Heckel Januário em: LEMBRANÇAS DA EXTENSÃO RURAL (2)
A primeira “Lembranças…” de outras ocorrências meio jocosas da vida laboral da extensão rural, pintara aqui na Capitania dos Ilhéus e de modo imprevisto. Resolvemos então retroceder um pouco mais no tempo e continuar com as recordações.
Ao ingressar na Ceplac (revivendo, era um órgão que retendo via lei 15% da produção do cacau brasileiro, agia na Região Cacaueira da Bahia como um verdadeiro governo, uma espécie de ‘governo paralelo’ baiano, em virtude de sua autonomia e poderio financeiro) fui designado –orientado por Guilherme Paternostro, um dos diretores do Departamento de Extensão -Depex, de que o local era bom para iniciantes– para o escritório de Itapebi. Comandava-o Arnaldo (pecado, não lembro o sobrenome do cidadão) que, não demorou muito, fora transferido para o especial de Salvador. Para o seu lugar, veio, José Ribeiro (conhecido como Zezito), agrônomo recém-formado.
Localizado no fim do Rabo da Gata, perto da Praça do Havaí, de sua varanda ao fundo e ao alto, descortinava-se uma deslumbrante paisagem do Jequitinhonha, que ainda não se cogitava nele a construção da Usina Hidrelétrica de Itapebi.
Floresciam os anos 70. Desfrutar as águas mornas, calmas e quase límpidas do rio, era imprescindível. Aí, de um momento pra outro, a coloração começa a mudar e a predominar a cor barrenta. Sinal de enchente, não restava a menor dúvida. Apesar de já “cansado de guerra” em razão de evidentes e ininterruptas agressões humanas desde a nascente, notadamente a do descontrolável desmatamento de suas margens, consequência de assoreamentos ao longo de seu curso, não obstante, o fenômeno das cheias assustava e podia causar transtornos aos ribeirinhos. O armazém de insumos agrícolas –abrigando fertilizantes, fungicidas como o badalado Cobre Sandoz, controlador da Podridão Parda, doença superada nos dias atuais pela famigerada Vassoura de Bruxa, e o polêmico BHC etc. etc. – ficava na parte baixa do imóvel e o piso a mais ou menos dois metros do leito do rio em estado normal.
E lá vêm as águas subindo. Zezito, novo no pedaço e ao deparar com aquela situação ímpar, extracurricular, procurou –preocupadíssimo com o que viria pela frente–, um meio de contatar-se com a chefia da referida seção extensionista (hoje Centro de Extensão–Cenex) no eixo Ilhéus-Itabuna. Mas como o termo ‘comunicação’ naquela época, podia ser considerado, em todos os aspectos, um palavrão –além disso, mesmo já sendo produzido em escala, o escritório carecia de um ‘fax’, revolucionária invenção comunicativa de outrora–, somado à rigidez orçamentária de não ser permitido extrapolar custos, no que a burocracia obrigaria o funcionário responsável a provar tim-tim por tim-tim os motivos de tal decisão (possivelmente reflexos do aparente, mas intensamente propagado moralismo dos ‘anos de chumbo’ da ditadura militar), resolvera, sem alternativa, tomar uma iniciativa: após ficar de calção e sem camisa, desceu a escadaria de mais de 20 degraus, botou um saco de adubo nas costas e, subindo, de retorno, dava os primeiros passos para salvar os materiais das águas caudalosas que avançavam. Diante de laborioso ato encabeçado pelo chefe, o escriturário Laerte Andrade não hesitou em empreender o mesmo roteiro e, haja saco pra transportar… De minha parte, não sendo rebelde e as circunstâncias a exigir esforços cooperativos, também meti mãos a obras.
Com o Jequitinhonha se avolumando rapidamente, horas depois, chega (através de um rádio amador se não me falha a memória) a aguardadíssima ordem liberando a contratação necessária de carregadores profissionais, o que fora fundamental no socorro completo do estoque e em nos livrar de chegar a uma extenuante fadiga.
Heckel Januário
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