Transcrito do “Jornal de Ilhéus”
Edição de 17 de novembro de 1918
Francisco Fernandes Badaró

Já não pertence ao mundo dos vivos o nosso distinto amigo Cap. Francisco Fernandes Badaró, natural deste município, onde era geralmente conhecido, estimado e acatado.

Atacado pela gripe, a que a princípio não ligou importância, agravou-se de tal sorte a moléstia que zombou de todos os carinhos de sua digna esposa, de sua velha mãe, irmãos e amigos e dos recursos da ciência ministrados pelos competentes e conceituados clínicos, Drs. Portela Lima e Soares Lopes.

Bem disposto e forte, gozava de boa saúde, ninguém diria que estavam contados os seus dias.

Achava-se a cerca de três meses residindo nesta cidade, por motivo de moléstia em pessoa de sua família, indo às vezes às suas fazendas no Sequeiro do Espinho, onde tinha sua morada efetiva.

Era casado com a Exma. Sra. D. Domitila Kruschewsky Badaró, irmã dos Srs. Coronéis Gabino, José e Henrique Kruschewsky, há cerca de dez anos, deixando de seu matrimônio com a fiel companheira quatro filhos menores, de nomes: Maria José, José, Victorio e Lourival.

Contava apenas 33 anos de idade e era filho legítimo do Coronel Antônio Fernandes Badaró, nosso valoroso e intransigente amigo e correligionário, falecido a cerca de 4 anos, e da Exma. Sra. D. Ambrosina Badaró.

Ativo e trabalhador deixa algumas fazendas de cacaueiros completamente desembaraçadas.

Era a maior influência política do Rio do Braço, Sequeiro do Espinho e Repartimento.

Contava por essas férteis e populosas zonas um grande número de amigos, muitos compadres e dispunha de crescido número de eleitores, que o acompanhavam com verdadeira dedicação e com a certeza de que o Capitão Francisco Fernandes Badaró tinha um amigo capaz de todos os sacrifícios.

Se tinha inimigos no Sequeiro do Espinho, onde residia, eram raríssimos. Mantinha relações com todos os moradores da zona e era muito prestimoso e dedicado àqueles que o serviam, sabendo corresponder com afeto às gentilezas que recebia.

Pertencia ao Partido Democrata, que o tinha em conta de um forte e distinto correligionário, sendo um dos chefes locais de maior destaque e prestígio.

Sua morte inesperada, seu passamento prematuro, abre um claro difícil de preencher nas fileiras do nosso partido, nos lugares que dirigia.

Não era somente um político disciplinado e prestigioso, era também um grande lutador, um destemido que sentia-se melhor quanto mais se desencadeavam as paixões, quanto mais se agitavam os espíritos nas refregas partidárias.

Era invencível e lutava a peito descoberto.

Ninguém o dobrava ou o intimidava pela ameaça, que desprezava, que não suportava, que repelia energicamente.

Não sabia recuar e muitas vezes tornava-se rebelde a conselhos que julgava prejudicarem seu amor próprio.

De sua intransigência tivemos sobejas provas.

De sua lealdade jamais houve quem duvidasse.

Era um bom amigo, excelente correligionário, extremoso pai e esposo, carinhoso filho e dedicado irmão.

Exerceu de 1912 a 1915 o cargo de 1º Suplente de Subdelegado de Putumujú e de 1917 para cá o de Subdelegado do Repartimento, prestando valiosos serviços.

Era irmão dos Srs. Capitão José Joaquim Fernandes Badaró, Domingos Badaró, acadêmico Aristeu Badaró, Antônio, Arnaldo, Astor e Oswaldo Badaró, dd. Alexandrina Badaró, Marcolina Faskomy, casada com o Sr. Elias Faskomy, Edith Badaró, Erothildes Badaró e Dejanira Badaró e sobrinho do Revdmo. Padre Francisco Fernandes Badaró digno vigário de Camamú.

Entre as ricas capelas mortuárias que se achavam na sala, transformada em Câmara Ardente, algumas das quais, foram colocadas sobre o féretro, sendo outras carregadas para o cemitério, notamos as que tinham as seguintes inscrições:

Saudades de sua esposa e filhos; Saudades de sua mãe e irmãos; Saudade eterna de Elias e Menininha; Saudade eterna de sua sogra, cunhada; Expressivo sentir do amigo Misael; Oferta de Hugo Kaufmann & Cia.; Lembrança do compadre Henrique Kruschewsky e família; Saudades de Gabino Kruschewsky e família; Saudade eterna de seu amigo Jovino Monteiro; Lembranças de Juvenal Soares; A titio e padrinho Sinhô, último beijinho de Cabocla.
Bandejas de flores; foram oferecidas diversas pela família Ramos de Lima, Coronel Manoel Misael e família, D. Libuça de Castro, pelo Senador Pessoa e família, Moyses Daneu e família, D. Mariana Lopes de Castro, por Jonas, Manoel Carillo e Dr. Augusto Weyll.

O saimento

Do arrabalde da Pimenta, onde estava provisoriamente residindo o nosso pranteado amigo, saíram os seus despojos em rico caixão, a cujas alças seguravam, após a encomendação feita pelo Revd. Padre Gabriel Toscano, o Senador Antônio Pessoa, o Coronel Luiz Pinto, o Capitão Vicente Olegário, o Capitão Rômulo Silva, e irmãos do extinto, passando depois a ser carregado por outros amigos, que disputavam essa honra, até o cemitério municipal, ao Alto da Ladeira da Vitória, aonde chegou o féretro acompanhado de muitas pessoas da cidade e de grande número de amigos dedicados e parentes do finado, residentes no Rio do Braço, Sequeiro do Espinho e Potumujú, que vieram no trem do horário prestar-lhe essa última homenagem.

Foi muito concorrido o seu enterro, apesar da ausência dos adversários, dois ou três dos quais, apenas, seus amigos particulares, estiveram presentes.

Às Ruas Dr. Araujo Pinho e Almirante Barroso, bem como à Praça Dr. Seabra, mais de 600 pessoas aguardavam a passagem do féretro, descobrindo-se reverentemente; a frente do novo Hospital São José estavam muitas pessoas com o mesmo propósito.

Todas as famílias das Ruas Dr. Sá Oliveira, Santos Dumont e Praça Coronel Pessoa assistiram das janelas de suas casas o desfilar do préstito.

Eram quase 6 horas da tarde de 11, quando foi o corpo inumado, cercado de grande número de amigos e dos dedicados irmãos e cunhados do nosso prezado amigo que tão moço ainda, desapareceu dentre os vivos, causando a sua morte profundo sentimento em todas as camadas sociais.

Lamentando o falecimento prematuro de tão dedicado e prestante amigo, enviamos sentidos pêsames a sua desolada viúva, a seus queridos filhinhos, a sua veneranda mãe, a seus extremosos irmãos, a seus cunhados e demais parentes.