As tentações de Jesus
Outro problema bem visível em nosso tempo é o desejo de transformar o próprio Deus em um mágico protetor que garante a prosperidade de seus devotos. É a segunda das tentações de Jesus. “Então o diabo o levou à Cidade Santa, e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: Se és filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra” (Mt 4,5-6). A tentação de usar Deus em benefício próprio é muito entranha na religiosidade de nosso povo e está muito difundida no contexto de nossa sociedade consumista. Em vez de servir a Deus, com tudo o que isso implica, muita gente quer que Deus esteja ao seu serviço para satisfazer desejos e ambições individuais. Usa-se o nome de Deus até para pedir coisas que o próprio Deus, certamente, não aprova. Há uma busca desenfreada de sucesso em tudo, mesmo quando esse “tudo” desrespeita o direito do outro ou quer justificar fontes de lucro que agridem o planeta. Mas Jesus adverte: “Não porás à prova o Senhor teu Deus” (Mt 4,7).
A última tentação resume bem o perigo que CF 2011 está querendo denunciar: “O diabo o levou ainda para uma montanha. Mostrou lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar” (Mt 4,8). Diante dessa tentação deve-se lembrar que Deus, ao dar ao ser humano o poder de dominar, estabelece limites ao senhorio humano sobre a terra. E, quando este limite ao senhorio humano é infringido, acontece a degradação da vida como expressa o profeta dizendo, “o país está abatido e seus cidadãos estão murchos. Os animais silvestres, as aves do céu e até os peixes do mar estão desaparecendo” (Os 4,3). Em outra passagem se fala das consequências do rompimento da aliança com Deus, “a terra flcará mesmo vazía, saqueada de ponta a ponta… o mundo definha… A terra foi poluída sob os pés dos moradores, pois passaram por cima das leis” (Is 24,3-5). São Paulo dá um veredito que resume o sofrimento da criação pelas atitudes do ser humano ao deixar levar pela tentação acima, “a criação foi sujeita ao que é vão e ilusório por dependência daquele que a sujeitou” (Rm 8,20). Por isso, “a criação geme em dores de parto” (Rm 8,22). A resposta de Jesus é veemente e muito clara: “Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto” (Mt 4,11).
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Dom Mauro Montagnoli
Bispo Diocesano de Ilhéus



























































