Momento de tensão
Nos últimos meses, vimos aumentar o número de reportagens colocando em xeque a postura de ginecologistas e obstetras. Primeiro, foram as reportagens e denúncias sobre violência obstétrica e depois, o conhecido caso ocorrido no Rio Grande do Sul. O Brasil todo discutiu o que se passou com a gestante que se recusou, com orientação de sua doula, a ser submetida a uma cesárea, a despeito de duas cesáreas anteriores e o feto estar em apresentação pélvica. Diante da negativa da gestante e seu marido, a obstetra que a atendia procurou ajuda judicial. A juíza consultada autorizou a intervenção. Finalmente, a gestante foi conduzida ao hospital para a realização da cesárea, com indicações claras à luz de qualquer tratado de obstetrícia. O caso ganhou repercussão nacional e internacional e todos sabem de seus desdobramentos.
Mais recentemente, estamos vivenciando também o caso de Santos, no qual a Casa de Saúde, numa decisão intempestiva, resolveu que a partir do dia 1º de maio, só atenderia partos e procedimentos obstétricos no horário das 8h às 16h. Exige que todos os procedimentos sejam marcados e não mais atenderá urgências e emergências obstétricas. Estupefatos e incrédulos, vimos que numa canetada se decretou que não mais existiria o determinismo de parto e que sangramentos e abortamentos só ocorreriam em horários determinados. Um descalabro! Nosso valente Professor Delascio, se aqui estivesse, certamente ficaria injuriado, não? Diante disso, a nossa brava e forte Comissão de Valorização Profissional discutiu intensamente os fatos e, com apoio do nosso jurídico, decidiu por uma Minuta de Representação ao Ministério Publico, solicitando providências que garantam assistência integral às gestantes de Santos e Baixada Santista, além de oferecer condições mínimas para um bom atendimento obstétrico. Aguardaremos a evolução e estaremos atentos, sempre na defesa do obstetra e da gestante.
Há quem diga que estas discussões receberam grande enfoque da mídia por se tratar de um movimento orquestrado para atacar os médicos de forma geral. Será isso? Não sei! Sinto que devemos nos debruçar e discutir a fundo o que vem ocorrendo. Entretanto, não desejo aqui me aprofundar no tema e polemizar. O que realmente me causa estranheza é o fato de denúncias de violência obstétrica virem à tona sem uma discussão ampla, sem a posição dos especialistas e dos acadêmicos mais experimentados de nosso país. A discussão se faz na mídia e nas redes sociais, todos se manifestam e o obstetra fica no centro do furacão. Ninguém quer ouvi-lo, ninguém quer saber sua opinião.
A SOGESP não nega que existam maneiras inadequadas de conduzir um trabalho de parto ou indicar um procedimento cirúrgico em nosso meio. Contudo, não podemos aceitar que uma especialidade proba, dedicada ao correto exercício da profissão e a seus pacientes, seja maculada por generalizações.
* Jarbas Magalhães, presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia de São Paulo, SOGESP



























































