Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

Dom Mauro Montagnoli / Bispo diocesano de Ilhéus

No domingo, dia 2 de dezembro, iniciamos mais um ano litúrgico com o tempo do Advento.

Advento, ou o “dia da vinda”, é um tempo de preparação para receber o Senhor que vem e se manifesta a nós. Sua manifestação tem dois aspectos:

1. Sua manifestação em nossa carne ao nascer, e constitui a sua 1ª vinda.

2. Sua manifestação em glória e majestade no final dos tempos, e constitui a 2ª vinda.

Rezamos na oração do Prefácio I: “Revestido da nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes, esperamos”.

O tempo de advento tem dupla estrutura: advento escatológico e advento natalício. O primeiro compreende o tempo que vai do 1° domingo do advento ao dia 16 de dezembro; o segundo vai do dia 17 a 24 de dezembro, que é o tempo de preparação mais imediata para a festa do natal.

É importante compreender bem esta distinção para se poder celebrar com mais proveito para a nossa vida espiritual o tempo de advento. Infelizmente já estamos focados na festa do natal com todos os enfeites, sons e cores e nos esquecemos da preparação do coração e da mente. Sendo assim, devemos deixar para colocar os enfeites natalinos, inclusive a montagem do presépio, para o tempo do advento natalício, depois do dia 16 de dezembro.

“A celebração da vinda do Senhor no tempo do advento vem ao encontro de nossa busca fundamental. Somos seres de desejo, inacaba­dos, sempre ‘em devir’, assim como a realidade social e cósmica da qual fazemos parte. Elementos rituais próprios deste tempo litúrgico expres­sam e nos ajudam a incorporar esta dimensão do mistério de nossas vidas: leituras bíblicas, cantos, a prece “Vem Senhor Jesus”, a cor roxa ou rosada, a coroa de advento, as antífonas do Ó. Ouvindo a promessa da plena realização do Reino de Deus, cresce a expectativa e podemos afir­mar confiantes: “um outro mundo é possível”. Cheios de esperança suplicamos: “Venha a nós o vosso Reino” e atendemos ao convite para a vigilância e a espera ativa, preparando os caminhos do Senhor”. (Ione Buyst)

No primeiro domingo somos convocados a atitudes bem concretas diante da vinda do Filho do Homem: levantar, erguer a cabeça, tomar cuidado, ficar atentos. Ou seja, é preciso ficar de pé diante do Filho do Homem.

São Bernardo, abade (sec. XII), num de seus sermões, dizia: “Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas, esta não. Na primeira vinda, o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Foi então, como ele próprio declara, que o viram e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc 3,6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc 11,10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o vêem em si mes­mos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última, virá com todo o esplendor da sua glória. Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que con­duz da primeira à última; na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária é nosso repouso e consolação”. (Liturgia das Horas, vol. I, p. 137-138)

O Senhor virá e a melhor maneira de manter a espera vigilante é por meio do amor e da oração constante. A vigilância é uma atitude existencial e libertadora que se manifesta na esperança ativa, na fé no trabalho, nas relações humanas de cada dia, no compromisso para com a justiça do Reino. É apelo a viver um amor universal transbordante, que leva a construir um mundo novo de paz e fraternidade.

A comunidade de fé, movida pela esperança, reza e clama: “venha a nós o vosso Reino”, “vinde Senhor Jesus”. Na verdade ele já está no meio de nós, mas nos comprometemos como Ele para que tudo possa ser plenamente transformado, segundo a vontade de Deus.

É na tensão do “já” e do “ainda não” que celebramos, alimentando-nos da Palavra e da Eucaristia para termos coragem de erguer do chão tudo o que está abatido.

 

Dom Mauro Montagnoli

Bispo diocesano de Ilhéus