Heckel Januário em: UMAS E OUTRAS INUSITADAS DA CIDADE (XV)
(NOTAS DE BELMONTE – ‘BEBEL’ PARA OS MAIS CHEGADOS)
O babado da duplicata da Pfizer Corporation no Banco da Bahia contado no Umas e Outras anterior não passara de um aperitivo, meio às poucas e boas de 1961 a 1964 relacionadas com esta agência bancária, numa época em que bancário tinha a precípua obrigação da camisa branca e gravata preta no trabalho, de comportamento exemplar, de não escorregar nunca, especialmente em cidades pequenas como Bebel.
E rolaram realmente pesadas, valendo expor –envolvendo todo o corpo funcional– que se pudéssemos abrir obico como manda o figurino, elas receberiam de imediato o carimbo de “censuradas”, apesar da liberdade democrática. Mas uma está livre. Mantínhamos (o “nós”, reitera este escrevinhador, conforme o Umas e Outras XIV, como participante desta turma bancária), claro, o princípio da responsabilidade, mas éramos também festeiros por excelência e estávamos ‘em todas’, como se dizia. À cata de festas, as viagens para as hoje Costa do Descobrimento e das Baleias e localidades circunvizinhas mineirasfaziam parte do script.
Certa feita pintou a do Salto da Divisa, e nos acompanhou o advogado Hugo Santana, farrista de primeira, falador contumaz, boa praça e amigo da rapaziada bancária. No auge do baile (tocava os “Garotos da Lua”, um conjunto belmontense de sucesso nos arredores) Samuel, um dos diretores do clube, e gente considerada na comunidade saltense, começa a leiloar um peru em benefício de uma causa nobre. Ressalte-se que o Salto portava pecuaristas de alto calibre, ricos, melhor dizendo, e muitos estavam presentes no evento. Num dado momento, um dos nossos, ao manjado “quem dá mais?” de todo leilão, cisma de dar uma cantada, logo rebatida pela de um citadino com expressivos cruzeiros a mais (era ‘cruzeiro’ a moeda). Ao sabor de “Jequitinhonha está invadindo o mar” do leiloeiro numa alusão –e provocante brincadeira– à instantânea contraoferta mineira, o Dr. Hugo, como era conhecido nosso acompanhante, não hesita em começar a replicar as ofertas dos mineiros. De súbito, por puro gesto de educação dos “senhores do gado”, parando de ofertar, a ave galinácea foi parar em nossa mesa. No outro dia, um domingo, fomos degusta-la na casa do médico e fazendeiro Dr. Emilio Pimenta, a seu convite. Basta dizer: o valor do arremate era tão alto que cotizado pelos nossos dez participantes, não chegara à metade, inclusive fazendo um emissário –para receber o restante do capilé– ter de nos acompanhar, no retorno a Bebel. No percurso o inesperado: o ‘jipão’ de Zé Herculano(um amigão e nosso ‘enturmado’ que como na ida, nos conduziria de volta) que havia saído na matina da segunda-feira, quebra na estrada. A demora do conserto nos fez chegar meio-dia em ponto a agência. E aí outra surpresa: postado, e a bater na porta, estava Cezaltino Andrade (Cezaltino era aqui da Capitania dos Ilhéus), inspetor deste banco e tido como rigorosíssimo. Sem alternativa, o gerente –que não viajara com o grupo–, foi obrigado a mudar o expediente, via de regra pela manhã, para a tarde. O fato é que acabávamos de bater de testa com um agente de inspetoria numa agência que estava sendo secretamente investigada (não por falcatruas, nem desonestidade ou corrupção), mas como dissemos, pelas ‘poucas e boas’ acontecidas, incompatíveis com o moralismo imperante daqueles tempos. Daí em diante, um processo de “limpeza” da agência teve curso: os mais velhos funcionários foram transferidos, os mais novos (como o ainda menor de idade da escrevinhação, e Dominguinhos), ambos, office-boys, submetidos a testes (de conhecimentos gerais, português etc.) como condicionantes da permanência. Mas, veja você! Sem um prévio anunciado do conteúdo. Entretanto, como naqueles idos, em matéria de estudos (agora com o particularizado “eu”) caminhava célere pra entrar no time dos que “não queriam porra nenhuma”, confesso ter feito umas provas fudi… , embora os gabaritos jamais tenham sido apresentados.
Na lista da carta marcada? Sem sombra de dúvida. Rescindia-se assim um contrato com o banco de Clemente Mariane, lógico, sem deixar de passar pelas tradicionais transações trabalhista-capitalistas: uma indemnizaçãozinha do tipo grana para enganar a torcida e um acordado pedido voluntário de demissão.
Heckel Januário






















































