Em Portugal, viúva protesta contra assassinato do marido morto por urinar na rua
Esteticista pede a Consulado apoio para transportar corpo de brasileiro. Família precisa de 5,5 mil euros para trazer o corpo

Esposa do brasileiro morto com facada em Lisboa. (Foto: Reprodução/Correio da Manhã)
Por telefone, ela contou ao CORREIO que, além do transporte do corpo, que a família não tem como pagar, ela quer vir ao Brasil para o enterro do companheiro, mas as autoridades portuguesas não permitem sua saída, pois ela é a única testemunha do crime. “Eles não podem me segurar aqui. Eles têm que permitir que minha filha se despeça do pai”, apela.
Solidariedade
Para tentar resolver a situação, familiares e amigos estão ajudando como podem. Segundo Andressa, um tio de Luciano que mora na Espanha já está em Portugal para dar apoio, e outras pessoas também ofereceram sua solidariedade, como o casal de amigos que está abrigando a esteticista e a filha em casa.
A mãe de Andressa, Edna Santos, que mora em Lisboa há 7 anos, também está se mobilizando. “Estou na porta do Consulado passando uma lista para os brasileiros fazerem doações para transportarmos o corpo”, conta. O corpo já foi liberado e a família corre contra o tempo para conseguir os 5,5 mil euros para trasladá-lo para o Brasil em até uma semana.
Planos
Luciano foi assassinado na madrugada de domingo, supostamente porque fazia xixi na rua, segundo divulgado pela imprensa portuguesa. O crime, porém, tem ingredientes que conduzem a um ato de xenofobia (veja quadro).
Luciano e Andressa planejavam se mudar no próximo domingo para uma casa só deles, alugada com muito sacrifício, e queriam vir embora para o Brasil em janeiro. “A gente estava sem dinheiro, mas Luciano fez um trabalho de quarta até sábado pra juntar o dinheiro pra mudança. Quando saímos no domingo, isso tudo aconteceu”, relata a viúva.
“Agora, minha filha Isadora, de 1 ano e 9 meses, está com diarreia e vômitos e chora pelo pai que ela conheceu, pois ele não é pai biológico dela. Quando a gente se conheceu eu estava grávida”. Andressa quer deixar Portugal: “Quero pegar minha filha, enterrar meu marido no Brasil e ficar perto da minha sogra. Vai ser como se estivesse perto dele”, diz, em lágrimas.
A explicação do Itamaraty
No final da tarde de ontem, o Itamaraty informou que não pode pagar pelo traslado do corpo de Luciano. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores, não existe lei que permita esse tipo de despesa, e qualquer gasto do Itamaraty tem que estar orçado de acordo com a lei. A assessoria informou que o Consulado pode apoiar a família sobre o que ela precisa fazer para liberar o corpo, porém, não pode pagar pelo transporte.
Família denuncia preconceito
Para a família de Luciano Correia , tudo leva a crer que o crime foi motivado por xenofobia. Isso porque o assassino fez agressões verbais ao marceneiro pelo fato de ser brasileiro. “Ele falou ‘brasileiro de m… vai pra sua terra’. Em nenhum momento falou sobre o fato dele estar urinando na rua”, relatou a viúva, Andressa da Silva.
“Quem mora aqui em Portugal sabe como os brasileiros são discriminados. Enquanto os brasileiros recebem qualquer um de braços abertos, o que a gente encontra aqui é humilhação e xingamento. Mulheres brasileiras são taxadas de prostitutas e os homens de vagabundos ou ladrões”, desabafa.
O estudante brasileiro Ricardo Henrique Santos, 24 anos, mora em Portugal há dois anos e já sentiu na pele o preconceito.
“Ia atender a um cliente no call center e ele me disse que não queria ser atendido por um brasileiro”, conta. Na opinião do antropólogo Roberto Albergaria, as razões para as disputas entre portugueses e brasileiros são históricas. “As relações entre os dois países são conflitantes desde a independência”.
Para Albergaria, as piadas com português, por exemplo, são uma forma de vingança do colonizado com o colonizador. “Os costumes do brasileiro são uma afronta ao rigorismo dos costumes portugueses. São culturas muito diferentes. Eles não suportam o jeitinho brasileiro. Para eles, isso é coisa de malandro mesmo”.
Segundo o antropólogo, em Portugal há uma forte presença de brasileiros com costumes que desagradam. “A xenofobia é uma atitude universal e é uma consequência da crise econômica mundial em que as pessoas sentem que não há lugar para todos. Esse sentimento está cada dia mais presente, e em épocas de recessão, a tendência é que isso aumente”, observa.
Ayeska Azevedo | Redação CORREIO DA BAHIA
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