Heckel Januário em: UMAS E OUTRAS INUSITADAS DA CIDADE (VIII)
(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
Ao iniciarmos esta série do Umas e Outras… procuramos a bordo de uma embarcação virtual relatar a sincrônica relação –mantendo a ideia do título– do rio Jequitinhonha com a cidade belmontense.
Como estamos ancorados no porto do Jequitinhonha há algum tempo, a ordem recente recebida do comando da missão é que a estadia e os improvisados rolés pela city não sofram soluções de continuidade e, desse modo, a tripulação, ajudada por um –mencionado anteriormente– calejado marinheiro e conhecedor dos meandros locais, continue se interando dos seus aspectos.
E escolhemos para este capítulo, motivado pela proximidade da Copa, o do futebol, ou melhor, causos a ele vinculados em que, não só Bebel, mas toda a Região Cacaueira é pródiga. Então, após a visita ao Estádio Orlandão 70 –praça municipal atualmente com gramado dotado até de irrigação computadorizada– vieram as aclarações do velho marujo, que começara dizendo das origens do esporte bretão na localidade. Concluído o prólogo, interrogou: E aí, vocês já ouviram falar do Zé Hugo? Foi um craque belmontense, rapaziada, na expressão da palavra. Jogou no Belmonte E.C com o irmão Miro, depois o levaram para o futebol de Ilhéus onde fez um sucesso danado. Janúncio, um avante que jogara a seu lado nesta cidade, costumava compará-lo ao rei Pelé quando não o considerava melhor. “Subia e cabeceava como ninguém; era serelepe, um raio”, concluía sempre.
Com a fama espalhada, o Vitória da capital viria a contratá-lo na Capitania dos Ilhéus. Bases contratuais acordadas entre as partes, a viagem para Salvador se dera de navio. No percurso o inacreditável: não é que a embarcação quando se preparava para adentrar a Baia de Todos os Santos uma lancha de um membro da poderosa firma Wildberger –diziam, tricolor ferrenho– a abalroa e ali mesmo o convence a assinar com o Bahia! Pois é, enquanto os dirigentes do Leão da Barra, ao som de seu hino executado por uma banda filarmônica, aguardavam eufóricos no cais do porto o atacante, em alto mar uma transação sui-generis estava em curso! Mal, mal o vapor atracara, no pier: “Comandante, cadê nosso passageiro?”, bradou um diretor rubro-negro. “Oh! não sabe!? O Bahia pegou o homem na boca da barra e a esta altura do campeonato já deve estar treinando”, ironizou aos berros o comandante ainda no convés. Basta dizer, para não me alongar, que o cara mal havia chegado tornou-se bicampeão baiano. Em seguida se fez um dos maiores artilheiros e, ídolo, enfim, escreveu seu nome nos anais dessa agremiação. Sim, descobriram adiante que rolara uma facilitada, pois o tal capitão do barco era também um tricolor doente! Ah –continuou–, o desagradável nesse episódio foi o Zé Hugo na estréia no Campo da Graça em 1944 afirmar que era filho de Ilhéus em entrevista a uma rádio soteropolitana. Comenta-se que à época a comunidade de Bebel ficara pu… da vida, injuriada. Possivelmente, viu turma, como Ilhéus sempre se destacou por sua beleza e outros atributos dos demais membros municipais da região, inclusive chamada de Princesinha do Sul, o atleta por ingenuidade ou, sei lá, num lapso absurdo qualquer, tenha pensado que falsificar a naturalidade lhe acrescentaria status, deduzo.
Outra estória, marujada, data de 1961. O Bonsucesso do Rio de Janeiro realizava uma excursão pelo sul da Bahia e jogara em Belmonte com sua seleção amadora. Antes do jogo uma comissão formada por autoridades capitaneada pelo médico Dr. José da Costa Pinto Dantas encontrou-se com Gradim, técnico do clube carioca, e lhe pedira para observar o Neca, um ponta-esquerda velocíssimo e considerado de futuro promissor. Finda a partida, reunidos, o experiente treinador concluía: “Os senhores me desculpem, mas aquele alto e forte recomendado só se for para o Hipódromo da Gávea, agora, o meia baixinho podem mandá-lo arrumar as malas”. Tratava-se do meio-de-campo Carlinhos Gama, jogador de habilidade impar, de futebol clássico, mas estava de casamento marcado.
Observamos haver colaborado para este escrito o morador belmontense Vicente Lima Bezerra conhecido como Padre Antonio, na confirmação –via telefônica– dos fatos e versões correspondentes aos causos. Padre Antonio fora o goleiro do escrete e testemunha ocular do caso Gradim.
Heckel Januário


























































