Foi uma bela vitória de Dilma Rousseff, com ampla vantagem sobre o adversário José Serra, do PSDB. Mas, apesar da lavada eleitoral, a vantagem de Dilma não é suficiente para fazer o que quiser, à vontade. A oposição venceu nos Estados mais ricos e de maior população; neles habitam, hoje, 52,3% dos eleitores brasileiros. Presidente é presidente, seu poder é incontrastável; os governadores têm muito menos força e, em grande parte, dependem de recursos da União. Mas juntando-se os governadores de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás e outros Estados, forma-se um poder capaz de conter uma eventual afoiteza e as possíveis bravatas do Governo Federal.

As primeiras palavras de Dilma como presidente eleita foram moderadas – moderação que pode ter irritado os bolsões sinceros porém radicais de seu partido, mas que se tornou obrigatória diante da divisão do poder no país. O eleitorado está rachado ao meio – pouco mais da metade com o PT, na eleição presidencial, pouco mais da metade com a oposição, nas eleições estaduais. A forte frase de Dilma em favor da liberdade de imprensa pode ser lida a partir dessa divisão de forças: “Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”.

É provável que o ex-ministro Antônio Palocci, com trânsito fácil entre políticos e empresários, seja seu articulador. Não terá problemas com os grandes empresários, que marcharam com Dilma na campanha. Com os políticos, depende da presidente: cabe a ela definir os termos do convívio com a oposição.

E a vida continua

Bem ao gosto do presidente Lula, o que está escrito acima pode ser traduzido numa frase do técnico José Mourinho, do Real Madrid, nas vésperas de um jogo importante contra o maior adversário de seu time, o Barcelona: “Se o Real vencer, amanhã será quinta-feira. Se o Barcelona vencer, amanhã será quinta-feira”.

Vale ler

Do discurso de Dilma, muita coisa é obrigatória (luta contra a miséria, por exemplo; ela não poderia dizer nada que não fosse isso). E há uma frase que normalmente seria também obrigatória, mas que se tornou importante por causa da campanha: “Vou zelar pela mais ampla liberdade religiosa e de culto. Vou zelar pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados na nossa própria Constituição”. O texto não chega a ser brilhante, mas deixa claro que seu Governo não agirá contra a hierarquia católica que se opõe ao aborto, mesmo que discorde dela (é bobagem achar que a posição religiosa interfere na política brasileira, a menos que se transforme em lei – como, antigamente, ocorria no caso da proibição do divórcio); e “direitos humanos consagrados na nossa própria Constituição” não são exatamente os mesmos que se tentou implantar no Plano Nacional de Direitos Humanos, tão criticado.

Cinco letras que choram

Dilma Rousseff inicia seu Governo com um sinal de boa sorte: o ministro da Verdade, Franklin Martins, está falando em deixar o cargo, onde se notabilizou como o maior crítico oficial da liberdade de imprensa. Não se sabe, até agora, para onde vai. Talvez volte à crônica política – onde, apesar dos vínculos ideológicos, vai mostrar mais talento do que os comentaristas em que apostou.

Não vale ler

O discurso de José Serra, após a derrota, traz algumas bravatas (“verás que um filho teu não foge à luta”; “estamos apenas começando” – isso depois de mais de 20 anos da fundação do PSDB, isso depois de oito anos de Fernando Henrique na Presidência da República, isso depois de 16 anos de poder em São Paulo, mais o novo mandato de Geraldo Alckmin, que agora se inicia). Talvez seja uma conclamação à oposição, para que seja mais combativa. Uma excelente ideia – desde que a oposição não diga que ela é a continuação do maravilhoso e magnífico e sensacional presidente Lula, ou que sai o Silva e entra o Zé, lembra?

Vale comentar

O discurso de Serra começou tarde (deveria ter-se antecipado ao da candidata vitoriosa, para desejar-lhe boa sorte), foi fraco na admissão da derrota (recorde-se: John McCain, ao ser derrotado por Barack Obama, disse algo como “até agora ele era meu adversário. De agora em diante é o meu presidente”) e contém uma frase que poderia muito bem ter sido esquecida: “Não é adeus, é até logo”.

OK, José Serra. Até logo.

Porta na cara

Pode ter sido apenas um incidente isolado; mas pode ser, também, um indício de como os políticos talvez sejam tratados no Governo Dilma. O senador Eduardo Suplicy, fundador do PT, levou flores à presidente Dilma em sua casa. Antes, deu entrevista: “Vim pessoalmente cumprimentar a presidente Dilma pela vitória e dar um abraço nela pessoalmente”, disse (o estilo Dilma de falar parece ter contaminado muitos políticos). Em seguida, foi barrado por um segurança. Nada de desculpas gentis: o segurança informou que a presidente eleita estava descansando e não iria recebê-lo. Mas ele poderia deixar as flores, que ele as entregaria. Suplicy disse que não estava chateado, mas foi imediatamente embora.