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MEMÓRIA HISTÓRICA DO PONTAL

O escritor e historiador José Rezende Mendonça tem feito um esforço infatigável no sentido de resgatar a história do nosso bairro querido, o Pontal de São João da Barra, tendo inclusive publicado um livro de memórias do bairro, e incesssantemente tem publicado nas redes sociais fotos muito belas de um passado que abrangem aspectos urbanísticos, econômico-sociais e sentimentais de nosso passado.
Ainda ontem, entrei em contato com o amigo Zé Rezende e lhe propus encontrarmos uma forma de homenagearmos  os pioneiros de fundação do bairro. O Pontal teve origem a partir da formação de uma vila de pescadores, egressos do litoral norte de Sauípe, o que deu o nome a uma das suas primeiras ruas, a rua do Sauípe, hoje Castro Alves, e no entorno da localidade foram se estabelecendo pequenos comerciantes para atende-los nas suas necessidades, os instrumentos de pesca(anzol,linha de nylon, chumbo,iscas e o rancho(assim eles chamavam o abastecimento dos barcos com víveres para as longas viagens do salgueiro, pois naquele tempo não tínhamos embarcações movidas a motor diesel e sim a velas de pano, nem sistema de armazenamento de pescados no gelo, a conservação era feita com o sal marinho).

DOIS  "FERAS". MONT: R2PRESS

DOIS “FERAS”. MONT: R2CPRESS

Por morar bem próximo aos pontos de atracação dos saveiros e embarcações de pesca, desde menino, sempre fui fascinado pela faina diária dos pescadores, no estaleiro  reformando barcos e canoas, na maré seca calafetando com estopa seca, breu e piche o casco dos saveiros, remendando e reforçando os panos rústicos das velas,o desembarque vitorioso de toneladas de peixes  capturados nos longos períodos de viagens marítimas do salgueiro,  no jogo de dominó embaixo do carramanchão de palha à beira mar, do trago de cachaça Bituri e jurubeba nas vendas de Antonio Faislon, Pedro Dobre, Milton da Venda, seo Bebé, e na compra de utensílios diversos no armazém de Laudelino Mendonça, e lembro também da preocupação das mulheres dos pescadores e mestres de embarcação por ocasião das terríveis tempestades formadas pela mudança de vento, quando imperava o impetuoso vento sul, forçando os mestres de saveiro a retornarem à toda ao ponto de partida, ou arribando em algum porto próximo, Canavieiras,Belmonte, Porto Seguro, para se protegerem da fúria do mar nos dias de vento intenso, o que colocava em risco a sua integridade física e das embarcações. Garoto, saía em disparada atrás de d.Jaci, d.Nega,d.Ceci, d.Diná e outras esposas preocupadas com o retorno de seus esposos pescadores,e assistia da pedra do Ciriaco, na ponta norte da praia do Sul, aos olhares angustiados para avistar de longe as velas dos barcos chegando e procurando abrigo seguro nas tempestades. Eram os meus heróis, lobos do mar que arrostavam todos os perigos na imensidão do mar, Mestres Cilô, Roxinho, Agenor Galo, Esterlino, Fausto, Valdez,Otávio, Artur do Calão, todos eles povoaram a minha infância.
E para resgatar esses personagens nessa história é que propus ao amigo Zé Rezende estudarmos uma forma de viabilizar homenagem a esses pioneiros pontalenses, precursores dessa maravilha de bairro que temos hoje. Iremos conversar com a arquiteta Simone Flores, autora do projeto de recuperação da praça São João que será executado pelo grupo Cidadelle, para verificar a possibilidade de colocar o nome de cada personagem acima mencionado em algum cantinho da praça, seja no playground infantil, ou no pergolado ou em alguma alameda da praça. Uma homenagem simples mas que faça aflorar a memória do bairro do Pontal.
Zé Rezende é a favor de que procuremos junto a Prefeitura e empresas parceiras elaborar o projeto para construção de uma réplica de saveiro, no qual venham a constar os nomes da maioria dos pescadores e mestres de saveiro, a ser instalada à beira mar, para que possa inclusive vir a ser ponto de visitação turística, talvez naquela área de cais próxima ao Larika na avenida Lomanto Jr.

3 respostas para “MEMÓRIA HISTÓRICA DO PONTAL”

  • Julio Gomes says:

    Belíssima iniciativa. Parabéns!

  • JOSÉ REZENDE MENDONÇA says:

    OS PESCADORES
    ELES FUNDARAM ESTE BAIRRO NO SÉCULO XIX – ANO DE 1875
    BREVE HISTÓRICO

    Informações oficiais de 1831 dizem que o Pontal, na vila de São Jorge dos Ilhéos, chamava-se Parte D’Além e era patrimônio do conselho. Esta, e mais as aferições, estavam arrendadas por 30$866 réis anuais.

    O bairro do Pontal, um dos principais e tradicionais de Ilhéus, surgiu por volta de 1875, com a chegada dos primeiros pescadores, caracterizando-se como colônia de pescadores até aproximadamente 1920.

    Todas as casas da localidade eram até então de palha, sendo edificada a primeira de telha por certo indivíduo cujo nome a tradição guardou, e vai aqui mencionado: Inácio das Neves.

    Em 1875, recebe o nome de Pontal de São João da Barra, devido à circunstância de virem habitar aqui muitos pescadores de Palame, lugarejo da costa norte da Província, alguns deles acompanhados de suas famílias.

    Seu loteamento se inicia por volta de 1915 e termina mais ou menos no final da década de 40 e a partir daí começa seu desenvolvimento recebendo pessoas de outros estados, principalmente de Sergipe.

    Já a partir de 1940, os moradores do centro de Ilhéus vinham veranear no bairro, principalmente os mais ricos. Era um veraneio local que viria a ser impulsionado a partir de 1990 com a crise do cacau (vassoura-de-bruxa), aproveitando-se de sua beleza natural, para investir na atividade turística.

    Mesmo antes da inauguração da ponte em 1966, o Pontal já havia se desenvolvido como bairro e os seus moradores até pensavam que aqui se tratava de outra cidade independente de Ilhéus.

    O bairro também foi chamado de Pontal dos Ilhéus e hoje simplesmente Pontal.
    Pontal desde os idos de 1940 era considerado como sítio muito pitoresco que já contava com sete ruas e aproximadamente 4.000 habitantes e cerca de 500 edificações, muitas das quais de linhas modernas e elegantes; aeroporto, padaria, cemitério, cinemas, correios, igreja matriz, clubes desportivos, sociedade recreativa, grupo escolar e várias escolas, inclusive a da colônia de pescadores e grande número de “casas de negócios” (vendas, bares, restaurantes, ferragens, lojas etc.). SANTOS Nilmací Silva (2007: Fragmentos dos Capítulos: (L, XXVI, XXXI)

    O Pontal hoje, conta com uma população aproximada de 15.000 habitantes, com um complexo hoteleiro invejável, além de uma feirinha própria, mercados, sacolões de verduras, açougues, frigoríficos, restaurantes, posto policial, corpo de bombeiros, correios, casa lotérica, aeroporto, unidade de saúde, colégios e uma universidade ambiental – MARAMATA, pizzarias, bares, academias de ginásticas, armarinhos, padarias, clínicas médicas, igrejas, salões de belezas, revendedores de veículos, postos de gasolina, “lan houses”, lavanderia, churrascarias, lanchonetes, sorveterias, etc. Apesar de ser um bairro tipicamente residencial, mantém uma estrutura comercial (“de tudo um pouco”) e lazer, que o faz dentre os bairros da cidade, o mais cobiçado. Sem falar no mais belo cartão postal da cidade que é a baía que leva o mesmo nome. Hoje é um dos maiores bairro da cidade ao ponto de se subdividir em loteamentos; Jardim Pontal, Sapetinga e Nova Brasília.

    O maior desafio do bairro, que já poderia ter sido resolvido, é o saneamento, que é ainda à base de fossa séptica, levando a maioria dos moradores de forma clandestina (oficializada), ligar seus esgotos na rede pluvial, contribuindo para a poluição da baía e comprometendo a saúde dos banhistas e pescadores.

    CAPÍTULO – I

    OS PESCADORES

    Aqui começam os relatos de minha memória e nada mais justo relembrando estes bravos homens do mar. Foram eles os primeiros moradores do bairro (1875), e tem uma importância muito grande na história do bairro. Praticamente se dividiam em dois grupos: os pescadores de calão (pesca de rede) e os pescadores do “alto mar” ou pescadores de “barra afora”. Os de calão encontravam-se na praia no final da Rua da Frente, hoje Avenida Lomanto Júnior, onde reparavam os furos de suas redes e as tinturavam imergindo nuns tanques à base de cascas de árvores do tipo “mangue vermelho” (Rhizophora mangle), que é bastante rica em tanino, e que servia de impermeabilizante, fortalecendo os fios de algodão das redes.

    Na minha época de criança e adolescente (1957-1967), essa praia servia de partida das canoas com suas redes para a Praia da Concha, ambiente invejável de pescaria, onde era comum o arrasto de cardumes num só lanche de calão. As outras opções eram: Praia da Alvorada, Praia da Cabana da Sereia e Praia da Ponta de Eustáquio.

    Já os pescadores do “alto mar”, encontravam-se na Banca do Peixe, também na Rua da Frente, no mesmo local onde se reúnem até hoje. Daí partiam pela “boca da barra” afora, rumo sul ou norte, em busca do melhor “ponto pesqueiro”, retornando normalmente de 10 a 12 dias depois, onde a população já aguardava a chegada para comprar o peixe salgado à base de sal grosso, pois naquela época ainda não se tinha gelo, por falta de uma fábrica, devido seu custo e a constante falta de energia elétrica. Às vezes, alguns barcos saíam à noite e retornavam pela manhã trazendo o peixe fresco. Tínhamos de fartura os peixes: vermelho, olho de boi, mero, dourado, atum, arraia, agulhão, xaréu, dentão, guaiúba, bom nome (peixe da rainha) etc., e o famoso peroá, que naquela época era peixe para os pobres, hoje o peroá é disputado também pela classe média e rica, principalmente na Semana Santa, pois a culinária o transformou num delicioso prato de moqueca desfiado ou em postas.

    Estes peixes eram também vendidos “fresquinhos” nas portas das residências, só com uma diferença pra hoje, que já são vendidos descamados, limpos e cortados em postas. Cabia às donas-de-casa (esposas) e/ou empregadas esta tarefa.

    Os pescadores já mantinham a Colônia de Pesca Z-19, fundada em 1921 e nela uma escola e a capelinha de São Francisco, apesar de o padroeiro ser São Pedro, situação que nunca entendi e só agora fui tirar esta dúvida com “seu Oscar”, um dos pescadores mais antigos do bairro, que me falou que quando aqui chegou já encontrou desse jeito e nunca se preocupou em saber desta distorção. Em outro capítulo escreverei a parte religiosa que cercava esta comunidade.

    Dessa época me lembro dos pescadores: Durval, Mané Preto, Jerônimo, Agenor, Artur, Adamastor, Zuza, Valdivino, Jadaraí, Benedito (Paripe) e Mané Maia (calão), Fausto, Oscar, Dalmo, Inocêncio Correia, Esterlino, Rôxinho, Sebastião Torpedo, Jonas Gomador, Ernesto Tarzan, Abdias, Luiz Parangolé, João de Deus, Crispin, Selé, Nelson de Baia e Pedro de Lúcia (alto mar).

    Hoje a banca do peixe já foi reformada várias vezes e as duas praias deixaram de existir, com o asfalto e uma proteção de pedras para conter o “avanço de maré”, as praias perderam seus encantos sem o calão, sua gente e o farto pescado do lugar.

    Do livro: Pontal Ontem & Hoje – Memórias
    José Rezende Mendonça.

  • Josy says:

    Amei essa ideia!!! Apoio total!!!

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