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Música baiana, em estado de imbecilidade

Vanderley Soares

Quando alguém pronuncia a palavra analfabetismo na Bahia, e se essa declaração parte de um acadêmico, branco ou da elite, parece tratar-se de racismo, discriminação e ódio.

Quando dizem que o som do berimbau é simplório e que qualquer um pode reproduzi-lo sem maiores conhecimentos instrumentais, por possuir apenas uma corda, logo diriam: é mais um que odeia as raízes baianas, suas influências e sua cultura. Isso já ocorreu na Bahia e deu muito pano pra manga.

E quando dizem que a música baiana está cada dia pior e que o pagode não passa de mais um sonoro palavrão multiplicado por milhares de incautos, ignaros e estúpidos, certamente repetiriam: trata-se de mais um a ver-nos como sub-raça, desinformados e inconformados.

Pois é. E quando essa declaração parte de um pardo, de origem negra e indígena, e que cursou apenas o segundo grau? Aí, certamente dirão, trata-se de um oportunista, um comunicador frustrado ou de alguém que não conseguiu galgar os seus objetivos.

Pois bem. Esse rodeio, meio despretensioso, mas importante, é para falar do grau de imbecilidade a que chegou a música baiana, principalmente ao pagode aqui produzido e consumido. Não falo do Axé, que apesar da mesmice, não usa palavrões nem ridiculariza a Bahia como Estado analfabeto.

Como estudei numa das escolas mais influentes da Bahia, principalmente nos anos 50 e 60, o Colégio Central, participei da coletânea poética em homenagem ao sesquicentenário da instituição, fiz teatro e poesia nas ruas de Salvador, pronunciar algumas palavras (ões) e gestos obscenos da música baiana é assinar embaixo aos que dizem da Bahia, no Brasil afora, a de que é um povo mal educado e que só gosta de balançar o bundalelê.

E, vendo de perto, em algumas coberturas jornalísticas Bahia adentro, chego a interrogar-me quanto às minhas origens. Chego a duvidar que tivemos em nosso berço um Raul Seixas, um Castro Alves, um Wally Salomão, um Jorge Amado – que, mesmo produzindo alguns palavrões, nunca foi um turpilóquio, e tantos outros que enalteceram e alguns que ainda enaltecem e fazem lembrar que tínhamos uma cultura.

Mas, quando vou ao Campo Grande e ouço Caetano Veloso dizer que Xanddy é lindo e que ele é uma das novas expressões culturais da Bahia, chego a duvidar que sou baiano de verdade, daquele que comeu tripa seca e farinha de rosca pra não morrer de fome. E acho Caetano uma das maiores expressões da música mundial, apesar de requentar, vez ou outra, alguma música que no passado foi considerada brega.

Aí me conformo e vou ouvir um pouco de Xangai, onde, entre as suas pérolas, fez o ABC do preguiçoso, que endossa a tese dos sulistas de que o baiano só é gente até o meio-dia. E então, o que será o baiano durante a tarde? É uma legião de trabalhadores, cujo estigma de preguiçoso foi amplamente difundido pelos meios turísticos, uma forma de falar da tranquilidade, da “maresia” e do sossego baiano.

O saudosismo aflora e me remete à década de 1980. Lá, até 1985, os shows em Salvador, no projeto verão, no Centro de Convenções da Bahia, eram bastante disputados. No palco, Gil, Caetano, Milton, Beto Guedes, Barão Vermelho e tantos outros que arrastavam multidões. Na Barra, shows com Moraes Moreira, Luiz Caldas e Armandinho com A Cor do Som encantavam e lotavam a praia.

Retorno ao meu trabalho de coberturas de eventos com música baiana e lá, estampada em minha frente, uma multidão de 20, 30 mil pessoas numa avenida. As meninas, os meninos, dançam como se tivessem sido libertados naquele instante. Mais parece um balé de zumbis, daquele extraído dos filmes de terror das décadas de 70 e 80. Ou então em um orgasmo coletivo, algo do tipo promovido César ou qualquer outro Calígula da nossa imaginação.

Em uníssono, eles repetem as frases, os refrões e fazem todo o gestual obsceno para completar o enredo empobrecedor. O vocalista da banda grita, berra e pede para que todos ecoem aos quatros cantos: “Aponte o corno aí, diga que é corno”. E todos riem, como num circo, mas deveriam chorar ao debruçar a cabeça no travesseiro.

A grande maioria desempregada, deseducada e pobre. Desiludida pela face cruel do ensino que lhes oferecem nas escolas públicas, entregam-se aos bailes horrendos como se fossem a última ópera da vida deles. E se entregam de corpo e alma à missão.

Os maiores patrocinadores da música baiana no interior são as prefeituras, que gastam somas vultosas em festas, micaretas, aniversários e inaugurações, contratando bandas que em nada enriquecem a cultura popular, em detrimento do folclore, das raízes de cada cidade e de sua história. E lá se vão tubos e mais tubos de dinheiro público pelo ralo.

E voltam para casa sem saber um verso de Vinícius de Morais, sem ter-se envaidecido em ser brasileiro ao ouvir Pixinguinha, em ter-se delirado com os versos não menos preguiçosos de Dorival Caymmi, em ter-se deleitado à sonoridade de Bethânia e Gal, ou ter-se maravilhado ao som poético de Gilberto Gil. “Esses moços, pobres moços, a se soubessem o que eu sei”, disse Lupicínio Rodrigues em uma de suas canções imortalizada na voz de Gilberto Gil.

E aí vão me perguntar o que tenho feito para mudar o que já está construído. Nada. Sinto-me impotente. Apesar de radialista de profissão, jornalista por paixão, não consigo convencer ninguém do contrário. A música baiana vai continuar tocando assim durante muito tempo. Mas um dia acaba. Lutar contra o mercado é muito difícil. É uma máquina de fazer dinheiro a qualquer custo. E ninguém está preocupado com a educação, com a cultura, com o folclore. A mídia baiana enaltece, enobrece, escancara esses palavrórios como deuses. Até que duas meninas aparecem decapitadas numa esquina qualquer. De quem é a culpa?

*Vanderley Soares é radialista e jornalista, editor do Jornal Gazeta dos Municípios/Alagoinhas-Bahia

No Teia de Notícias

17 respostas para “Música baiana, em estado de imbecilidade”

  • Rodrigo says:

    Isso é preconceito !
    No RJ existe o Funk, em SP e no RS as Raves… sons polêmicos e festas inconsequentes muitas vezes, porém faz parte de uma nova geração e respeito que gostem e frequentem.
    Ninguem força você a ouvir uma musica que não queira, a emrpegada lá de casa gosta de Roupa Nova, eu de Rock e minha mãe de Roberto Carlos e dai… viva o multipluralismo e a liberdade de expressão… quem não gosta de carnaval, durante a epoca do mesmo viaja, vai para a fazenda, casa de parente, casa de praia… quem gosta, curte, aproveita e se diverte !
    Que a Bahia continue a vender e viver o nosso Axê, musicas alegres, divertidas e que demonstram a alegria contagiante do baiano e de sua vontade de viver com alegria apesar de muitos terem a vida sofrida no seu dia à dia…
    Gosto igual a “nariz” cada um tem o seu e temos que respeitar !

  • Gilvania says:

    Caro amigo,

    Parabenizo você pelo belo texto.

    “E aí vão me perguntar o que tenho feito para mudar o que já está construído. Nada. Sinto-me impotente”

    Aí que você se engana, logico que a sua parte já está sendo feita, eu mãe, mulher, cidadã, posso te garantir que você já me fez refletir nesse momento sobre o assunto. E isso, caro amigo, é bom começo.

    Um abraço,

    Gilvania

  • Nilson Pessoa says:

    Observe atentamente o sujeito que chega e estaciona o carro pertinho de você, seja na praia ou num boteco, abre o porta-malas entupido de alto-falantes e tuítas de todos os tamanhos e modalidades, pronto pra ligar aquele “som” e você que se dane, vai ser obrigado a compartilhar com o estúpido mal educado a “música” que ele gosta, no volume máximo. Adivinhe o que ele vai ouvir? Não, amigo, não é Rock’n’Roll, nem MPB, nem Jazz, nem Blues. Saia correndo, pois vem porcaria por aí…

  • Ray says:

    É triste mais é a mais pura verdade, sou baiana e tenho vergonha quando ouço essas músicas, a letra não tem mais para onde descer, já chegou ao fundo poço e tá charfurdando na lama.

  • Jorge Luiz Araújo dos Anjos says:

    Gostar de música com letras cheias de asneiras, não é exclusividade dos baianos, esse gosto pelo que não presta também ocorre em outros Estados e também em diversos países.

    Acredito que para “algumas” pessoas, as letras estão de acordo com a capacidade de raciocinio, e o balanço delas com o ritmo, é diretamente proporcional a quantidade de alcool ou outas drogas, contidas na grande variedade de cerebros dos admiradores de tais obras de arte. Claro que, quem tem ouvido ouve o que quer, porém o respeito a quem não gosta deve ser obedecido.

    Parabéns ao autor do texto em discussão, as verdade contidas nele, refletem a pura realidade, negar isso seria querer tapar o sol com a peneira.

    Todos possuem direito em gostar do que não presta, mas precisam compreender que existe o outro lado, e esse precisa também ser respeitado.

  • ANNE PACHECO says:

    Felizmente essas imbecilidades têm vida curta. Mas durante o período em que estão fazendo sucesso, é uma verdadeira indigestão sonora! Sinto náuseas
    quando penso que algum ‘intelectual’ já esteja preparando mais uma devastadora ‘tsunami musical’.

  • Junior says:

    Olá Vanderley!
    Gostaria de parabenizá-lo pela matéria, e que seja dito de passagem, muito íntegra, fiel e esclarecedora; utópica? Talvez, mas de uma verdade absoluta e confluente. Toda essa sua observação pertinente a a poucos – no momento – espero, ainda chegará a muitos com toda certeza e afinco como expressara e vislumbrara – acredito. Corroborando sua afirmação e “contrariando” seu ponto de vista de maneira prazerosa esperançosa, vos direi. Em Salvador, mais precisamente em 07 de outubro no projeto Origem da terra e 04 de dezembro no X Mercado Cultural da Bahia, tive a honra e prazer de assistir uma orquestra tocando pagode! Isso mesmo! Pagode! Se chama “SANBONE PAGODE ORQUESTRA”, fiquei muito surpreso, preflexo, entusiasmado, petrificado, pasmo, eufórico!!!!! Nunca imaginei essa comunhão entre o pagode e a música erudtida.
    Abaixo deixo links para que possas contemplar essa preciosidade.
    Parabéns mais uma vez e, a luta continua…

    http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-3/artigo/sanbone-conheca-a-suingueira-de-hugo-san-e-sua-inusitada-orquestra-de-pagode/

  • Antonio Góes says:

    Brilhante comentário. Concordo plenamente com o Vanderley. Sou professor e vejo no meu dia a dia desses anos de ensino uma decadência profunda na cultura dos nossos jovens. Parece existir uma política pública de imbecilização do povo para que este sirva de massa de manobra para os no$$o$ “honrado$” político$. Somente aos políticos interessa o aculturamento do povo (panis et circencis).

  • EDUARDO SERGIO SANTIAGO DE QUEIROZ says:

    Este texto atribuído ao Sr. Vanderley Soares Intitulado: “Musica baiana, em estado de imbecilidade”; e no texto o Senhor toma como foco da musicalidade e da degradação musical, àquilo que o mercado fonográfico resolveu batizar por pagode – O senhor vai mais além:
    “Quando alguém pronuncia a palavra analfabetismo na Bahia, e se essa declaração parte de um acadêmico, branco ou da elite, parece tratar-se de racismo, discriminação e ódio.
    Quando dizem que o som do berimbau é simplório, e que qualquer um pode reproduzi-lo sem maiores conhecimentos instrumentais, por possuir apenas uma corda, logo diriam, é mais um que odeia as raízes baianas, suas influências e sua cultura. Isso já ocorreu na Bahia e deu muito pano pra manga.”
    De imediato, não sei se por algum trauma contido ou algo parecido, o senhor liberta um grito contra descendentes de africanos que vencidos de guerra, vieram na condição de escravos para a construção deste país. Falo isto porque o senhor desconsidera o racismo sofrido pelos descendentes dos povos originários destas terras, e até mesmo, o que representou para a formação da nossa sociedade o movimento eugenista brasileiro – que, aliás, dá suporte a parte do discurso que o senhor utiliza e que foi muito bem defendido há pouco tempo pelo prof. Natalino Dantas na UFBA.
    Agora sim, falo que esta intervenção sobre o BERIMBAU é racista e preconceituosa! E falo abertamente primeiro dado ao grau de ignorância que tanto o senhor quanto o prof. Natalino da UFBA manifestaram e fizeram questão de levar em frente sobre este instrumento – Gente, o som do BERIMBAU NÃO VEM DA CORDA! É o dobrão ou qualquer outro recurso que você possa substituir para fazer o som exigido pelo momento, conforme a dinâmica da vida, e não reproduzido no momento; e mais, tem que saber usar a cabaça junto ao corpo. Não foi por menos que mestres como Walter Smetack e Hermeto Pascoal fizeram questão de usá-lo – Lembra de Gil em Domingo no Parque?
    “E quando dizem que a música baiana está cada dia pior, e que o pagode não passa de mais um sonoro palavrão multiplicado por milhares de incautos, ignaros e estúpidos, certamente repetiriam, trata-se de mais um a ver-nos como sub raça, desinformados e inconformados.
    Pois é. E quando essa declaração parte de um pardo, de origem negra e indígena, e que cursou apenas o segundo grau? Aí, certamente dirão, trata-se de um oportunista, um comunicador frustrado ou de alguém que não conseguiu galgar os seus objetivos.”

    Toda Escola de Samba tem uma ala de Baianas em homenagem a baianas como Tia Ciata e Bebiana, que foram expulsas da Bahia e no Rio de Janeiro com o pagode em suas casas construíram a “pequena África” que dá origem ao samba carioca.
    Quero dizer que um PAGODE não é isso que o senhor e o mercado fonográfico querem que acreditemos que seja! Preciso deixar claro que não estou nem um pouco me importando se o senhor é pardo, índio, ou seja, lá onde o senhor queira se encontrar; para mim, o pior é a pessoa não se achar em termos de identidade. Isso preocupa por conta de ser àquilo que Marcus Garvey chamou de árvore sem raiz. Mas neste momento, quero trazer uma professora que nos deixou recentemente; Kátia Mattoso e seu livro, Ser Escravo no Brasil:
    Dizem-se crioulos os escravos nascidos no Brasil e que logicamente, falam realmente o português. Em geral, foram criados na família do senhor e são fortemente marcados pela sociedade dos brancos. Para eles os problemas de adaptação serão muito sérios, pois cedo sentem a necessidade serem melhor assimilados pelo conjunto da sociedade. Nessa sociedade escravista existe uma certa mobilidade que permite passar da condição de mão-de-obra à artesão de talento ou de domestico, por exemplo, que proporciona também a esperança de uma alforria, se os valores ocidentais forem aceitos e renegada a herança africana. De fato, o forro é sempre relançado pelos brancos à comunidade dos negros; esta comunidade negra está sempre a receber novos membros vindos da África e não está necessariamente disposta a repelir a herança cultural dos ancestrais para aceitar a dos brancos. Daí as tensões que agitam continuamente o grupo escravo, retesado entre seus crioulos e seus africanos: o crioulo é objeto de contradições irredutíveis entre brancos e negros, é o que tem maiores dificuldades de assumir sua individualidade, pois os poderosos esperam muito mais do escravo crioulo que do africano, e não lhe perdoam coisa alguma.
    Estou aqui para fazer uma defesa que se faz necessária, diante dos constantes ataques a quem está em situação de retaguarda, tentando entender o porquê disso tudo? O senhor textualiza: “Não falo do Axé, que apesar da mesmice, não usa palavrões nem ridiculariza a Bahia como Estado analfabeto.” Mais uma vez, quero lembrar que é leviano usar o mercado fonográfico e suas relações de poder e consumo como referencia das instituições de ancestralidade dos descendentes de africanos aqui escravizados.
    O Axé é um patrimônio imaterial do nosso povo! Ele é quem dar substância e sentido as nossas ligações e religações com ancestrais – É o nosso “devir”.
    Outra coisa que me chama atenção no seu texto é a constante associação de cultura com formação escolar e /ou grau de escolaridade; suas idéias, ainda que ou talvez, involuntariamente, são muito próximas de Cesare Lombroso – o curioso é que você vai buscar referência em Castro Alves, o poeta branco que se compadeceu com a dor dos escravos… E “esquece” de Luiz Gonzaga Pinto da Gama; o senhor continua em suas referencias e cita Jorge Amado, aquele que a mulher negra não passava da cozinha ou de um aperitivo como “cravo e canela”, sempre lasciva e insaciável. Neste momento, começo a entender as razões pelas quais são personalidades que para o senhor, fazem lembrar que aqui tinha àquilo que o senhor chama de cultura.
    Eu não vejo motivo para tomar como surpresa um Caetano Veloso que escreveu: NÃO ENCHE, um texto que não está longe de TAPA NA CARA, e as coisas do gênero que têm surgido! O tempo histórico é única distância que existe entre O Teu cabelo não nega de Lamartine Babo e os irmãos Valença e a música: Meu cabelo duro é assim, cantada por Chiclete com Banana; em termos de olhar para a mulher negra.
    Não se pode desconsiderar que este país saiu da ditadura Vargas e entrou na ditadura militar – e vale lembrar que para os pretos a ditadura continua! Ou você ainda não leu o livro CIDADE PARTIDA de Zuenir Ventura? Aliás, pelo visto você também não conhece o livro Comando Vermelho: A História Secreta do Crime Organizado de Carlos Amorim.
    Nessa confusão toda, há espaço para pincelar sobre a coisa de uma música ser brega ou rotulada como tal pela mídia! Núbia Lafayette, que não fazia “a cara da jovem guarda”, possivelmente exausta de ouvir o clássico: AI, QUE SAUDADES DA AMELIA, do intelectual, artista, comunista etc. Mario Lago ao lado de Ataulfo Alves, cantor consagrado na época – Gravou no início dos anos 70 CASA E COMIDA que rapidamente foi rotulada como brega!
    Casa e Comida : Núbia Lafayette Composição : Rossini Pinto
    Desculpe, meu amor, o que eu lhe digo,
    Mas meu bem, não é comigo, que você deve lamentar,
    Você nunca foi um bom marido,
    Não cumprindo o prometido que jurou aos pés do altar.
    É triste confessar, mas é preciso,
    Você não teve juízo em dizer que não me quis,
    Perdoa, meu amor, não sou fingida,
    Não é só casa e comida, que faz a mulher feliz,
    Noites, quantas noites, eu passava,
    Por você abandonada, a chorar na solidão,
    E quando eu reclamava, você ria,
    Me dizendo que ficava, no escritório, no serão.
    Agora você tenha paciência,
    Eu lhe peço, por clemência,
    Deixe em paz meu coração.
    Repito o que todo mundo diz:
    Não é só casa e comida, que faz a mulher feliz.
    Noites, quantas noites, eu passava,
    Por você abandonada, a chorar na solidão,
    E quando eu reclamava, você ria,
    Me dizendo que ficava, no escritório, no serão.(…)

    Coisa que não ocorreu com Sidney Magal: “Se te agarro com outro te mato, te mando algumas flores e depois escapo”… Luiz Caldas é um dos maiores instrumentistas que esta terra tem; fez MAGIA, uma obra de arte e grandes trabalhos com o Tapajós, inclusive no LP Caetanave – no entanto, seu sucesso se deu quando cantou: “nêga do cabelo duro / que não gosta de pentear…” e na sequência, apresentou outra musica que é como se fosse a continuação: “…pedi um beijo a ela e ela me deu um tapa / o que é que essa nega quer…”
    O clássico MEU NOME É GAL, de Roberto e Erasmo, fora o arranjo maravilhoso de Robertinho do Recife, traz em seu conteúdo:
    “Meu nome é Gal
    E desejo me corresponder
    Com um rapaz que seja o tal
    Meu nome é Gal
    E não faz mal
    Que ele não seja branco, não tenha cultura…”
    A sutileza do racismo brasileiro sempre teve o cuidado de associar cultura a formação intelectual dentro da perspectiva européia.
    Cantaria De Neve em uma música que virou clássico do bloco Afro Ilê Aiyê: “População magoada / a nossa honra tem que ser lavada”.
    Quero deixar claro que não sou contra seu posicionamento; agora, devo salientar que as coisas estão colocadas de forma confusa de muito tendenciosa para uma manifestação de exclusão a partir da identidade étnica.
    Estamos na era da informação e um profissional de comunicação pode e tem muito que colaborar!!! Hoje, quem quiser ouvir uma cantoria nesta terra, tem que se deslocar neste período de maio a junho, para São Gabriel na região de Irecê. Por qual razão Salvador e outras cidades do estado não tem esse direito? Vivemos sob uma ditadura e as secretarias de governo do estado e das prefeituras se renderam; ou melhor, acharam um cavalo selado e montaram sem sequer ter a menor preocupação com a procedência: é o mesmo grupo e os mesmos cantores e as mesmas músicas no carnaval, na semana santa, no São João etc.
    As emissoras de rádio com os “esquemas das mais pedidas”, o processo de rotulação preconceituoso que condena determinadas musicas a serem fadadas a viverem às margens das margens de qualquer acesso público encaixotadas como brega; faz parte deste contexto degradativo e degenerativo musical – ainda vou ter que estudar muito para entender porque um texto como este cantado por Marcio Greyck que busca refletir crises de convivência e compartilhamento é considerada como algo perverso e marginal: BREGA, assim como a já citada CASA E COMIDA .
    ( Aparências ) Composição : Cury – Fatha
    Quantos anos já vividos, revividos, simplesmente por viver
    Quantos erros cometidos tantas vezes, repetidos por nós dois
    Quantas lágrimas sentidas e choradas
    Quase sempre às escondidas, pra nenhum dos dois saber
    Quantas dúvidas deixadas no momento, pra se resolver depois
    Quantas vezes nós fingimos alegria, sem o coração sorrir
    Quantas vezes nós deitamos lado a lado, tão somente pra dormir
    Quantas frases foram ditas com palavras
    Desgastadas pelo tempo, por não ter o que dizer
    Quantas vezes nós dissemos eu te amo,
    Pra tentar sobreviver
    Aparências, nada mais,
    Sustentaram nossas vidas
    Que apesar de mal vividas têm ainda
    Uma esperança de poder viver
    Quem sabe rebuscando essas mentiras
    E vendo onde a verdade se escondeu
    Se encontre ainda alguma chance de juntar
    Você, o amor e eu
    Tem que conversar, discutir; ou a alternativa cantada pelo não brega dar TAPA NA CARA, CHAMAR DE CACHORRA, VAGA…MATAR E CAIR FORA… Isso para não descermos ao nível dos últimos carnavais!
    Não há como dissociar toda esta barafunda que estamos vivendo da sociedade que não consegue garantir saúde para todos e assim, o termo saúde fica reduzido ao simples cuidado médico com o corpo; reduzindo a palavra ao extremo. Fui aluno da Hora da Criança, de lá fui para o Jardim Infantil no ICEIA e de lá para fazer as primeiras séries do antigo primário, hoje fundamental – cheguei para a 1ª série com noções de leitura de partitura; não me esqueço da profª Maria da Hora! Ainda no ICEIA, aprendi a nadar, e pratiquei volley, basquete e hand Ball; hoje, o filho do pobre que quiser 1/3 disto tem que pagar escolinha – e mais, a criança chega à primeira série do Ensino Fundamental sem sequer saber escrever o próprio nome em uma escola pública. Os processos que envolvem a dinâmica da leitura, nem vou comentar.
    Não é por conta do BERIMBAU que a VILA OLÍMPICA e todo o seu acervo histórico foram ao chão em questões de segundos, para dar lugar a uma arena de futebol “moderna” e excludente para a copa do mundo – matem-se os velhos que os novos não sabem conviver com a poesia do tempo! O que é considerado velho, é descartável, joga-se fora ou elimina por completo; isso é o Futurismo de Marinetti! E quando você anexa a este tipo de ação os procedimentos de “segurança pública” adotados nos bairros populares, irá encontrar a impressão digital de Mussolini. Será que alguém tem dúvidas que àquilo que se convencionou chamar de erro ou negligência médica, nada mais é do que ação de extermínio – Um médico não se esquece de atender com precisão e presteza a um vizinho ou a um parente; ou mesmo a um amigo ou ex-colega de infância criada juntos nestas muralhas que são as escolas particulares e os condomínios luxuosos.
    Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostar-se diante do homem.
    Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.
    Outra coisa, a estrutura das escolas é tão obsoleta, em nosso caso, que a maioria está fechando por falta de alunos! E ninguém precisa ser adivinho para saber para aonde estes meninos e meninas estão se dirigindo; a escola que lhes é oferecida não consegue fazê-los ver que no material concebido em seu meio tem relações e é aplicável a sua vida cotidiana. É verdade que venho de uma geração que tinha Simone, Diana Pequeno: “…Quantas mortes ainda serão necessárias / para que se saiba que já se matou demais?” Não é preciso subir num trio elétrico e pedir ao pessoal de baixo para dizer que é ou são “gostosas”, talvez, para poder se sentir mulher dentro da sua concepção. A única coisa, que está ligada aos pretos senhor Vanderlei, é o fato de que a herança social desses excluídos é a herança de um povo que luta para sair da senzala e viver a sua experiência de sociedade quilombola; e o quilombo foi a sociedade em que todos os excluídos neste país tiveram abrigo e acesso – até mesmo fidalgos da corte quando passavam a ser perseguidos pela coroa. “As leis do corvo Jim” não chegaram aqui por nossas mãos!
    Quando um desses pretos do recôncavo baiano, Assis Valente, apresentou BRASIL PANDEIRO a Carmem Miranda, ela teve a mesma repulsa preconceituosa que ao longo dos tempos tem se manifestado neste país que se fez valer da justiça para buscar e fincar em sua identidade a sua ascendência européia, como se os outros povos fossem abrir mão facilmente de suas identidades… Mas tarde, a Telúrica Baby com os Novos Baianos fez dessa música um sucesso internacional. Fernando Mendes, com sua música considerada brega, naqueles tempos, chamou a sociedade para discutir o preconceito e o pouco caso para com as pessoas que usavam cadeiras de rodas, discutiu também como estava se dando o crescimento das meninas do subúrbio; no entanto, era brega por não espelhar o Brasil que as elites queriam mostrar como sua face: Ipanema, Copacabana ou a Barra aqui em Salvador.
    Quero terminar com duas estrofes de músicas de meu amigo e irmão Adailton Poesia uma quando ganhou o festival de música do Bloco Afro MalêdeBalê e outra que apresentou no Afro Olodum:
    “(…) Numa explosão de mazelas e desigualdades
    o preconceito chocou o ovo da serpente…”

    “Num triste legado da escravidão
    A necessidade fazendo a razão
    Dói ver em cada esquina partir um irmão
    Que tombou sem direito a opção…”

  • Marcos Galdino says:

    Tudo bem que o amigo quer desabafar algo que o incomoda e ainda ganha
    apoio de vários outros amigos que tb podem estar incomodados ou talvez
    só querem ver o circo pegando fogo! Enfim, não é por aí!
    A sacanagem está na nossa cultura desde o descobrimento do brasil. A
    carta de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, é um diário, que registra
    de 22 de Abril a 10 de Maio de 1500, uma progressiva descoberta dos
    homens (desde o primeiro instante, não há dúvida de que são homens) e
    das mulheres de Porto Seguro. A primeira imagem, a mesma que Colombo
    tivera nas antilhas, é de que todos vão nus e são imberbes: ” homens
    pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cubrisse suas vergonhas,
    traziam arcos nas mãos e suas setas’ (P.V.Caminha 1968 (1773) :21). E
    Caminha compraz-se em um jogo de palavras e em uma primeira
    comparação, dizendo das moças que tinham ” suas vergonhas tão altas,
    tão serradinhas e tão limpas de cabeleiras que, de as nós muito bem
    olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha” (P.V.Caminha, ibidem: 36-7).
    E, mais adiante, dirá de outra índia que era ” sua vergonha (que ele
    não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra,
    vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela”
    (ibidem: 40)… Então não adianta crucificar o pagode baiano como o
    que suja a cultura pq o pagode baiano só faz parte de um grupo ou uma
    tendência musical que existe desde o descobrimento do brasil, é a
    musica de sacanagem, duplo sentido, safadeza, como queiram chamar.
    Modas de favo, moda gallegas, modinhas de viola, marchinhas de
    carnaval, forró, brega, sertanejo, funk carioca…uma infinidade de
    músicas que fizeram sucesso e estão na boca do povo até hoje e que só
    falam sacanagens ou insinuam sacanagens. E o povo? O povo gosta porque
    está no sangue!!

    A sacanagem é tão cultural e tão nossa que fazemos questão de sacanear
    a própria sacanagem, fingindo que não gostamos falando mal dela!

    Então critique de norte a sul, critique a música brasileira e não
    somente a da Bahia!!

    Eu não sou pagodeiro nem baiano, sou brasileiro e é meu dever entrar
    nesse debate e lembrar que estão sendo injustos e talvez
    preconceituosos com a Bahia, e por que não dizer, “com a música de
    terceira”, que surge a cada dia em todos os lugares do brasil
    estourando nas paradas!!

    “Olha a cabeleira do Zezé” (1963), faz vc cantar ou pensar “bicha”; é
    homofóbica e ainda quer dizer que quem gosta de bossa nova é como
    Zezé!

    “Mamãe eu quero” (1937), quem é a “mamãe”? Vc quer mamar nela onde?
    Então o que vc quer, mamar ou chupar?

    Ainda tem as modinhas de Mazarope, Araci de Almeida, Derci Gonçalves,
    Genival Lacerda e milhares de outros autores e desconhecidos…

    Querendo ou não, isso faz parte da nossa cultura. Não sei se merece
    respeito, mas sei que não se deve escolher um só e jogar quinhentos e
    tantos anos de pedras nele!

    Abraços

    Marcos Galdino

  • EDUARDO SERGIO SANTIAGO DE QUEIROZ says:

    Entendo a posição do Sr. Galdino, mas quero dizer que não foi desabafo… Na verdade, foi e está sendo para mim uma conversa com tantas outras que travamos diariamente na comunidade – se for um pouco mais cauteloso, irá perceber que fui bastante ponderativo inclusive pelo fato do Sr. Vanderlei Soares olhar um cantador como Xangai pelo avesso e fazer a leitura de cabeça para baixo! É preciso olhar o momento em que o ABC do preguiçoso foi elaborado e a conjuntura ali é a realidade expressa numa metáfora que denuncia para aonde aquela sociedade estava levando aqueles que resistiram e não partiram no último pau-de-arara… Para se falar como ele falou de Xangai, é preciso fazer uma análise intrínseca e extrínseca do trabalho do cantador.
    E isso não é desabafo, é como eu coloquei, não sou contra a posição dele; agora, a coisa foi colocada de um forma muito estranha! É como essa colocação de que o Brasil foi descoberto…Eu tenho outra opinião e faço uma outra leitura desse processo histórico – e não vou me alongar aqui sobre isso! Agora, são quinhentos e poucos anos de HISTÓRIA ESCRITA EM LINGUA PORTUGUESA. É como falei, só queria mesmo esclarecer em relação ao Sr. Vanderlei tamanho o preconceito e racismo por ele manifestado…

  • Jaime Euclides da Cumha says:

    Oxalá que a porqueira baiana faça sucesso no Rio e São Paulo. Isso pra gente vingar a Eguinha Pocotó que enviaram pra gente numa época

  • kay says:

    acho que esses cantores de pagode pensam que nossos ouvidos são “pinico” eu nunca vi tanta porcaria cantada,é de dar nojo se dependese de me eles morreriam de fome que ñ compro um cd que pra me é puro LIXO,LIXO,LIXO gosto de ouvir musicas e gosto de pagode mas um bom pagode que vc possa ouvir ,que seus filhos possam ouvir ñ esses LIXOS que estam em Salvador sou baiana com muito orgulho mas infelismente essas múcas mim envergonham um dia desses ouvir uma música que dizia “mulher é igual a biscoito vai uma vem dezoito, é igual a lata nos juta e o outro cata ” nooooooooooossa fiquei paralizada ainda tem mulher que gostam mim desculpe mas essas mulhreses pra mim é LIXO também.

  • paulo says:

    Muito bom seu texto Vanderley. Para aqueles que usam o argumento que a sociedade esta em constante transformação afim de justificar o surgimento dessas músicas de péssimo gosto, se é que pode-se classificar como música, este lixo desarmônico denominado pagode; apenas aponta a ignorância, o analfabetismo e mediocridade de uma povo sem educação.

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