Menina de Ilhéos, c.1888
Chamava-se Alice, filha de uma sergipana de Estancia que para aqui migrou em 1875, com seus pais e irmãs. A mãe era cega, de tanto chorar a morte do seu filho caçula, o soldado “Quincas”, um dia depois de terminada a Guerra do Paraguai. Um pequeno guarani pegou uma arma e o matou com um tiro certeiro. O Governo devolveu à família suas condecorações, armas e demais apetrechos de soldado, envoltos numa bandeira do Brasil Imperial. Passaram uns tempos no Cabula mas, logo, desceram “aos Ilhéos” comprando uma casa que ficava junto ao atual “Cine Theatro Ilhéos”, este construído no terreno baldio que era anexo a esta casa, pois as janelas laterais deste edifício se abriam a este tal terreno. Compraram, também, um sítio, o “Esperança”, que um dia fora dos Jesuítas e, depois, do primeiro Lavigne a vir aqui morar. Seu pai era um caboclo nativo, o Alfredo, filho de “Zé Pinto”, aliás, José Pinto da Silva Amorim, português do Porto, da rua de Santo Ildefonso, N.7, bem ao lado da igreja dedicada ao citado santo, logo acima da ladeira que nos leva ao rio Douro. A mãe de Alfredo, a cabocla Yazinha, era da Una Velha, hoje Pedras de Una, antes uma promissora vila um dia invadida pela água do mar… No dia 13 de Maio de 1888, saía da casa do avô, pela porta dos fundos, com sua tia Mariquinhas, sua irmã Adalgisa e a prima-irmã Maria Luíza, avó da querida M.L.Heine, quando viram uma grande muvuca acompanhada de batucadas e muita gritaria provocada pela cachaça que, então, corria solta. Duas baianas com seus braços estendidos, gritavam: “Hoje, é Dia da Pura Cerveja”… Na Ilhéos daquele tempo já passava pelo litoral brasileiro uma linha de telégrafo e navios nos traziam cerveja que era gelada em canteploras de madeira com maravalha dentro para conservar a temperatura ideal para consumo da bebida. Nesta ruela, ficavam as casas das “mariposas”, como eram chamadas aquelas santas sofredoras… Alice fez barrigas até muito depois dos quarenta; seu antepenúltimo filho foi o meu pai. Não sou nenhum Matusalém, mas sou neto de uma mulher que viu o contentamento da população Negra local com a assinatura da tão esperada Lei, que deu início ao longo processo de real libertação de um povo oprimido e humilhado que, hoje, faz sua desforra nos derramando arte e beleza nas ruas, nos fins de semana e nas muitas festas que nos ocorrem todo o ano…
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Guilherme Albagli.


























































