Alfredo Amorim da Silveira em: “10TAQUES”
Edição de 29 de fevereiro de 1944
Um Bandeirante de Ilhéus
Antônio A. Peres
Foi sempre uma figura que viveu em minha lembrança. Hoje, dia do seu aniversário natalício, lembrei-me, em homenagem a sua personalidade de desbravador, de oferecer à sua memória esta crônica. Refiro-me a Gabino Kruschewsky, homem forte que edificou nesta terra um patrimônio, com trabalho e honestidade.
Quando em 1921 cheguei à terra do cacau, numa manhã clara de verão, foi com muita alegria que pisei nas terras de Ilhéus. A minha curiosidade de menino da capital tudo reparava, e achei a cidade bonita. Pequena, porem muito asseiada, as casas do alto da Conquista descendo em procura de Sapetinga, davam-me a impressão do presepe da casa de tia Elpídia. Depois, as casinhas do Pontal à noite, e estendidas à sua frente um rosário de lâmpadas. Nunca mais se apagou de minha lembrança esta paisagem boa.
No outro dia tomávamos o trem com destino ao Rio do Braço. Durante a viagem via se estenderem dos lados do comboio, em movimento, os cacaueiros florescentes deixando pender de seus frutos um verde amarelo tão bonito… Chegávamos ao ponto desejado. Foi ai que tive a felicidade de conhecer o homem de que me ocupo hoje. Meninote ainda, fui instruído na casa comercial do Coronel Gabino, pelo meu velho tio, naquela ocasião o gerente de importante estabelecimento. Gostei muito do trabalho, achei tudo interessante, os trabalhadores, as suas conversas que sempre redundavam nas festas da farinha aos sábados à noite, também a figura alegre do velho Dantas, que sempre trazia ao lado um tabuleiro com bolos de puba, cobertos com uma limpa toalha de algodão cuidadosamente passada a ferro. Todas as tardes eu tinha o cuidado de tirar da gaveta dos vales, um vale de 20 centavos para compra do saboroso bolo. No comércio, os vales da Fazenda circulavam como se fossem dinheiro, pois muita gente dizia que no dia de remir esses vales não havia dificuldade para receber as importâncias respectivas.
Deixemos isso à parte e voltemos a falar de Gabino Kruschewsky. Era ele um homem de boa altura, tinha uma cor morena queimada, um perfil bastante simpático. Quase sempre trajava-se de brim ou linho pardo, sapatos amarelos, por sinal sempre muito limpos. Sua voz tinha qualquer coisa de autoritário, mas quem tivesse oportunidade de ouvir uma de suas palestras, ficava gostando dele.
Nos seus primeiros tempos de trabalho enfrentou as maiores dificuldades, porem, mais tarde viu os frutos do seu labor se multiplicarem.
Rio do Braço, neste meu tempo, era uma praça bem movimentada. Ele era uma espécie de líder político da localidade, tudo estava ligado ao seu nome e esse nome infundia sempre respeito, pelas suas atitudes de homem honesto e leal. Hoje, 29 de fevereiro, se ele fosse vivo, festejaria mais um aniversário natalício. Há esta hora, creio que muitas pessoas se lembram do seu nome, dirigindo a Deus uma prece por sua alma.
Itajuipe tem, em uma de suas praças, o nome do ilustre filho de Ilhéus e nada mais justo que esta homenagem, pois entre os que edificaram o patrimônio econômico de Ilhéus, surge a figura impressionante do pioneiro Gabino Kruschewsky.
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D. T. 29.02.1944 n.º 4712 2ª pg.
Pesquisa de Alfredo Amorim da Silveira.



























































Vovô Gabino, Gabino Públio Kruschewsky, paradigma maior, referência ad eternum da família Kruschewsky. Eu nasci em 1945, ele faleceu em 1925, porém o acendrado amor que o meu pai, Gabino Kruschewsky Filho,tinha por seu pai, foi a mim, e aos meus irmãos repassados, diuturnamente. Ele, GKF, nos contou toda a vida de GPK, e, ao nos relatar o palmilhar do meu avô, ele, meu pai, inoculava em seus nove filhos todo o incomensurável amor que por ele nutria. Aliado a isso, os elogios que mamãe fazia à pessoa do seu sogro, aumentava ainda mais a nossa legítima admiração ao nosso avô paterno. Homem de bem, íntegro,apaixonado pela sua mulher, vovó Dadi, permaneceu solteiro (viúvo aos 36 anos)após a sua morte. Partiu aos 53 anos, legando aos seus descendentes o seu exemplo de dignidade, de desassombro perante as vicissitudes da vida, a diuturna solidariedade aos menos favorecidos.
Onde estiver, vovô Gabino, peço a sua bênção!