MEHMED

Os ratos da Die Zauberflöte
(em português A flauta mágica) é uma ópera em dois atos de Wolfgang Amadeus Mozart, que parodiada, acomete meus sonhos invariavelmente.
Não sei das razões oníricas que fazem acometer o meu sono noturno por visitas tão gratificantes. Sonhos míticos, fantasias epopéicas, heróicas, messiânicas e saladínicas visitam o sono noturno proporcionando-me uns acordares felizes. Pelo menos sonho. Não me debato em pesadelos.
Ultimamente tenho sonhado invariavelmente como personagem da Die Zauberflöte, (em português) A flauta Mágica; aquela belíssima ópera em dois atos, de Mozart. Leiam bem o que escrevi: Personagem e não figurante. Figurantes são os ratos, pois neste meu sonho, a ópera está parodiada. Sou livre pra sonhar… Pelo menos isso é gratificante.

Nos sonhos vívidos, sou um virtuose flautista, mágico, intuitivo e talentoso, sempre assediado por convites que não dão tréguas ao meu descanso nem no weekend! Uma azáfama trabalhosa e extenuante. Dia após dia, sem férias; lá estou eu exterminando os murídeos sem dó nem piedade; mesmo assim, ativo e operacional, as filas não param de crescer à porta do meu chalé baiano. De há muito já não posso mais curtir o balanço da rede no alpendre ao lado de Edmunda. Falta-nos privacidade para os “mimos” mais calorosos.
Ih! Tem briga na fila! Dois polícias e um Procurador trocam socos e ponta pés por causa de um lugar na fila. Tem um senhor de batinas; outro vestindo um chambre negro com gola branca e um chapéu estranho à cabeça; tem um homem de verde com o peito cheio de medalhas, tem vários outros com bandeiras onde se lê CGU, MPF, TCM, TCE, ST… Lá pro fim da fila onde a minha vista cansada já não alcança; não dá pra ler mais.
Sento-me na poltrona atrás da escrivaninha, arrumo alguns papéis, fichas de inscrição, canetas e, chamo Edmunda, minha Assistente e companheira de cama, mesa, banho e etc. (O “etc.” entendo prudente e recatado omitir). Em tom carinhosamente coloquial, determino-lhe: _ Amor! Pode mandar o primeiro da fila entrar; vou começar a atender.
O primeiro cliente, homem, já entra todo esbaforido, ofegante, taquicárdico… Num relance, ele desfia desesperado, sem pontos nem vírgula, sem respirar e entre profusas lágrimas; uma ladainha de desespero e aflições as quais acometem irremediavelmente sua cidade e seus comunas.
Interrompi: _ Calma! Não é assim não! Primeiro; quem é o senhor? Ocupa Cargo de confiança? É edil? Faz parte do governo da cidade? Que apito o senhor toca… Deixe-me ao menos preencher primeiro os seus dados cadastrais. Respire… Acalme-se homem de Deus!
Ele, já mais recuperado, começa:_ Doutor! Com a graça de Deus, não faço parte do governo municipal, não ocupo cargo de confiança; sou um simples cidadão. Nós o povo, nos cotizamos pra juntar o pagamento e vir aqui encarecer seus serviços. Contudo, trago a mais comigo, algumas Cartas de Recomendação de Deputada e vereadores que…?
Interrompi: _Pule esta parte. Comigo vale a Constituição: “Todos os cidadãos são iguais perante a lei” (menos os políticos, claro! Esses são imunes, refratários e reincidentes). _Vamos aos fatos que interessam: Onde fica a sua cidade; qual o estado de infestação e comprometimento pelos ratos; quais as raças dos ratos e população, etc.
Ele, já mais calmo_ A nossa cidade fica no litoral Sul da Bahia; o estado de infestação é endêmico, desesperador como uma infecção generalizada; estão atacando tudo. Comem as verbas, comem o dinheiro, roem o patrimônio público, cagam e mijam por toda a cidade, em qualquer lugar, inclusive praças públicas, hospitais, postos de saúde, escolas, postos de assistência social. Ate a Botica que misturava e fazia remédios para os doentes da cidade; fechou! Eles atacam de dia e à noite de Segunda a Domingo! Não um dia de trégua!
_ Tudo bem. Vou dar prioridade a sua solicitação e, estarei descendo para lá hoje mesmo. Estás vendo essa enorme e grossa flauta? Pois é: Não falha… Vai entrar rasgando! Próximo, por favor…
E Fui. Ao chagar a cidade, dispensei de pronto a oferta dos mimos da Geni; aquela que antes, já havia salvado a cidade do homem que cheirava a brilha-cobre; do Zepelim? Dos canhões? Lembram? Do Chico Buarque?
Pois é; o pau comeu, melhor dizendo, a Flauta longa e grossa comeu solta. Ratos-cotias enormes de gordos, ratos de esgoto, ratos de telhado, ratos de gabinetes, de tesourarias, ratos de hospitais… Foi um extermínio generalizado ponto a ponto e pente fino. Perigos? Houveram sim. Principalmente quando um grande bando de ratazanas robustas e malhadas tentou comer a nossa flauta. Eu vi a coisa preta e enorme que me incutia medo. As mais robustas avançavam sobre a rotunda cabeça da flauta e, as mais gordinhas, se agarravam ao pé e intercurso das extremidades, tentando derrubar e comer a minha flauta a qualquer custo. Não fosse a nossa flauta constituída de ultra-resistente material, duro como o diamante; hoje ela seria uma flácida defunta.
Mas venci a batalha; confesso-me orgulhoso da vitória sobre o mal, sobre os selvagens meliantes murídeos que assolavam aquele município Sul baiano. A guerra não acabou amanhã tem mais…
Ainda um tanto ofegante e agitado, começo a sentir um perfume peculiar de café com cravo e canela; dos quitutes matinais e de água de flores. E no cangote, um bafo quente cheirando a Kolynos e, um roçar macio como veludo ao pescoço que me fez soltar a flauta pra buscar tateando com as mãos, as origens dessas deliciosas sensações.
Eu estava apenas sendo carinhosamente despertado do meu sonho epopéico. Eis que vejo ao meu lado, da maneira como veio ao mundo; a minha querida Edmunda, meu sonho realidade.
Com voz terna e carinhosa ela diz: _ “Amor! Solta a flauta; sou eu! Vem comer o teu café da manhã vem!”
Sonhar é ótimo! Depois eu conto outro viu? Agora vou comer o comer o meu café da manhã, que ninguém é de ferro. Ou é?
Mehmed.