Por José Everaldo Andrade Souza

Ir.’. Everaldo

Caríssimos leitores e seguidores do R2CPRESS, integrantes e interessados na história da Franco-Maçonaria.
Conforme anunciamos na edição anterior desse estudo, dedicado às origens e raízes da Sublime Ordem dos Cavaleiros da Arte Real, prosseguiremos destacando os seus prováveis ancestrais, ordenados de acordo com os listados anteriormente.

CORPORAÇÃO OPERÁRIA

As guildas operárias apareceram da França antes de serem inicialmente notadas na Inglaterra e na Alemanha. Uma organização de pedreiros existiu na França desde 1365 e, nos arquivos da cidade de Amiens, encontra-se um código, datado de 1407, que regia as suas práticas. Há a menção de um código anterior, datando de 1260, que se refere a Carlos Martel, o avô de Carlos Magno e um dos homens para quem, alega-se, os segredos dos antigos construtores foram transmitidos.
Entretanto, há outra organização francesa que chamou a atenção dos que buscam o verdadeiro ancestral da Maçonaria: a Compagnonnage (a Corporação Operária).
Em 1841, um historiador francês, Agricol Perdiguer, publicou Le livre du Compagnonnage ( O Livro da Corporação Operária), que apresenta o relato detalhado de uma misteriosa organização de pedreiros a qual, conforme o livro, era composta dos Filhos de Salomão, dos Filhos de Soubise e os Filhos do Mestre Jacques.
Conta a lenda que Mestre Jacques era um dos mestres pedreiros que trabalhou no Templo de Salomão e foi colega de Hiram Abiff, o mestre pedreiro de Tiro enviado a Jerusalém para ajudar a construir o Templo.
Entretanto, como o livro foi publicado somente um século depois de a Grande Loja ter sido fundada em Londres, é bem possível que o autor tenha feito uso do conhecimento de seus rituais para descrever os rituais da Compagnonnage.
Além disso, na Inglaterra, os rituais dos pedreiros foram adotados pelos Franco-Maçons. Na França, a Compagnonnage permaneceu separada da Maçonaria ali estabelecida. Juntando tais fatos, é pouco provável que a Compagnonnage tenha sido a progenitora direta da Maçonaria.

OS DRUIDAS

O Druidismo era amplamente praticado nas Ilhas Britânicas há mais de 2 mil anos, antes de ser forçado ao isolamento pelos conquistadores romanos. Os druidas parecem ter combinado as funções de sacerdotes, juízes e políticos, praticando seus ritos em bosques sagrados de carvalhos. Nos séculos XVIII e XIX, houve um ressurgimento de interesse no Druidismo, mas o conhecimento das crenças e das cerimônias originais é apenas superficial. Se há alguma ligação entre ligação entre o Druidismo e a Franco-Maçonaria, ela se perdeu nas brumas do tempo.

OS ESSÊNIOS

Os membros dessa confraria judaica, fundada no século II a.C., viviam uma vida monástica na região do Mar Morto, em Israel. Diferentes dos seguidores de outras religiões contemporâneas, eles não adotaram o sacrifício de animais como meio de agradar ao seu deus. Eles eram renomados pela sua piedade, virtude e estrita observância do Shabat. Os essênios eram mais ou menos autossuficientes, mantendo-se por meio do trabalho manual, e eram generosos para com os outros. Eles viviam em companheirismo e consideravam que as posses de um eram as posses de todos.

OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS

Talvez os mais românticos dos supostos ancestrais da Franco-Maçonaria, e certamente o tema sobre o qual mais se escreveu, sejam os Cavaleiros Templários. A Ordem foi fundada em 1118 por Hugues(ou Hugo) de Payens e por outros oito cavaleiros franceses, os quais se propuseram a proteger os pelegrinos que viajavam do porto de Jafa a Jerusalém, na Terra Santa. Os cavaleiros tomaram os votos monásticos e estabeleceram seu quartel-general na área do Templo de Salomão, do qual deriva seu nome.
Eles foram finalmente expulsos de Jerusalém após a queda de Acre, em 1291; mais tarde, a Ordem foi suprimida principalmente por inveja da sua riqueza e poder.
Na França, onde a Ordem foi suprimida com particular crueldade, sua fortaleza foi tomada pelos Cavaleiros de São João. Mais tarde, a velha torre da construção tornou-se a prisão onde Luis XVI e sua família foram encarcerados antes de sua execução e a de sua rainha Maria Antonieta, em 1793.
De acordo com alguns historiadores da Franco-Maçonaria, é possível que os Templários tenham compartilhado alguns de seus conhecimentos e rituais com os mestres pedreiros que empregavam e que, mais tarde, esses mestres artesãos tenham incorporado o conhecimento e os rituais aprendidos deles em suas próprias tradições.
Evidências encontradas em 1867 afirmam que, após escavarem as ruínas do Templo de Salomão, eles descobriram algo de enorme valor espiritual ou material. Uma coisa é certa, ficaram imensamente ricos quase que de imediato, em termos históricos. Algumas pessoas se perguntam se seria possível que os segredos dos pedreiros de Salomão estivessem juntos ao que os Templários descobriram?
Voltando para a França, em 1305, o rei Felipe IV, beirando a falência, confiscou as terras e as posses dos judeus franceses. Dois anos mais tarde, havendo dissipado tudo o que roubara, Felipe decidiu fazer o mesmo com os Templários. Não satisfeito em requisitar suas terras e posses, conseguiu do papa Clemente V autorização para instruir a Inquisição a extrair, sob tortura, informações dos Templários capturados, que legitimou o que veio a ser descrito como “o grande latrocínio”.
Alguns Templários conseguiram fugir do país com suas famílias e uma parte de seus bens, e é a partir desse êxodo da França para outros países da Europa, particulamente para a Escócia, que surge a fonte de grande parte do folclore da Franco-Maçonaria.
Tal como grande parte da história da Maçonaria, nunca teremos certeza a seu respeito. Se existe uma ligação entre os Cavaleiros Templários e a Franco-Maçonaria Moderna, na melhor ou na pior das hipóteses, pode ser apenas um mero mito. Entretanto, o que deve ser dito é que a conexão templária proporciona romance e colorido à história da Maçonaria.

OS ROSA – CRUZES

A partir do final da Idade Média, homens conhecidos como Cabalistas estavam muito ocupados em conceber e em decifrar fórmulas mágicas e anagramas, e na procura da Pedra Filosofal que transformaria metal básico em ouro. Esse particular grupo cabalista apareceu pela primeira vez em 1614, quando o manuscrito Fama Fraternitatis des Loblichen Ordens des Rosenkreuzes ( A Reforma Universal e Geral de Todo o Mundo pela Ordem de Rosenkreutz) foi publicado em Kassel, na região alemã do Reno.
O manuscrito descrevia como, alguns anos antes, o túmulo de um indivíduo mítico chamado Christian Rosenkreutz havia sido descoberto em uma densa floresta. Rosenkreutz escrevera a respeito de uma época em que o homem seria um com o “Ser Supremo”, que não fazia distinção de religiões e concedia tolerância religiosa a todos. Diversos especialistas indicaram que mesmo que os rosacruzes existissem no início do século XVII, as Lojas maçônicas, que viriam a evoluir na Franco-Maçonaria, já estavam amplamente distribuídas nas Ilhas Britânicas e, particularmente, na Escócia.

ARQUITETOS ITINERANTES

Em um de seus diários, John Aubrey, conteporâneo de Samuel Pepys e, tal como ele, um cronista da época, registra uma observação feita por um colega antiquário que, aproximadamente, na época de Henrique III (1207-1272), o papa autorizara uma “Companhia de Arquitetos Italianos” a viajar pela Europa para construir igrejas. Aubrey escreve que, de acordo com a sua fonte, “desse grupo derivou a Franco-Maçonaria”. Infelizmente, buscas nos arquivos do Vaticano não conseguiram ainda encontrar qualquer evidência documentada para dar suporte a essa teoria e, mesmo que a ocupação principal desse grupo fosse construir igrejas, ela nunca teria sido exclusiva. Na qualidade de agentes independentes, esses arquitetos trabalhariam para quem tivesse dinheiro para remunerá-los, tanto sacerdotes quanto leigos.

Em breve retornaremos com mais uma abordagem relativa ao assunto em pauta.

JOSÉ EVERALDO ANDRADE SOUZA

MESTRE MAÇOM DA LOJA ELIAS OCKÉ N° 1841

FEDERADA AO GRANDE ORIENTE DO BRASIL – RITO BRASILEIRO

ORIENTE DE ILHÉUS – BAHIA

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
Johnstone, Michael
Os Franco-Maçons – trad – Fúlvio Lubisco – São Paulo: Madras, 2010
Título original: The Freemasons.


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