Carlos Pereira em: ISMAEL SAID: UM PALESTINO APAIXONADO PELO BOTAFOGO
Ele estava ali em minha frente, o mesmo corpanzil,150 quilos em mais de 2 metros de altura,a barriga parecendo a base do Kalimanjaro invertida.o mesmo brilho no olhar e gestos alegres e espontâneos. Estava numa mesa onde ele nunca sentava, sempre em pé e cercado de gente, via-se que era querido.Gesticulando, rindo, emocionado, falando, gozando os outros, atendendo o celular, “ele é mandado pela mulher; não vem não; ô cara, o Botafogo acima de tudo; sai fora; ai,ô bichou”. O local era o Botachopp, um bar em frente ao Engenhão onde a torcida alvinegra se reúne para tomar umas cervejas e ensaiar os seus cantos de glória. Lá vinha o hino…Ele emocionado virava para minha mesa, onde sentados estávamos eu e minha filha Larissa, e num lamurio compungente falava “que belo, é o único, a sua estrela solitária lhe conduz”. Dávamos risadas. Minha filha notou a khafieh árabe enrolada no pescoço. Disse-lhe é da FPLP (Frente Polpular da Libertação da Palestina, conheço o turbante dessa organização membro da OLP), ele deve ser palestino ou descendente.Aí falei para minha filha. A vida é interessante, lembro a primeira vez que vi este cara, tem sete anos, ele ainda não tinha os cabelos brancos, mas já tinha o mesmo corpo e gestos, foi no Maracanã, tem sete anos (sempre o sete na vida dos botafoguenses), foi no jogo Botafogo e Volta Redonda, eu estava com o seu irmão Carlos Gregório,perdemos o jogo e fomos retirados das quartas de final,o nosso palestino ( eu achava que era)estava a dois lances da arquibancada abaixo de nós,comandava todo mundo em seu entorno, e, do mesmo modo de hoje, de quando em quando, virava para mim e seu irmão e repetia a frase:”que belo, é o único, a sua estrela solitária lhe conduz”, quando o jogo terminou, olhei para ele, ele chorava com contagiante dignidade.Lembrei da menina Sonja dezesseis anos antes, a bela gandolinha botafoguense, chorando na beira do gramado. Choro que devolveu a dignidade ao Botafogo. De repente, eu e seu irmão estávamos chorando abraçados. Fomos para o Real Chopp, na Barata Ribeiro, afogar em calderetas as nossas mágoas.Nos olhos de minha filha as lágrimas escorriam, enxuguei-as com um guardanapo, abracei-lhe, quando notei braços fortes sobre nós e a voz de duzentos botafoguenses cantando o hino do Glorioso: “Botafogo, Botafogo campeão…
No outro dia, coincidentemente esbarrei com o nosso amigo em uma lanchonete árabe na Rua Uruguaiana, abordei-lhe, contei os ocorridos, e ele me convidou para tomar um chopp depois das seis. Topei. Dezoito e trinta estávamos no Bar Luiz na Rua da Carioca. Contou-me a sua vida, de fato era palestino, nasceu em 1950, seu pais (eram agricultores) foram expulsos de suas terras pelos israelenses, posteriormente foram assassinados, tinha um irmão também morto pelo Mossad em 1972, restava ele, não tinha mais familiares, herdara de um tio a lanchonete, vivia dela. Era casado mas optou não ter filhos, ele e a mulher eram militantes da causa palestina. A sua família era a botafoguense. Tinha cinco amores na vida: a sua mulher, a Palestina, o Brasil, o Rio e o Botafogo. Seus olhos brilhavam, incontinenti,sob os aplausos dos garçons e dos fregueses do Bar Luíz, começou a entoar em árabe o hino da OLP e logo após o do Botafogo. Chorei, cerrei os punhos e gritei o mais alto que pude: Viva O Botafogo, o Glorioso! Glória à Pátria Palestina!Viva o meu amigo Ismael Said!


























































