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Segundo antiga tradiçao  peruana, o primeiro Inca, Manco Kapac, com a sua esposa Mama Oqlo, à frente de uma grande comitiva, no Século XI deixaram o lago Titicaca, se dirigindo ao poente, na busca de melhores terras agrícolas. Chegaram a um vale fértil, antes ocupado por  culturas incipientes, ali construindo a cidade que nomearam Qosqo, isto é: “umbigo”, o centro, a capital do futuro império socialista e altamente organizado que, um dia, ocupou partes dos atuais Equador, Colombia, Peru, Bolivia, Argentina e Chile.

No planejamento urbano realizado buscaram traçar os cotornos de um puma, animal considerado encarnaçao de uma divindade propiciatória da chuva já representada nas artes pré-colombianas há pelo menos seis mil anos. Diferentes leituras do desenho deste puma na malha urbana cusquenha foram propostos, onde a fortaleza de Sacsawaman, no alto e no poente, sempre aparece como a cabeça e, o ziguezague das suas muralhas, os dentes do animal.
No centro histórico da cidade se vê tanto turistas como nativos, no vai e vem e sobe e desce  nas ruelas e ladeiras com seus casaroes de adobe e taipa sobre alvenarias pré-coloniais. A Igreja de Sao Domingos, por exemplo, foi edificada sobre os arrimos do Koricancha, o grande templo incaico dedicado ao Sol que teve as suas paredes interiores revestidas com 700 placas de ouro macisso. A Igreja do Triunfo, por sua vez, foi levantada sobre a base do palácio de Pachacútec, o grande expansionista da dinastia incaica. Ali fica a famosa “Hachunrumiyoc“- a grande pedra -, talhada como se fosse um gigante quebra-cabeça com diversos ângulos que se encaixam em outras pedras.
O quêchua, a língua oficial do Império Inca, é hoje falada por mais de dez milhoes de sul-americanos, número  crescente a cada ano. Muitas palavras quêchua, além daquelas designando animais ou alimentos andinos,  foram emprestadas ao português do Brasil: aca, cambada, cancha, chacara, chalana, taca, pechincha – todas mantendo sentidos semelhantes no nosso idioma.
A cidade é limpa e seu povo é gentil. Milhares de hospedagens e restaurantes estao por toda parte. No burburinho das ruas as línguas mais ouvidas sao o quêchua, orgulhosamente falado por quase todos os seus grupos de renda; o castelhano; o hebraico, falado pelos milhares de jovens israelenses com poucos recursos que, depois do serviço militar, passam uns dias em Itacaré e Morro de Sao Paulo, se dirigindo a esta cidade. Muitos restaurantes e agências de viagem expoem cartazes em castelhano e hebraico, nao sendo  impossível ali encontrar coloridos cartazes anunciando eventos culturais na língua da Bíblia. Este apreço dos israelenses por Cusco talvez se explique pela sua semelhança com Jerusalém, também uma cidade construída com muitas alvenarias de pedra. A sinagoga do movimento Chabad local oferece um albergue e um restaurante onde, me disseram, é servido um dos melhores  “Hummus bi Tahine” do mundo. Se ouve, também, nas ruas, francês, japonês, coreano, chinês, alemao. Em muitas ruas do Centro Histórico tombado pela Unesco como Patrimonio da Humanidade estao muitos “hotéis butiques“, altamente luxuosos e caros, e também hotéis mais baratos, ainda que organizados e limpíssimos, por R$ 10 ou R$ 15 ao dia, como o Gran Hostal Macchu Picchu, uma excelente pedida.
Sendo uma capital provincial, Cusco nao se limita ao seu Centro Histórico. Com seus cerca de 500 000 habitantes, grandes e largas avenidas cortam o grande vale donde se avista, no alto, picos de grandes montanhas nevadas.
As estrelas da gastronomia local sao os venerados “caldo de cabeza de cordero“, o “caldo de gallina“, os “saltados (refogados)” de res e de frango com batatas, o assado de alpaca, a preá frita e o “ceviche“, uma espécie de sashimi sul-americano, feito com cubos de peixe fresco, cebola em tiras, pimenta branda e sumo de limao, servido com rodelas de batata doce, alga marinha e pipocas.
Situada numa grande altitude, os seus pretensos visitantes devem consultar antes seus médicos para evitar problemas que, âs vezes, levam alguns turistas aos hospitais.
Como em todo mundo castelhanofalante, os teclados dos computadores locais nao permitem que se ponha o til nos “A” e  nos “O” , dificultando a redaçao de um português de melhor qualidade.
G.A.A., de Cusco