Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

Neste dia recordamos, de modo especial, os nossos mortos. Fazemos essa memória no Mistério da Páscoa de Jesus, que venceu definitivamente a morte. Todos os que pelo Batismo são incorporados a Cristo, com ele suscitarão dentre os mortos à semelhança de sua ressurreição.

O texto da Sabedoria (cf. Sb 3,1-9) nos  apresenta o conflito justos versus injustos, chamados de insensatos. As pessoas da cultura grega hostilizavam e perseguiam o povo judeu, que habitava em Alexandria do Egito, por volta dos anos 50 a.C. Para não serem marginalizados e perseguidos, muitos judeus deixavam os costumes e até a fé dos antepassados, perdendo a própria identidade. Além do mais, a crença na “teologia da retribuição” estava em crise. A realidade mostrava o contrário. Os corruptos e injustos viviam sossegados por longos anos. Os justos eram atribulados, perseguidos, mortos na juventude. Para superar essa crise, a sabedoria afirma com toda a convicção: “As almas (as vidas) dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá (…) eles estão em paz (…) no tempo do seu julgamento hão de brilhar, como centelhas que correm no meio  da palha; vão julgar as nações e dominar os povos(…)”. Deus e os justos são aliados inseparáveis e, mesmo que venha a morte por causa da luta pela justiça, os justos continuarão vivendo.

O salmista manifesta uma saudade imensa de Deus e mantém nossa esperança de voltar a nos encontrarmos com ele. Deus se faz presente na vida em forma de ausência sentida. Ele usa a imagem da corça sedenta. Toda pessoa sem Deus seca e morre (cf. Sl 42(41),2.3.5; 43(42)3.4.5).

O livro do Apocalipse  nos faz essa revelação preciosa: “Pronto! Está feito! Acabou! Eis que faço novas todas as coisas! (…). Eu sou o começo e o fim. O vencedor receberá a herança!” (cf. Ap 21,1-5.6b.7). Quando tudo parece acabado, novas coisas surgirão, e quem se mantem fiel recebe sua herança. Tudo é novo, sem dor, sem choro, sem luto, nem morte.

No evangelho de Mateus (cf. Mt 5,1-12) as bem-aventuranças abrem o Sermão da Montanha que anuncia a felicidade verdadeira de quem é merecedor do Reino. São proclamações de salvação para aqueles que aderem à comunidade dos seguidores de Jesus Cristo. São mandamentos como o decálogo do Sinai. Revelam uma felicidade quase que humanamente incompreensível. Reúnem promessas de bens excelentes e exigências extraordinárias.

A expressão “pobres em espírito!” é uma noção que vem do profeta Sofonias. Refer-se aos anawim, os que buscam Deus e a justiça, que mantêm viva a Aliança na espera do Messias.  O espírito não é o Espírito Santo, mas é o centro, o coração, a totalidade da pessoa. Essa expressão, na mentalidade bíblica, significa dinamismo, sopro, força vital. Esses pobres são os que, por seus sofrimentos e carências, aprenderam a confiar somente em Deus e contar com seu socorro;  sabem que são pobres e rejeitam a cobiça e a ganância. O Reino de Deus é para eles. A evangelização dos pobres foi o sinal que Jesus deu aos discípulos de João Batista, para reconhecerem que ele era o Messias.

A Palavra de Deus é um apelo para sermos pobres em espírito. Expressa muita exigência e não apenas desprendimento dos bens materiais. Ser pobre “em espírito” exige superar a cultura que coloca a realização da pessoa apenas no aspecto econômico e social. Significa aceitar a Palavra de Deus, Jesus Cristo, tema central das Sagradas Escrituras, e nos convida a viver em total disponibilidade à vontade de Deus e fazer dela nosso alimento. Ser pobre em espírito é ser discípulo de Cristo. O discipulado exige abertura ao dom do amor de Deus e solidariedade preferencial com os pobres e oprimidos.
As bem-aventuranças que seguem se referem a outras atitudes do pobre: bom trato, aflição pela ausência do Senhor, fome e sede de justiça, misericórdia, coerência de vida, construção da paz, perseguição por causa da justiça.

Na celebração de finados manifestamos a comunhão com quem amamos e continuamos amando, mesmo sem a presença fisica. A Ressurreição de Jesus é uma luz que ilumina nossa fé na vida que continua na certeza que todo mal já foi vencido e nos aguarda um futuro onde a morte não existe mais.

Nós que ainda caminhamos nesse tempo temos que participar da construção do novo céu e da nova terra, na confiança que quem morreu na fidelidade a Jesus Cristo, já usuflui do novo céu e da nova terra sem fim.

 

Dom Mauro Montagnoli

Bispo diocesano de Ilhéus