DIA DO CONTADOR, NADA A COMEMORAR
por Juventino Ribeiro

Surpreendeu-me e até me enalteceu uma nota que o amigo Jorge Miguel Caliman postou no Facebook. Enalteceu-me, não por ter motivo para comemorar o dia 22 de setembro, dia consagrado ao Contador – bacharel em ciências contábeis – pois já abandonei a profissão. (O dia 25 de abril é considerado o dia do contabilista, que engloba a antiga classe de técnicos em contabilidade).
Caliman foi meu colega na Faculdade de Ciências Contábeis e Administrativas Moraes Júnior, no Rio de Janeiro, na década de 70. Naquela época essa faculdade era expoente nos cursos de Ciências Contábeis e Administração. Para se ter uma ideia, houve um concurso federal disponibilizando 425 vagas, das quais 405 foram ocupadas por alunos egressos dessa faculdade entre os quais estavam os 20 primeiros colocados. O diretor do DASP enviou um telegrama parabenizando a Moraes Júnior, relacionando os alunos vitoriosos. Durante muito tempo esse documento foi guardado como um troféu. Não sei se ainda existe.
Caliman, amigo, sinto-me lisonjeado pela deferência e reconhecimento por ter sido seu mentor nos primeiros passos na prática contábil. Entretanto, o mérito é todo seu, pela demonstração de inteligência e discernimento no aprendizado para enfrentar os desafios da profissão. Seus questionamentos sobre o porquê disso ou daquilo não me incomodavam. Nunca gostei de trabalhar com pessoas que aceitassem tarefas passivamente sem a certeza de sua eficácia.
Lembro-me perfeitamente da grande dificuldade que tínhamos para execução das rotinas de departamento do pessoal, de escrituração fiscal para, depois, consolidar tudo na escrituração contábil, pois naquela época ainda não dispúnhamos das facilidades proporcionadas pelos sistemas integrados atuais.
Depois, na Loudon Blomquist Auditores Independentes, já como auditores, estávamos mais tarimbados, executando tarefas de nível elevado, onde beirávamos a excelência na prática da ciência contábil que tanto me apaixonou, capitaneados pelos sócios Nogueira e Noel.
O tempo passou e me apossei de um rosário de frustrações que me levaram a abandonar a profissão. Convivi com maus empresários que só visam a lucros imorais, eximindo-se da prática de uma cultura empresarial que conjugue valores perenizadores de sustentabilidade para o negócio.
O grande problema é que, para não perder o cliente, alguns profissionais se prostituem e transformam o que seria a boa prática contábil numa fábrica números. Alguns empresários querem duas contabilidades: a gerencial, onde aparecem os números reais do negócio. Após o fechamento do mês, gera-se um balanço gerencial e enxugam-se os números para fechar a contabilidade para o fisco. E, assim, o contador é sempre visto como o mágico, convivendo num ambiente de faz de conta. Nada é real no balanço que elabora e a remuneração, por maior que seja, nunca compensa e nunca lhe proporciona aquele halo resultante de sua satisfação pelo cumprimento do dever profissional.
Imagine um médico cardiologista fazendo de conta que esteja exercendo seu ofício para tratar o coração daquele empresário. E o engenheiro fazendo cálculos subestimados para a construção da planta industrial do empreendimento, proporcionando risco aos colaboradores do processo produtivo e ao próprio empresário.
O mau empresário e o mau profissional de contabilidade não têm consciência de que o balanço deva ser uma nítida fotografia da situação patrimonial do negócio, a fim proporcionar aos usuários dessa peça contábil – investidores, bancos e fisco – segurança para tomada de decisões.
A legislação que adapta nossa contabilidade aos parâmetros internacionais, bem como as normas técnicas e interpretações técnicas emanadas do CFC-Conselho Federal de Contabilidade são alguns dos dispositivos que norteiam um bom trabalho de contabilidade, muitas vezes desconhecidos por muitos que se dizem contadores. Por outro lado, a legislação fiscal tem transformado o contador cada vez mais refém de exigências para cumprimento de obrigações principais e acessórias. Acredito que mais de 70 por cento do tempo do profissional é dedicado a essas tarefas.
Vários profissionais que conheço manifestaram-se distantes de saberem o significado de impairment, (deterioração), que tecnicamente trata da metodologia de cálculo da redução do valor de recuperação de bens do ativo, gerando o registro da baixa contábil da diferença apurada. É um dos recentes avanços no campo da contabilidade que exige do profissional mais estudo e atenção.
O contador deve ser abnegado, pois a profissão, qual sacerdócio, exige dele muita dedicação e constante busca por aprimoramento. É uma ciência cuja prática exige que se recorra a, pelo menos, oito ciências para sua boa prática, sem contar que a ciência do Direito subdivide-se em diversos ramos, a alguns dos quais, invariavelmente, o contador necessita recorrer para colimar um bom trabalho. Acrescento, ainda, que do contador é exigido muito discernimento, aplicação de princípios de filosofia e de ética, aumentando-se, assim, o leque das ciências coadjuvantes da contabilidade.


























































