Dom Mauro Montagnoli / Bispo Diocesano de Ilhéus

O tentador diz a Jesus depois de quarenta dias de jejum, “Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3). Jesus repele a tentação. Ceder significaria mudar a finalidade da natureza em benefício próprio. Vemos hoje como o rolo compressor do capitalismo transforma em mercadoria tudo, tanto a matéria como também os seres vivos, até o ser humano. Não há qualquer tipo de consideração de cunho afetivo e espiritual. O capitalismo quer ser objetivo. A natureza não pode ser toda transformada para servir ao nosso consumo e ao lucro, sem outras considerações. O “pão” simboliza os bens materiais de toda espécie. O discipulo de Jesus deve ver aí um forte convite para resistir à tentação de transformar tudo em objeto de consumo, porque “não se vive somente de pães, mas de toda plavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).

Outro problema bem visível em nosso tempo é o desejo de transformar o próprio Deus em um mágico protetor que garante a prosperidade de seus devotos. É a segunda das tentações de Jesus. “Então o diabo o levou à Cidade Santa, e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: Se és filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra” (Mt 4,5-6). A tentação de usar Deus em benefício próprio é muito entranha na religiosidade de nosso povo e está muito difundida no contexto de nossa sociedade consumista. Em vez de servir a Deus, com tudo o que isso implica, muita gente quer que Deus esteja ao seu serviço para satisfazer desejos e ambições individuais. Usa-se o nome de Deus até para pedir coisas que o próprio Deus, certamente, não aprova. Há uma busca desenfreada de sucesso em tudo, mesmo quando esse “tudo” desrespeita o direito do outro ou quer justificar fontes de lucro que agridem o planeta. Mas Jesus adverte: “Não porás à prova o Senhor teu Deus” (Mt 4,7).

A última tentação resume bem o perigo que CF 2011 está querendo denunciar: “O diabo o levou ainda para uma montanha. Mostrou lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar” (Mt 4,8). Diante dessa tentação deve-se lembrar que Deus, ao dar ao ser humano o poder de dominar, estabelece limites ao senhorio humano sobre a terra. E, quando este limite ao senhorio humano é infringido, acontece a degradação da vida como expressa o profeta dizendo, “o país está abatido e seus cidadãos estão murchos. Os animais silvestres, as aves do céu e até os peixes do mar estão desaparecendo” (Os 4,3). Em outra passagem se fala das consequências do rompimento da aliança com Deus, “a terra flcará mesmo vazía, saqueada de ponta a ponta… o mundo definha… A terra foi poluída sob os pés dos moradores, pois passaram por cima das leis” (Is 24,3-5). São Paulo dá um veredito que resume o sofrimento da criação pelas atitudes do ser humano ao deixar levar pela tentação acima, “a criação foi sujeita ao que é vão e ilusório por dependência daquele que a sujeitou” (Rm 8,20). Por isso, “a criação geme em dores de parto” (Rm 8,22). A resposta de Jesus é veemente e muito clara: “Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto” (Mt 4,11).


Dom Mauro Montagnoli
Bispo Diocesano de Ilhéus