Isabel Vasconcellos em: Despedida da Médica Pioneira
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Maria Elizabeth fora uma das primeiras mulheres a fazer Medicina no país, fora também a primeira cirurgiã, numa época em que as mulheres raramente eram mais do que donas de casa ou prostitutas. Na faculdade fora alvo de escárnio dos colegas e dos professores, tanto que seu pai a acompanhava no trajeto de casa à escola, para protegê-la das eventuais agressões verbais e/ ou mesmo físicas. O valente senhor passou os anos da faculdade a acompanhar a filha na ida e na volta da escola.
Às pioneiras médicas só era permitido (e mesmo assim muito mal permitido) o exercício de especialidades que mais bem se coadunassem com a sua condição de mulher: ginecologia, obstetrícia e, no máximo, pediatria. Uma cirurgiã era uma ousadia e tanto. Já era difícil para os homens admitir que as mulheres pudessem manipular corpos, órgãos, cadáveres, que dirá abrir um corpo e ter sua vida e sua essência nas mãos.
Mas a Dra.Beth, como era carinhosamente chamada por seus pacientes e admiradores, vencera todos os obstáculos.
Agora ali estava, aos 70 anos mal completos, pronta a passar sua cadeira de Professora Titular de Cirurgia Geral ao colega mais jovem que a substituiria e assumir o “prêmio de consolação” do cargo de professora emérita.
Aquela aposentadoria compulsória instituída pelas Universidades era uma grande injustiça, julgava ela. Uma injustiça para homens e mulheres que, no auge da sabedoria, se viam afastados de suas funções, como se tivessem tornado, com a idade, em vez de sábios, decrépitos.
Ouvia, com lágrimas nos olhos, o discurso da jovem médica, na solenidade de entrega do cargo, que exaltava a coragem dela ao lutar contra os preconceitos e impor-se sobre eles para realizar sua verdadeira vocação. Mas as lágrimas que dançavam em seus olhos e que ela lutava (sempre lutando!) para não deixar escorrer, não eram exatamente resultado da emoção do momento. Eram muito mais lágrimas de frustração e revolta.
O cargo que, há anos, fora a consagração de toda uma vida de conquistas e vitórias, aquilo que era de fato a sua vida, o seu cotidiano, a razão de sua existência, escorria-lhe pelos dedos, como areia.
Pela primeira vez Maria Elizabeth sentia-se impotente.
Não poderia impedir a destruição de seu cotidiano. Estava acabado. A rotina da Universidade agora seria dos mais jovens, que a veriam sempre como uma peça de museu, uma imagem do passado, aprenderiam o respeito que lhe era devido, mas o futuro, a esperança, a conquista já não mais pertencia a ela. Ela se tornara definitivamente passado.
Porém, dentro de si, o que gritava era o presente.
E o presente ainda clamava por ela. Ainda havia muito a discutir, muito a refletir, muito porque lutar dentro da carreira médica.
Então, assim como dizem que a vida desfila diante dos nossos olhos no momento da morte, suas lutas passadas desfilaram por ela num breve instante: as humilhações sofridas na faculdade e as respostas que soubera dar a elas; a incrível transformação da Medicina nas últimas décadas com o advento de inúmeros medicamentos de eficácia surpreendente, os procedimentos modernos não invasivos, os sofisticados exames que auxiliavam o médico em diagnósticos muito mais precisos…
Mas nem tudo era avanço.
Em contrapartida às deslumbrantes conquistas científicas e tecnológicas, estava a excessiva especialização do médico, que afastava a visão holística do ser humano e a compreensão da integração entre o biológico, o psicológico e o social.
Estava o alto custo dos diagnósticos e procedimentos sofisticados de tecnologia de ponta, que acabavam elevando muitíssimoos custos da Medicina e gerando uma guerra surda entre as diversas partes do sistema: laboratórios, hospitais, médicos e empresas de assistência médica.
Estavam ainda o alto custo dos modernos medicamentos; a transformação de grande parte dos médicos de profissionais liberais em assalariados mal pagos; a inominável ineficiência, corrupção e incompetência da saúde pública; a proliferação de escolas médicas sem a mínima infraestrutura necessária, escolas montadas unicamente como máquinas de produzir dinheiro…
Tudo isso estava ali, diante dos olhos dela, clamando por propostas, investimentos, reivindicações… Tanto a fazer, tanto porque lutar e ela sendo arrancada de seu status médico. Era de desesperar.
A ensurdecedora chuva de aplausos a trouxe de volta à realidade do momento.
Supostamente, uma homenagem de seus colegas e alunos.
Na realidade, muita gente feliz por vê-la fora do cargo. Gente que discordava de seus métodos, gente que queria derrubar vários dos procedimentos que ela criara em seu departamento. Alguns sinceramente imbuídos de um espírito inovador, mas talvez equivocado. Outros por teimosia ou inveja.
Maria Elizabeth percebe, no entanto, que ainda terá armas com as quais lutar: seu prestígio, o respeito que conquistara ao longo da carreira, seus ideais, o conhecimento que ainda pode transmitir aos jovens doutores, as questões que ainda pode levantar.
E, pensando nisso, a dureza da expressão do seu rosto se desfaz como que por encanto e, abrindo o seu melhor sorriso, ela inclina o corpo, num abrangente agradecimento.
PS: esta é uma história de ficção, baseada nas pioneiras médicas Elizabeth Blackwell, a primeira americana diplomada, nas brasileiras pioneiras Maria Augusta Estrela e Rita Lobato e dedicada às médicas do Brasil, Profa.Dra.Angelita Gama, Profa. Dra.Albertina Duarte e à médica e escritora Dra.Yvonne Capuano.
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Isabel Vasconcellos Caetano é escritora e apresentadora de Rádio e TV, pioneira em programas médicos na TV, atualmente com o programa Sexo Sem Vergonha na rádio Tupi AM.
isabel@isabelvasconcellos.com.br




























































