Jorge Raymundo Vieira

Jorge Raymundo Vieira

Nesta manifestação de saudades, de reconhecimentos e talvez até de agradecimentos da turma de ceplaqueanos para o nosso Zé Haroldo pensei e apresento alguns momentos de sua vida profissional.
Por muitos anos vivi ao seu lado, na luta difícil, mas idealista e sonhadora por um futuro regional. Era exigido constantemente espírito tranquilo para convencer os descrentes ou uma dose dupla de animação para a conquista de adeptos à grande ideia inovadora para o sul da Bahia – a CEPLAC.
Fixei minhas lembranças nos seus momentos mais difíceis. Uma decisão errônea ou apressada poderia criar um clima insatisfatório à realização do novo projeto regional.
Revi sua primeira decisão profissional: abandonar a tentativa de ser empresário, deixando “J.Vieira e Irmão” para aventurar na profissão de bancário no Banco do Brasil. Único aprovado no concurso do Banco foi designado para atender a carência de funcionários da agencia de Ilhéus.
Logo, logo antes de desenvolver a carreira no Banco decidiu atender o convite da CEPLAC para completar a equipe que administrava este importante projeto governamental, cujo objetivo principal era solucionar os problemas e desenvolver a economia cacaueira baiana.
Aí marcou sua presença e difundiu seu entusiasmo, idealismo e o desejo de ver toda a região desenvolvida econômica e socialmente. A crença do Secretário Geral Carlos Brandão nesta ideia levou a solicitar do funcionalismo, até então coordenado por uma única Superintendência Regional em Itabuna, um Projeto de reestruturação e ampliação dos serviços a serem prestados aos produtores de cacau.

Após algum tempo veio a cobrança do Secretário Geral julgando que nada havia sido feito. O José Haroldo com seu jeito maneiroso disse existir um Plano de Expansão por ele elaborado e que estava com a Superintendência. Foi um momento difícil exigindo o respeito e a consideração aos seus superiores ao tornar público e aberto suas ideias neste novo projeto.
O Plano de Expansão veio à discussão e daí surgiu, a criação de outras Superintendências – Ipiaú, Canavieiras, Ubaitaba, coordenando Escritórios Locais, uma estrutura mais eficiente no atendimento aos produtores em financiamentos e numa efetiva assistência técnica agronômica.
Assim, deu-se inicio a ampliação da Ceplac nas suas atividades técnicas prestando melhor serviço àqueles que legalmente contribuíam financeiramente para sua manutenção – os produtores de cacau.
Tornou-se Coordenador Administrativo Regional do recém-criado Escritório Central de Coordenação ao lado do cientista Dr. Paulo Alvim, como Coordenador Técnico Geral, supervisionando e orientando todo o programa da CEPLAC. A nova estrutura passou a constituir-se do Centro de Pesquisas do Cacau, do Departamento de Extensão, do Departamento Administrativo e das quatro Superintendências Regionais.
Muitas outras decisões e influências pessoais existiram na administração e crescimento da Ceplac: com funcionários, com autoridades, com políticos regionais sempre visualizando o futuro da economia cacaueira, a diversificação, a expansão para a Amazônia, a preservação do meio ambiente e a integração entre produtores, exportadores e industriais chocolateiros.
O apoio à organização dos produtores de cacau, através do CCPC – Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau trouxe alegrias, compreensão e aceite às ideias novas. Todavia, existiram preocupações sérias nas tentativas de evitar discórdias e competições indesejáveis entre eles.

Algumas de suas decisões foram sofridas e difíceis de serem tomadas. O coração não podia sobrepor ao interesse regional, daí a análise de dados e fatos, o diálogo constante com as lideranças, a compreensão e visão futura levavam a decisões que melhor atendessem o futuro regional.
Assim foi a localização da sede da Ceplac e do Centro de Pesquisas do Cacau. As desavenças culturais entre Ilhéus e Itabuna não poderiam afetar tal procedimento decisório. Foram importantes suas considerações ponderando vários aspectos na decisão do então Secretário Geral.
Em outra oportunidade, teve sobre sua responsabilidade a localização da atual UESC. Esta foi uma importante e difícil decisão. Era preciso que a CEPLAC, maior entusiasta e de elevado apoio financeiro da Universidade, não ficasse desgastada no ambiente político, ou junto à classe produtora e às sociedades ilheense e itabunense. Com coragem e visão futura decidiu localizar no município de Ilhéus em terreno ofertado por um produtor rural também idealista.
Mas, as críticas existiram. O ciúme prevaleceu naqueles ainda arraigados com as tradicionais disputas entre as duas cidades. Todavia o José Haroldo sabia que estas duas importantes cidades representariam no futuro um grande centro metropolitano do sul do estado; sabia que as lideranças inteligentes e progressistas dos dois municípios iriam conduzir ações dentro desta ideia de desenvolvimento regional.
E aí está. Não existem fronteiras entre os dois municípios. Para eles convergem o comercio, os acontecimentos culturais, econômicos e sociais; misturam-se os jovens, hoje com uma nova concepção de vida e de relacionamento humano. Nas salas de aula não existe separação nem identificação de origem ou de residência. Somente a UESC tem mais de 7.000 alunos que não sentem esta disputa retrograda e antiga, que desapareceu no mundo em que vivem.

Este era o sentimento de JH. Infelizmente os “políticos regionais”, sem visão futura, ainda perseguem ações e decisões governamentais, estimulando uma nova rixa e separação entre empresários, estudantes, professores e toda sociedade, com o único propósito eleitoreiro.
O relacionamento com os líderes políticos regionais nunca foi fácil; desde os que apoiavam permanentemente a Ceplac e sua ações oferecendo um apoio desinteressado; outros, impertinentes, sem se importar com a economia do cacau e o “bem estar” da população, a querer (e conseguiram), dominar a instituição, injetando apenas procedimentos político partidários. Começou no governo Sarney. A Ceplac foi entregue ao correligionário político regional para as suas promessas sem o devido atendimento, mas com boas colheitas de votos. Acabou-se o idealismo, o amor à instituição, contagiando o funcionalismo com ofertas especiais para os adeptos à política partidária dirigente.
José Haroldo sentiu isto. Tentou por diversas vezes salvar a instituição. Escreveu artigos, planos e projetos. Visitou governantes, mais puros e idealistas, tentou explicar a todos o verdadeiro papel de uma organização técnica e necessária ao desenvolvimento da região. Deixou a direção da Ceplac triste quando anteviu o futuro da instituição e seu reflexo na região e na economia do cacau, agora com o predomínio da ingerência política partidária regional.
Seu último Projeto de reorganização da Ceplac (ou salvação), escrito e impresso por ele, entregue a todos os dirigentes, autoridades, políticos e lideres da economia nacional do cacau não teve acolhida. A maioria nem leu a documentação. Nenhum político desejava ser o responsável pelo fim da instituição ou de sua remodelação apagando todo o seu passado.
O melhor de José Haroldo foi ter tido uma vida profissional elogiável, ter contribuído decisivamente para o progresso e melhoria dos produtores de cacau da Bahia e da Amazônia, da evolução profissional dos técnicos e em especial de ter contribuído marcadamente para a construção da UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.


Jorge Raymundo Vieira -22-03-2012