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O Homem que odiava ladrões que eu conheci.

Eu sou um estruturalista convicto, reconheço. Invariavelmente tudo que escrevo está impregnado pela busca incessante dos elementos sensoriais e abstratos, da alma, das emoções. Isso para muitos, são artifícios corriqueiros; posto que, não obstante o já predominante pós-modernismo e neofóbico anti-moralismo, ainda assim, insistem no infectar com permissivas concessões e duvidosas premissas a moral, enquanto banalizam a ética como supérflua.

Ainda sou daqueles que acreditam que para impactar o indivíduo humano, rudimentarmente, é necessário confrontar sua moral e sexualidade, pondo-as em dúvida e/ou através críticas ditas com fibulação. Isto porque não acredito na sobrevivência do homem imoral, mesmo nos nossos dias. Não acredito que exista alguém inconstrangível, quando confrontado pelos próprios deslizes e “fraquezas”. A retórica não consegue incutir togas vestais ao próprio cinismo do seu personagem. Ele desaba ante a catarse dos “malfeitos” que o cinismo não consegue disfarçar o mau cheiro que exalam. Um discurso post-mortem ante o túmulo da moral.

Ainda acredito firmemente que os elementos estruturais da personalidade humana, onde se inserem a honradez da moral e seus constituintes éticos, não cessam ou prescrevem sua importância nem após a morte de quem se investiu deles. A honradez moral é transcendental a vida; embora isto soe tolo para alguns nos dias atuais. A expertise pressupõe o engodo sobre a ética.

Eu conheci de perto e vivi à época do “velho senhor que odiava os ladrões”. São imagens indeléveis da minha pré-adolescência. Desconfio que elas tenham influído muito na construção do meu caráter e personalidade, não sei. Em nossas vidas haverão de interagir sempre, o empirismo da experiência nas relações familiares e a propedêutica da educação formal. Acredito, são mesclas inevitáveis nos conceitos sociológicos para a formação do caráter que se constituirá no jovem homem.

Aquele homem grande, veio do Sul com o seu clã; veio de uma região de onde eu, coincidentemente, também vivi a infância. Clima frio, terras caras, agricultura e pecuária difíceis à época; disputas fundiárias; brigas e mortes entre irmãos; conflitos étnicos entre europeus e arábicos. Choque de culturas; intolerância. Um contra censo num país como o Brasil.

Emigramos para o Sul da Bahia, que recebeu-nos com muitas chuvas e dias brumosos de entardeceres precoces sob névoas teimosas que prenunciam a noite e ignoram o dia. Terras férteis, com bons preços de compra e muitas matas a serem derribadas para dar lugar à cultura do cacau e àquelas para a subsistência familiar, como o feijão, o arroz, a mandioca e um gadinho. Foi nesse ambiente rural duma cidade efervescente de novos-ricos, que o “velho senhor que odiava os ladrões” tornou-se um próspero agricultor. Armado de muita disposição para o trabalho, um 38 à cintura, uma família de cinco filhos, uma esposa dedicada e ele, um destacado cidadão exemplar que detestava ladrões. Uma “excentricidade” que ninguém arriscava questionar.

Foi assim que numa chuvosa manhã de abril ele recebeu a visita de um Juiz em sua bela casa situada na principal Rua da sua cidade, e que tinha nome do jurista da nossa história o Rui. Nessa visita; cerimoniosa e cordialmente, ele foi solicitado encarecidamente pelo meritíssimo juiz, a ocupar o cargo de delegado de polícia da cidade, mercê da sua conduta honrada, princípios morais rígidos e muita coragem e resolução em todas as suas atitudes. Ele estava sendo instado ao preenchimento da vaga deixada pelo delegado recém assassinado numa emboscada lá pras bandas da Barra da Fartura. A cidade necessitava um delegado resoluto e corajoso. Ele era o homem indicado para isso.

Resumindo um pouco: O homem que odiava os ladrões tomou posse no cargo de Delegado e, superou todas as expectativas a si atribuídas. Não só limpou a cidade dos ladrões, desordeiros e criminosos residentes; quanto àqueles que faziam conexão na cidade para chegar a outras onde atuariam criminosamente.

Cuidava da sua família; dos seus negócios na fazenda e na cidade, não poupava tempo nas funções de delegado de polícia, que exercia com imparcialidade e esmero.

Más numa certa noite de inverno, enquanto o homem que odiava os ladrões dormia tranquilo em sua residência; um perigoso assassino de aluguel, um serial killer, escapou da prisão durante a noite, sem maiores problemas. Ao tomar conhecimento do fato, o homem virou um leão. Furioso pela fuga de perigoso marginal; possivelmente auxiliado na fuga pelo próprio carcereiro e policial de plantão; o homem quebrou os dois policiais na porrada, e determinou que a partir daquele dia, a chave da carceragem ficaria com ele, mesmo à noite quando estivesse ausente da delegacia. Que as ocorrências com prisões efetuadas à noite, os elementos detidos ficariam algemados ao poste de iluminação que fica em frente à delegacia ate à sua chegada de manhã à repartição policial, quando aí lavraria os B. Os. e faria as oitivas dos detidos, encarcerando-os em seguida, quando necessário.

Em pouquíssimo tempo, a cidade já sabia que assassinos; arrombadores de residências; descuidistas; ladrões de galinhas; desordeiros e homens que gostavam de bater em mulheres, quando detidos à noite, ficavam empencados pelas algemas ao poste da porta da delegacia ate manhã do dia seguinte.
Em pouco tempo, a população ficou sabendo da mudança. Aí começou as festas oferecidas aos detidos, empencados, com farta distribuição de tabefes. As vítimas de roubos; de violências físicas; dos vândalos e dos desordeiros, compareciam pontualmente na madrugada à porta da delegacia, munidos de tábuas, chicotes, cabos de vassouras e porretes e faziam a festa. Desciam o cacete nos seus algozes de horas atrás! Malhava-nos como aos Judas dos Sábados de Aleluia. Eram sovas homéricas assistidas por platéia que já sabia dessa ritualística modelo talião.
Quando o Homem que Odiava Ladrões chegava à delegacia pontualmente às sete horas da manhã, já encontrava os detidos visivelmente “justiçados” pelas homéricas surras aplicadas à noite anterior pelos seus desafetos, as vítimas. Aí, ante aqueles que praticaram delitos menores e que ali se encontravam diante da autoridade policial; todos devida e minuciosamente “malhados”; dispensava-os de maiores procedimentos jurídicos ou criminais; indultando-os pelo “simples” atenuante da surra que lhe fora aplicada. Sem maiores expedientes, mandava-os ao hospital para breves curativos. Estavam livres para reincidirem, se achassem que agüentariam uma nova surra das vítimas e eventuais convidados. Aquele cujos delitos eram mais graves, iam como estavam, para o xilindró.
Enquanto o homem que Odiava os Ladrões esteve delegado; a cidade foi pacata, ordeira e feliz.
Na minha curiosidade de criança, arrisquei um dia perguntar-lhe: “_ Porque o senhor odeia tanto os ladrões?”. No que ele pacientemente me respondeu:
_ Para o assassino existem atenuantes diversos: Perda da razão; defesa da honra; legítima defesa própria ou de terceiros; vingança imediata ou tardia por uma ofensa grave, perda momentânea da razão e equilíbrio emocional etc. Quanto ao ladrão; para este não existem atenuantes: São cínicos, imorais, preguiçosos, cobiçosos, latrocidas, especializam-se em roubar, são reincidentes mesmo após longas penas. Esses são muito piores que aqueles matam, pois mesmo rudimentarmente, não possuem um resquício sequer de caráter.
Ele segurou cuidadosamente as minhas mãos e disse com voz muito profunda: “Esses, se me fosse permitido; eu lhes cortaria a mão direita e o pé esquerdo.”

Eu nunca esqueci as palavras desse senhor que odiava os ladrões. Hoje, já com meus 55 anos de idade, fico imaginando, se ainda estivesse entre nós, como viveria na atualidade esse HOMEM que odiava ladrões?
Melhor nem pensar. Eles venceram!


Por Mehmed. 15/03/2011 18:46:34

2 respostas para “O Homem que odiava ladrões que eu conheci.”

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