Os Coronéis do Cacau
O sociólogo Gustavo Falcón entende que o coronelismo como manifestação singular do poder privado no Brasil lastreia-se nas origens patrimonialistas do Estado nacional. Foi gestado em tempos coloniais e alcançou o ponto máximo na República Velha. Tomou curso em nosso regime federativo, que requeria pretensa base representativa para consolidação de um fato social revestido de conteúdo econômico e político.
O coronelismo sobreviveria depois da Revolução de 30, conservando em seu raio de ação social, entre outros elementos configuradores, o clientelismo, a falsificação de votos e o filhotismo. Fixava suas bases no território de Ilhéus quando o município era o maior produtor de cacau no sul da Bahia. Reunia durante a República Velha, para se consolidar no mandonismo local, três elementos essenciais ao controle do poder: a força econômica, o prestígio político e a violência.
Gustavo Falcón analisa, de maneira sistemática, o tema do coronelismo em “Os Coronéis do Cacau”. Emite reflexões argutas de sociólogo moderno que faltava para apreender com eficiência as relações de conciliação e oposição entre o poder público e o poder privado com base no familismo. As relações desse familismo vão ser delineadas pelo eixo irredutível da unidade produtiva da propriedade rural, fator importante que lhe dá fisionomia no plano social. Classe poderosa, detentora dos meios de produção de uma lavoura que sustentava despesas do Estado, sempre ensejou a pergunta por que como fração mais forte da classe rica da Bahia até 1930 nunca se impôs no sistema estadual de dominação política com uma postura homogênea. Com base em pesquisa criteriosa, munido do método dialético para ligar o pensamento aos fatos, Gustavo Falcón indaga se a acomodação com a estrutura conservadora do poder oligárquico estadual teria resultado em reforço e garantia para a burguesia cacaueira fazer prevalecer os interesses fundamentais numa zona de riqueza, cobiça e morte.
A posição ideológica do sociólogo é clara ao analisar a ação social imbricada na economia regional, o modo de produção e o estágio do desenvolvimento capitalista. Recorre à periodização do coronelismo em Ilhéus para observar que conflitos intra-regionais no município não permitiam a permanência duradoura no poder, favorecendo um sucessão de chefes regionais. Ilhéus com o seu dinamismo centrado em uma economia rural facilitava a aquisição de riqueza, quase sempre rápida, levando esse fator a grandes tensões e conflitos abertos, gerados pela posse da terra. Quando se detecta a burguesia agrária do cacau nas origens com outras frações de classes dominadoras da Bahia, o que pode ser visto na luta em torno do mandonismo local é a mutação das disputas de conteúdo econômico para as partidárias e eleitoreiras.
Na “Introdução Crítica à Sociologia Brasileira”, Guerreiro Ramos assinala que “a ação social sobre as condições objetivas das estruturas nacionais e regionais não deve obedecer a arquétipos ou a modelos considerados excelentes em si mesmos, mas deve emergir, de modo dinâmico, das relações entre o pensamento e os fatos”. Em sua análise de cientista social sobre a burguesia cacaueira em Ilhéus, Gustavo Falcón demonstra capacidade de reflexão aliada à pesquisa empírica, lucidez à compreensão das pessoas e os fatos, mergulho preciso na história com suas particularidades regionais. À luz da investigação científica, sem ser pedante e pesado em seu instrumental teórico aplicado ao social, desvenda aspectos importantes de um ambiente típico tão bem retratado nos romances de Jorge Amado.
O autor se mantém com neutralidade axiológica e se serve do método dialético para desenvolver o tema objeto de seu estudo. Distante de ser ufanista e tendencioso, provinciano e detalhista curioso, analisa pessoas ligadas aos fatos não para o elogio dos que se tornaram donos do poder no contexto econômico, vários deles Deus sabe como, mas para ser autêntico, coerente e verdadeiro com a região cacaueira baiana, que forjou ao longo dos anos uma civilização singular no plano social e histórico.
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*Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior. Atual diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.



























































