Autor: Alberto Grimm

“Como podemos reconhecer o paraíso, se nada parece suficiente para nós?”

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A ideia de um paraíso faz o homem esquecer que já o possui

Diário do primeiro dia:

“O lugar, a julgar pelas construções, que dessa distância podemos visualizar, parece ser povoado, embora ainda não tenhamos feito nenhum contato visual que possa comprovar esse fato. As construções são grandes e diversas em formatos, o que sugere, claramente, a existência de seres inteligentes na área. Portanto, todo cuidado é pouco.”

Resumo do Segundo dia:

“Começamos a explorar o local marcado como alvo. Ainda não nos aproximamos da cidade. Em volta, conforme já diziam os antigos relatórios, há de fato muita água. Lagos e rios imensos. Água límpida, cristalina, perfeita para nossas futuras colônias. Um dos nossos batedores foi enviado para uma varredura mais apurada nos arredores da cidade. Ele tem consigo todos os equipamentos e acessórios necessários para a medição dos níveis locais de poluição ambiental, assim como da qualidade do ar. Aguardamos seu retorno com mais notícias.”

Resumo do terceiro e quarto dias:

“De fato, o batedor nos informou via rádio, que, numa primeira análise, o ar é adequado. No entanto, não se sentiu pronto para fazer uma aproximação mais efetiva ao centro da cidade. Continua recolhendo amostras dos arredores e informa que ainda não viu nenhum habitante local. Pessoalmente, acredito que estamos diante da lendária terra prometida tão falada nos poemas dos antigos profetas…”

Início do quinto dia:

“Amanheceu há três horas e nenhuma notícia do batedor até agora tivemos. O combinado seria um relatório a cada seis horas. Talvez seja necessário enviarmos uma equipe ao local para verificar se algum imprevisto ocorreu. Enquanto isso, já coletamos amostras das águas da região e comprovamos que são de fato adequadas para uso. Mas, estamos em meio à mata fechada, não sabemos se as reservas da cidade possuem a mesma qualidade. Dependemos de respostas do batedor para prosseguirmos em direção ao alvo principal…”

Quinto dia, 14:00 horas:

“Não tivemos nenhum contato com o batedor. Uma equipe tática já foi enviada ao local para averiguações. Encontramos, em meio à selva, uma habitação e dela nos aproximamos. Os habitantes locais têm, por hábito, o cultivo de plantas suspensas em pequenos vasos com pratos maiores embaixo, que ficam pendurados em suas varandas, ou espalhados pelo chão, todos com água dentro. No entanto, não fizemos contato visual com nenhum desses moradores. Um dos nossos técnicos constatou que não há ninguém dentro da casa, talvez tenham viajado. Daí, segundo ele, o feliz costume de deixar nos recipientes das plantas, uma quantidade de água para vários dias. Vamos montar um posto de observação perto da casa.”

Resumo do sexto dia:

“Fizemos o primeiro contato visual com um dos habitantes locais. Não pareceu perigoso ou digno de maiores cuidados da nossa parte. Ainda não tivemos notícia do batedor, mas a equipe de resgate encontrou suas anotações espalhadas pela selva, assim como seus equipamentos de análises. Esperamos que nos digam algo sobre o que aconteceu…”

Noite do sexto dia:

“Hoje, fizemos um plantão noturno. As anotações recolhidas são bastante relevantes e precisavam ser estudadas com urgência. Aqui, em nosso posto de observação não corremos perigo algum. Não há predadores ou riscos aparentes para nenhum do grupo. Sobre as anotações, o batedor informa que fez contato direto com os habitantes locais e agora, se preparava para averiguar as condições para implantação do núcleo de povoamento. Acreditava ele que encontrara o lugar perfeito. Observou ainda que, em quase todas as residências, as condições ambientais são adequadas. Temos o mapa da região, iremos verificar pela manhã.”

Tarde do sétimo dia. Relatório final preliminar.

“Desculpe se pareço eufórico, mas, na verdade estou. Fizemos uma varredura completa do local indicado para o povoamento. São as condições, verdadeiramente excelentes. Não há agentes tóxicos, para nós, no meio ambiente, assim como não encontramos resistência alguma, da parte dos residentes. Poucos moradores nativos se preocupam com a possibilidade de uma ocupação pelos nossos colonos. O alimento, isso é importante, é farto e fácil de se obter. Isso é importante especialmente para os mais novos, da nossa espécie.”
“Junto com esse relatório preliminar, na verdade quase final, estamos enviando um mapa completo com a localização perfeita para a instalação dos primeiros núcleos habitacionais. Imagino que em pouco tempo seremos muitos. Mas, alimento e condições para procriação não é um problema que tenhamos pela frente. Só quero acrescentar que as antigas profecias estavam corretas, quando falavam da sonhada terra prometida para o nosso povo. Acredito que a encontramos. E, senhores, podemos afirmar com grande júbilo, que, uma nova etapa em nossa existência terá início. Finalizando, este lugar, a terra prometida para nós, os Mosquitos Aedes Aegypti, ou mosquito da Dengue, é o maior país do continente Sul-americano. Podemos começar já os planos de mudança para cá. Em tempo, sobre nosso batedor, ele sucumbiu por excessos, devido a fartura da alimentação.”
NÃO TINHA COMO NÃO LEMBRAR DE ITABUNA 

Autor: Alberto Grimm – é escritor de histórias infantis, é mestre em Filosofia e graduado também em Publicidade e Design Gráfico.

Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.

email: alberto.grimm@gmail.com


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