Eduardo Pachalski

A maioria dos adultos sabe ou no mínimo deve estar atento às consequências da automedicação e os riscos eminentes que esta prática pode trazer à nossa saúde. A leitura da bula pode evitar desde reações alérgicas até, em casos graves, trazer a pessoa à morte. É corriqueiro trazer este tema para a grande mídia, assim como o investimento em campanhas de conscientização contra a automedicação. Mas o quão sensato e oportuno esse tema pode ser no Brasil?

Tão indiscutível quanto o risco é o vínculo desta prática à falência das instituições médicas no país. Como tentar convencer os usuários das classes trabalhadoras a esperar semanas para marcar uma consulta, chegar com uma hora de antecedência, ser atendido com mais duas ou três horas de atraso, para consultas onde raramente o Doutor encosta uma mão no paciente, consultas que às vezes são tão rápidas que sequer a cadeira chega a esquentar, deixando quantias cada vez mais absurdas como pagamento de um serviço tão rápido, superficial, mal prestado, esdrúxulo.

Ironicamente, os melhores serviços médicos atuais estão nos prontos-socorros e instituições que admitem estagiários e profissionais submetidos à avaliações periódicas, sejam das faculdades ou órgãos de formação técnica. Parece que uma vez formados a maioria resolve cobrar da sociedade com juros cada minuto dedicado à residência. No momento em que teoricamente o período de aprendizado se encerra e apresenta-se o profissional qualificado no mercado seus valores morais são trocados pelos financeiros. Lastimável.

Sim. A classe médica, com raríssimas exceções é esdrúxula, pífia, patética. Os novos Doutores fiam-se na necessidade do ofício para justificar a falta de caráter, respeito e valores proclamados no juramento solene. Onde estão os verdadeiros representantes da medicina? Trancafiados nos bolsos e carteiras, nos cartões de crédito e concessionárias de carros de luxo.

Em um país onde se importam médicos cubanos, porque os médicos brasileiros não se importam mais, onde as leis protegem as empresas de planos de saúde, onde se desvia verba de medicamentos do Sistema Único de Saúde, dedicar tempo para criticar automedicação é no mínimo ridículo. Saúde vai além da leitura de uma bula, porém, pra quem se preocupa em lê-las parece uma opção plausível, muitas vezes necessária e sensata devido a tanto descaso e abuso da classe médica e das autoridades.

Viva Fidel! Viva Cuba! E leia a bula!

Eduardo Pachalski