Já lá se passam mais de 200 anos. Quando a Corte portuguesa desembarcou no Rio, em 1808, foi recebida com festas e homenagens, procissões, fogos, salvas de canhão. Filas de pessoas humildes formavam-se para beijar a mão de Sua Majestade, o rei D. João 6º; e aquele famoso cordão que cada vez aumenta mais também entrava na fila, para desfrutar ainda mais a proximidade do Poder.

O povo passou muito tempo entusiasmado com o rei – simpático, bonachão, tipo pai de todos. Mas ele e seus inúmeros companheiros custavam caro: sua Corte mantinha dez ou quinze vezes mais gente que toda a máquina burocrática dos Estados Unidos. Um padre recebia bom salário só para confessar a rainha. Comiam muito, os cortesãos – comiam, por exemplo, toda a produção de galinhas e ovos do Rio de Janeiro (e o que não comiam, vendiam no mercado negro).

O custo era tamanho que, para financiar-se, a Corte obrigou os cidadãos mais ricos a comprar cotas do Banco do Brasil (e, em poucos anos, quebrou o banco). Outros doavam dinheiro em troca de títulos de nobreza. No pouco tempo que passou no país, D. João 6º deu mais títulos à companheirada do que haviam sido criados em Portugal em 500 anos. Criou-se também o hábito de fraudar concorrências e receber comissões (na época, 17%). Os gatunos se deram bem: um deles, barão, foi promovido a visconde. Surgiu uma quadrinha: “Quem furta pouco é ladrão/quem furta muito é barão/quem mais furta e esconde/passa de barão a visconde”. D. João, ao voltar a Portugal, deixou raspados os cofres do Brasil.

A fonte da história

A Corte arrecadava, mas os serviços eram péssimos: as estradas, esburacadas, eram um pequeno alargamento das antigas trilhas indígenas, a sujeira nas ruas e nas casas chamava a atenção dos visitantes e nem no Rio, a capital, sede da Corte, havia qualquer tipo de saneamento básico. Importante: todas essas informações foram retiradas do excelente livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes.

Devia ser terrível morar num país assim, só pagando a conta dos poderosos!

Imagine

A vida é dura mas a gente se diverte. Imaginar Fernando Henrique e José Serra no estádio, assistindo ao show de Paul McCartney, já seria bom o suficiente. Mas há mais: Índio da Costa, aquele que foi vice de Serra, soube que ambos estavam no espetáculo e se juntou a eles. Imagine a cena: uma noite linda, quente, um espetáculo de primeira linha, um astro internacional no palco, e Fernando Henrique e Serra conseguiram participar de um programa de Índio.

É aqui! É aqui!

O Brasil será a sede da 15ª Conferência Internacional Contra a Corrupção, que deve ocorrer em 2012. Costumam comparecer às reuniões cerca de 1.500 pessoas, entre elas chefes de Estado e de Governo, representando 130 países. A escolha do Brasil (pela primeira vez na História desse pais) é a melhor possível: onde mais colher exemplos abundantes e próximos do que deve ser combatido?

Dúvidas

O leitor Roberto Cáceres pergunta por que os EUA, com maior população e muito mais ricos, têm 435 deputados e dois senadores por Estado (contra 513 deputados brasileiros e três senadores por Estado). Quer saber também se, na opinião deste colunista, haverá reforma política e tributária; e se, com a reforma tributária, teremos menos corrupção e menor sonegação. Vamos às respostas:


1
– Todos os deputados e senadores foram eleitos com a política do jeito que está. Por que irão reformá-la, se como é hoje está boa para eles?

2 – Todos os Estados são favoráveis à reforma tributária, desde que não se mexa no que já recebem e pingue um pouco mais. A conta não fecha.

3 – O deputado Clodovil apresentou projeto reduzindo à metade o número de deputados e determinando dois senadores por Estado. O projeto não recebeu qualquer crítica. Também não andou: está parado em alguma confortável gaveta.

4 – Olhe pela janela, caro leitor. O sr. está vendo renas, lagos, muita gente de bicicleta? Não? É porque não estamos na Suécia. Reduzir sonegação e corrupção é coisa que vai acontecer algum dia, provavelmente num 30 de fevereiro.

Como disse o poeta

A Câmara Federal compra 600 bandeiras de papel, a R$ 1,50 cada. Citemos o verso do grande poeta pernambucano Ascenso Ferreira: “para que? Para nada”.

Bom e bonito

Há livros que vale a pena ter por perto; são tão belos que, em certos momentos, até podem mudar o nosso humor. Carnavais do Brasil, da fotógrafa francesa Catherine Krulik, radicada há muito tempo em nosso país, é em cada foto uma obra de arte (confira aqui). Lançamento nesta quinta, 25, a partir das sete da noite, na Livraria da Vila – alameda Lorena, 1.731, SP. O bom texto é de Marli Gonçalves.

Vencer é perder

É fantástica a declaração do Governo do Rio, de que o banditismo nas ruas se deve ao sucesso de sua política de segurança. É como afirmar que a política de contratação de jogadores só é vitoriosa quando o time leva uma goleada em casa.