O fato aconteceu e, deu pano pra manga!

De antemão, antes de chegarmos aos finalmente, deixo claro minha preferência pela neutralidade a cometer injustiça posicionando-me a favor de uma das partes.

Ademais apesar de configurar-se num conflito, não merecia o rigor do enquadramento como crime, na pura expressão da palavra, pelo menos jamais caberá analogia com os delitos cometidos por nossas autoridades e políticos.

Porém o bicho pegou justamente nessa “pura expressão da palavra”. Para encurtar conversa, vamos lá: Foi nos idos dos anos 60 em Belmonte e no antigo Banco da Bahia. Dentre outros este banco prestava o serviço de cobranças, carteira nessa época sob a responsabilidade de Robert José que, além de competente funcionário –com excelente performance nos teclados das antigas Remington e Oliveti–, possuía a fama de falador contumaz. A clientela, devido ao pequeno porte da cidade, nos assuntos bancários afins relacionava-se diretamente com ele, e era sempre atendida com um acalorado “E aí Fulano, o que você manda?”. Belo dia um cliente desejoso em quitar uma duplicata da Pfizer Corporation, chega mandando certinho “faizer corporeicho”, pronúncia da referida firma inglesa. De pronto Robert inicia a busca nos arquivos, mas nada encontrando na letra “fê” (assim se pronunciava antigamente) pede ao solicitante que retorne na semana seguinte, tempo de o malote ter chegado da matriz. Na data prevista, como o interessado sabia que o título estava vencido e se fosse encontrado pagaria juros mais multa etc., calculou o dinheiro do débito e chegou cedo à agência, mas também com mais uma outra decisão em mente: processar a firma ou o banco pelo prejuízo. Sem saber, evidentemente, das intenções do cliente, Robert, em sua habitual maneira, serelepe e em alto e bom som foi logo “Diga meu caro, tudo bem? Passei a noite toda vasculhando documentos, mas seu só encontrei da Pifizer Corporation”. Isso mesmo: com sonoros “pifizer” e “corporation” e o “pifi” e o “ration” foneticamente destacados.

Por razões óbvias só o banco fora processado e o caso foi parar na Justiça. Alguns colegas bancários que tiveram cartorial acesso aos autos do processo revelaram que a tese da defesa se prendeu ao purismo da língua, enfocando a obrigatoriedade de que em território brasileiro –especialmente em repartições públicas ou privadas–, qualquer palavra estrangeira deveria ser aportuguesada, com a obrigação do falante pronunciá-la como tal.

Fiquei como disse, naquela de “nem tanto nem tão pouco”. Entretanto, no rastro do acontecido, saindo do muro de fininho, vejo o abuso do estrangeirismo na propaganda comercial em lojas de shoppings, num país em que boa parcela da população mal, mal, digere o portuga, como uma prática subdesenvolvida. Noutra vertente, se vingasse a tentativa de puristas da língua –neologistas por excelência– em transformar o inicial “football” em “ludopédio”, “balípodo” ou em “bolapé”, como desejaram, apostaria que seria arrepiante. Já pensou que barato o Pualinho Góes (do Bradesco) aqui da Capitania dos Ilhéus telefonando “Alô Vado, ó, não vá beber amanhã não porque tem ‘bolapé’ na Avep”, alertando o parceiro inseparável sobre o baba de praia da associação!? Sinceramente, de lado a força do costume, para mim “futebol” como ficou, e transformado pela dinâmica das ruas, tem a sonoridade mil vezes melhor.

Como o juiz do inquérito desde muito se tornou um combatente do Juridiquês, não aceitando, por exemplo, termos como “consorte supérstite” em lugar de simples “viúvo”, nem pomposos como “excelso sodalício” para Supremo Tribunal Federal, e convencido de que o episódio bancário da literalidade exprime –como o Judiciário e a sociedade– um grande problema de comunicação, resolveu encaminhá-lo para uma instância superior, onde aguarda-se solução. Ah, o protagonista hoje, invocado agora em usar pseudônimo, reside na Canes baiana, e curte literatura, inclusive é membro e fundador da academia de letras daquela cidade.

Heckel Januário