Transcrito do jornal “Diário da Tarde”
Edição de 29 de janeiro de 1943
São Jorge – O Grande Mártir – O Santo da Vitória

D. Felipe Condurú Pacheco.

Do volume “Physionomias dos Santos”, de Erneste Helle, acabo de ler o capítulo relativo à São Jorge. Procuro resumi-lo, fazendo ressaltar especialmente o heroísmo do piedoso biografado.

“Eis aqui um dos Santos mais ilustre e mais esquecido. Ilustre outrora, esquecido hoje. Os gregos denominavam-no – o Grande Mártir; todo o Oriente tem retumbado com seus louvores. Uma celebridade que ia até a popularidade apontava São Jorge como o Padroeiro dos heróis”. (pág. 129).

São Jorge nasceu em Nicomédia, cidade da Bitínia, na Ásia Menor, no ano de 280, de pais cristãos, e foi educado por sua própria mãe. Órfão de pai, – mártir da fé – mudou-se com sua mãe para a Palestina, onde, aos dezessete anos, abraçou a vida militar.

“Estreou pelo heroísmo natural, para chegar ao heroísmo sobrenatural”. Essa a nota característica de toda a sua vida.

Todos os artistas o representam na atitude heróica de esmagar o Dragão. Nos arredores de Beyrouth (Síria) “enorme dragão habitava o lago, cujas águas e margens infestava”, precipitando-se sobre animais e homens.

Resolveram os moradores da cidade entregar-lhe duas ovelhas por dia, a fim de serem poupados os demais viventes. Iam-se esgotando as ovelhas, quando um oráculo pagão fez saber que a fera exigia vítimas humanas, sorteando-se uma cotidianamente. “O sacrifício humano é a paixão do inferno. O sacrifício é um ato de adoração. E, como o Demônio tem fome e sede da carne e do sangue do homem. Aos povos grosseiros pede o sacrifício sob forma grosseira.

Aos povos refinados pede o sacrifício sob forma refinada. Mas, sempre o sacrifício humano. Quer o sangue. Quer as lagrimas, que o Santo Agostinho denomina sangue do coração”. (pág. 131).

Um dia a sorte designou para o sacrifício a jovem e bela Margarida, filha do Rei de Beyrouth. O Rei negava a filha; mas, teve de ceder diante da revolta popular.

Adereçaram a princesa com suas vestes festivas e levaram-na à sanha do monstro. A vida lhe esplendia com todos os brilhos. Havia de a imolar, entretanto, para que fossem poupados os seus concidadãos.

Borbulha já a água do estagno e vai surgir a fera. Apresenta-se neste instante, em seu corcel um bravo militar. É S. Jorge. Encomenda-se a Deus precipitando-se sobre o dragão e o atravessa com sua lança, prostando-o aos pés da tímida donzela. O povo em derredor explode em gritos de alegria e gratidão.

Em Roma, Diocleciano, o Imperador pagão, a quem Jorge prestava obediência, não pode tolerar a popularidade do brioso militar e o seu fervor cristão. Manda lança-lo na prisão.

Começa, então, o atroz martírio. Açoites, pedradas, roda armada de pontas de aço, fogueiras, calçados de ferro aquecidos ao rubro… mil tormentos suporta o moço Jorge, de onde a sua antonomásia de – o Grande Mártir. Decapitado, em fim, recebe no Céu a coroa da vitória.

Diz a tradição que o Santo apareceu “antes da batalha de Antioquia, ao exército dos “cruzados”, como também a Ricardo I da Inglaterra, no cerco de Ácra, em 1191. Em ambos os combates desbaratou os sarracenos, inimigos de Jesus Cristo. Daí a devoção para com São Jorge, mormente no Oriente e na Inglaterra. Entre esses povos – igrejas, ordens militares e cidades se lhe consagraram.

Verdadeiro, conforme uns, ou apenas simbólico, como querem outros – o fato da luta e conseqüente aniquilamento do dragão deu lugar à segunda alcunha conferida ao nosso Padroeiro – O Santo da Vitória. Por isso mesmo, tomaram-no por – Patrono dos Heróis.

É este o momento exato em que devemos invocar S. Jorge. Almejamos fazer dos brasileiros – legítimos heróis, senhores da vitória – Dirijamo-nos confiantes a São Jorge!

Entretanto, a nossa alma é essa jovem, que o monstro do paganismo quer arrastar constante aos seus costumes vis. Supliquemos ao herói cristão, que nos ajude a vencer o mal, triunfando em nossos corações as virtudes de Jesus.