se mantêm atuais quase duzentos anos depois da eclosão da penny press.

No transcurso do século XIX, notadamente na sua segunda parte, o mundo presenciou a implantação de cursos de Jornalismo em universidades da Alemanha, Suíça, França e Estados Unidos. A formação da primeira organização profissional de jornalistas se dá na Inglaterra, em 1883. A invenção e o uso corrente do telégrafo e do fotojornalismo, além da implantação das agências de notícias, (Havas, Reuter, Wolf e, posteriormente, a New York Associated Press) propiciaram o emersão da segunda geração de jornais populares, alguns dos quais intimamente ligados à promoção de homens públicos filiados a partidos políticos. Designada enquanto “quarto poder” e legitimada como porta-voz da opinião pública, a imprensa do final do século XIX percebeu-se movida entre a busca pela “liberdade de imprensa” e “verdade dos fatos”, ao mesmo tempo em que se estruturava como empresa rentável com prodigiosa margem de lucro.
Ao se lançar no relato da história do jornalismo no século XX, Jorge Pedro Souza aborda o surgimento do rádio e, um pouco depois, da televisão como as grandes novidades da primeira metade dos anos de 1900. Os dois veículos eletrônicos nascem essencialmente comerciais nos Estados Unidos e de forma predominantemente estatal nos principais países da Europa. A princípio o rádio, tanto em um como no outro modelo de implantação, foram largamente utilizados enquanto meio de propaganda política. Dele se serviram o presidente dos EUA, Roosevelt, defendendo o “New Deal” após a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929. Além dele, Benito Mussolini (Itália), Franco (Espanha), Salazar (Portugal) e Hitler (Áustria-Alemanha) fizeram do rádio o arauto constante dos seus planos de dominação despótica durante as décadas de 30 e 40. Superada esta fase, Sousa esclarece que aos poucos “o radiojornalismo começou a configurar-se como aquilo que é hoje, vingando o modelo de radiojornal de hora em hora, complementado, pontualmente, com transmissões desportivas, culturais e científicas em programas de entrevistas, debates e reportagens”.

Quanto ao telejornalismo, foi inicialmente “buscar os seus principais referentes ao documentário cinematográfico, às notícias e reportagens radiofônicas e ao radiojornal”. Conforme o relato de Sousa, quando o gênero telejornal foi levado ao ar “consistia numa série de jornalistas que se sucediam uns aos outros a lerem notícias”. Numa segunda fase o apresentador se transformou no herói da televisão: “É o pivot (grifo nosso) que confere unidade ao programa, pela sua presença constante e familiar. È o pivot quem garante a veracidade das notícias e credibiliza a informação, pois parece sentado ao mesmo nível do telespectador, olhando-o nos olhos”. Atualmente, “um terceiro modelo de telejornal teria surgido com a CNN”. Neste modelo, “a credibilização da informação não assenta prioritariamente no apresentador, mas sim no directo multilocalizado em contínuo”. A grande promessa do telejornalismo, neste terceiro modelo, é mostrar, ao vivo, “o que se está a passar em cada ponto do planeta Terra as reações (mundiais) dos acontecimentos”, garante o autor do texto.

No limiar entre a primeira e segunda metades do século XX, Jorge Pedro Sousa localiza a “assunção da subjetividade” do movimento jornalístico/literário denominado de “Novo Jornalismo”, que, entretanto, transmutou o conceito pejorativo de “objetividade” em rigoroso método, quase que científico, para investigar os fatos. Para os anos 80, o pesquisador lusitano descortina a informatização das redações jornalísticas. Já para a década de 90, ele nos relembra do advento da internet e a conseqüente implantação do Webjornalismo, disponível através de plataforma digital para a qual convergem textos, imagens e sons, além de permitir a interatividade dos “internautas” que acessam a rede mundial de computadores. Com base no texto de Jorge Pedro Sousa, assinalamos: no período histórico atual do jornalismo fica patente o declínio das agências noticiosas e, no seu contraponto, a formação de “gigantescos oligopólios de informação e entretenimento”, com raízes mundiais por força da globalização. Por outro lado, o texto nos leva a dizer que o “glocal” cada vez mais se estabelece, realçando a prestação de serviços e os temas caros ao “jornalismo cívico”, abordados pelos veículos de comunicação notadamente regionais.
Denso e detalhista, o texto “Uma História Breve do Jornalismo no Ocidente”, de Jorge Pedro Sousa, traz muito mais outras informações pertinentes à análise de tantos quantos pesquisadores que se debrucem sobre a obra. O resumo que acabamos de apresentar, trata-se, tão somente, da projeção provisória do nosso olhar sobre o assunto apresentado pelo pesquisador lusitano.